• Guilherme Turati

Aos noventa anos de hipocrisia, e além!


Ontem, 04 de abril de 2018, foi realizada mais uma cerimônia do Oscar, essa que premia os melhores (cá entre nós, na opinião de uma academia composta, grande parte, por velhos brancos) filmes do ano passado. Com a crescente maré de casos absurdos no meio de uma indústria sempre caótica e corrompida, movimentos pró-mulheres como o “Me Too” (Eu também) e o “Times Up” (O tempo acabou) ganhou grande repercussão e com isso uma enorme leva de pingentes com seus nomes nos ternos e vestidos de gala da noite - como também aconteceu no Golden Globes e todos os recentes prêmios de cinema. Juntamente com nomes conhecidos por ter um histórico problemático, Casey Affleck e James Franco foram totalmente cortados da cerimônia. Aí que entramos num dos problemas. A estatueta de melhor ator, um dos mais importantes da noite, foi Gary Oldman, acusado de espancar a ex-esposa em 2001. "Quando eu peguei o telefone para ligar para a polícia, Gary agarrou meu pescoço e apertou. Eu recuei, com o telefone na mão. Tentei discar. Gary pegou o telefone e bateu com ele no meu rosto três ou quatro vezes. As duas crianças estavam chorando.” contou Donya Fioretino em um de seus relatos. Kobe Bryant, um dos ganhadores de melhor curta-metragem animado, foi acusado de estupro em 2003. O que adianta afinal um repertório de piadas ácidas contra o monstro de Hollywood, Harvey Weinstein, durante toda a celebração da Academia, um espaço (ainda pequeno) dado para diretoras e mulheres por trás das produções, broches e discursos com palavras bonitas se no final de tudo a estatueta continuou indo para a mão de pessoas que fazem parte do problema? Há alguns anos o Oscar ainda foi acusado de apenas indicar pessoas brancas, o que levantou a hashtag #OscarSoWhite (Oscar Branco Demais), e no ano seguinte novamente piadas com o ocorrido foram feitas pelo apresentador, naquela vez Chris Rock, e alguns indicados negros foram incluídos para diminuir as reclamações que com toda certeza preocuparam as grandes cabeças por trás de todo o espetáculo. O discurso de Frances McDormand, ganhadora de Melhor Atriz, incluiu um clamor por igualdade e um lindo momento onde todas as mulheres da indústria foram citadas e tiveram uma atenção dos holofotes; Uma Mulher Fantástica, estrelado uma atriz transsexual concorreu em Melhor Filme Estrangeiro; o romance LGBT, Me Chame Pelo Seu Nome, concorreu em todas principais categorias e ainda levou o de Melhor Roteiro Adaptado; o extraordinário Get Out levou o de Melhor Roteiro Original... mas ainda assim a utopia está longe demais das mãos daqueles que lutam contra os míseros números de participação e representatividade em grandes produções. Essa preocupação de incluir minorias, obviamente para evitar maiores dores de cabeça, continuou e irá continuar, isso afetou até as cadeiras da Academia e as pessoas que as ocupam, mas novamente eu te pergunto, você que ainda está aí: Quando teremos outro Moonlight levando o douradinho para casa? Até quando os votantes irão se recusar a assistir obras como Get Out, que escancara a realidade absurdamente racista da América atual de Donald Trump e seus antecessores? Até quando filmes racistas como Três Anúncios Para Um Crime (chamado carinhosamente por mim de Três Racismos, ou Three Bilgore) serão considerados os favoritos? Greta Gerwig entrou na categoria de melhor direção após quase uma década sem uma mulher aparecer por lá, quando teremos outra? A “cidade dos sonhos” continua podre, apenas vem se maquiando aos poucos para esconder essa realidade porca do pleno século 21. Talvez estejam usando os mesmos maquiadores de O Destino De Uma Nação, tenho certeza que Gary Oldman pode dar umas dicas.