• Lays Vieira

Economia e Meio Ambiente: o Fórum Mundial da Água e a relação entre capitalismo e recursos ambientai

Entre os dias 18 e 23 de março, ocorrerá em Brasília o Fórum Mundial da Água, evento internacional que ocorre a cada três anos, em diferentes países. Pela primeira vez no hemisfério sul, o evento tem como objetivo compartilhar ideias, experiências e sugestões em discussões que abrangem temas como: clima, desenvolvimento sustentável, ecossistemas, cidades, finanças e, principalmente, a água. Um dos carros chefes do fórum é a disponibilidade de ferramentas, na sua maioria via internet, para que cidadãos do mundo todo participem.


Apesar de todas as questões em torna da real efetividade de eventos como este, o importante aqui é entender como essa relação entre economia capitalista e meio ambiente tem se tornado cada vez mais nociva, principalmente para algumas parcelas da sociedade, em especial a população campesina.


Os debates em torno das questões ambientais já se firmam em âmbito global desde, pelo menos, os chamados “novos movimentos sociais”, na década de 1960. E, hora ou outra, ganham maior visibilidade a depender dos fatos. Nesses primeiros meses de 2018, dois acontecimentos chamaram a atenção da grande mídia: o transporte de milhares de bois, via navio, do Brasil para o abate na Turquia (algo que ocorre, infelizmente, há anos e é apoiado por setores e políticos ligados a bancada ruralista e ao agronegócio); e os debates em torno do destino do Aquífero Guarani.


Entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro, era bastante comum notícias sobre a possibilidade do “governo” de Michel Temer privatizar o Aquífero Guarani. Boato que se arrasta desde 2016, mas se intensificou após a breve e discreta participação do “presidente” brasileiro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. No episódio em questão, o nosso amado presidente teria tido reuniões com CEOs de diversas multinacionais, em especial a Nestlé, a Ambev e a Coca-Cola, para possíveis concessões de exploração do aquífero. O governo nega os boatos.


Mas por que tais empresas têm interesse em promover esse tipo de exploração? De um lado, a água como sendo a maior matéria prima utilizada pela Coca-Cola e pela Ambev; do outro lado, o Aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água do mundo, com cerca de 40 mil quilômetros cúbicos de água, abrangendo Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, onde, por sua vez, ocupa oito estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.


A de se ressaltar que o reservatório já vem sendo usado, tanto dentro como fora do nosso território, mas em especial pelo Brasil. Na maioria dos casos, para abastecimento público, seguido do uso industrial e, depois, para fins turísticos, de acordo com pesquisa realizado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) com dados referentes de 2003 a 2009.


Entretanto, o uso na agricultura, principalmente para irrigação e empreendimentos agroindustriais vem crescendo rapidamente nos últimos anos. Esse “desenvolvimento no campo”, que governos e empresas adoram estampar, a exemplo do slogan “agro é pop”, possui em sua concretude diversos resultados contraproducentes e está diretamente ligada a luta diária da população rural de baixa renda.


A modernização da agricultura é parte de um processo global, intensificado pelo desenvolvimento do capital. Com isso, o foco da agricultura nacional passou a ser as grandes monoculturas exportadoras em detrimento da soberania alimentar, a qualidade de vida da mulher/homem do campo e o meio ambiente. As grandes plantações de soja, trigo e milho, além da indústria de agrocombustiveis, com grandes plantações de cana-de-açúcar, vem se expandindo cada vez mais rápido sobre biomas como o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia. Vem perseguindo e expulsando populações indígenas e tradicionais, normalmente vistas como obstáculos para a circulação e comercialização dessas mercadorias (e aqui nem estamos tocando no tema da indústria mineradora, também extremamente perversa em termos ambientais e sociais – Mariana está ai para provar).


Essa estrutura econômica desloca a população do campo, gerando reflexos também no meio urbano para onde esses trabalhadores migram, substituindo-a por maquinário. Acrescente-se a isso toda uma serie de desmatamentos, poluição do solo e de lençóis freáticos em decorrência do uso de agrotóxicos, concentração fundiária e internacionalização da agricultura (quando corporações, Estados ou fundos financeiros internacionais compram e utilizam grandes áreas de terras nacionais). E um dos principais motivos para que isso ocorra é que o Brasil é o país com maior disponibilidade de água doce e terra arável, recursos indispensáveis para a agricultura, pecuária e mineração. Acredita-se que o Brasil abriga cerca de 15% das terras aráveis ainda inexploradas do mundo.


Assim, essa onda de aquisições de terras por parte de estrangeiros, produção voltada para o mercado internacional e a determinação de um padrão tecnológico, deixa cada vez mais claro o poder corporativo entranhado no meio rural. E isso não ocorre apenas aqui no país. As ofensivas de governos e grandes empresas sobre o campo no sul global ocorrem por diversas razões. Segundo estudos voltados para esse tema, as principais são: lucratividade mediante aumento da produção, pastagens para uso na pecuária, produção voltada para combustíveis e celulose e disponibilidade de água doce (ligado também a possibilidade grandes financiamentos de obras de construção de hidroelétricas – olha só Belo Monte não é mesmo?!).


Tudo isso resulta em precarização do trabalho, degradação ambiental, deslocamento e morte de populações indígenas, quilombolas e tradicionais, perda de aspectos regionais e culturais, entre diversas outras consequências socioambientais. É preciso manter os olhos abertos, manter o debate vivo, com uma forte atuação política e a busca por alternativas mais sustentáveis de produção agrícola. Não podemos ser inocentes ao ponto de pensar que eventos como o Fórum Mundial da Água, que em última instancia é financiado por organizações internacionais, seja a solução dos problemas da água e do meio ambiente. Não, ele não é, mas ele pode ser usado como estratégia de visibilidade midiática e impulsionador, pelo menos a curto prazo, para a importância e a materialidade do debate ambiental frente a sociedade civil e dos riscos da crescente privatização da natureza que está em curso. Vamos ver no que vai dar...