Muito além de diversão

April 5, 2018

 

A convivência - e, muitas vezes, o respeito - para com a diferença, a pluralidade e a multiculturalidade nas diversas instâncias da sociedade ainda se mostra complicada. Com isso, a construção/significação da noção de alteridade e, a partir disso, sua contextualização e o entendimento de sua importância, especificamente, na área educacional, é cada vez mais evidente. Muito por conta do fato da escola ser um lugar de convergência de algumas das tensões existentes na nossa sociedade, apresentando em sua dinâmica interna uma grande pluralidade.

 

Para os que não têm familiaridade com o termo, alteridade diz respeito a se colocar no lugar do outro ou constituir-se como outro, onde a origem da noção está em reconhecer-se no outro, mesmo que inicialmente exista diferenças físicas, psíquicas e culturais. A alteridade é de extrema importância, em especial se partirmos da relação entre identidade e diferença que, de um lado, é estreitamente dependente e, de outro, é conflituosa. 

 

É com base nisso, que chegamos na conexão entre identidade/diferença e o campo da educação. Seja nas pedagogias oficiais, seja na formação educacional crítica, as questões do multiculturalismo e da diferença tornaram-se centrais nos últimos anos. Até porquê, a identidade e a diferença têm a ver com as atribuições de sentido ao mundo social e as disputas em torno dessas atribuições.

 

Assim, a alteridade, a identidade e a diferença se mostram temas de extrema importância a ser discutido em sala de aula. E como fazer isso de forma que os alunos não encarem como apenas mais um conteúdo do currículo obrigatório e sim como algo a ser aplicado cotidianamente? Como debater algo tão importante de forma acessível, compreensível e interessante para esses jovens? O uso do lúdico em sala de aula pode ser uma ferramenta bastante útil para tal.

 

O lúdico está ligado a um brincar, ele diz respeito a um aprender não mecânico, um aprender significativo do qual o aluno participe raciocinando, compreendendo, reelaborando o saber historicamente produzido, superando uma visão ingênua e parcial da realidade. Trabalhar com o lúdico não é só promover o brincar, é também utilizar de ferramentas “não convencionais” em sala de aula, coisas que estão no cotidiano dos estudantes, mas não em seu cotidiano escolar. Com todo um conjunto de recursos linguísticos e audiovisuais, as séries de TV podem com facilidade serem usada como uma dessas ferramentas lúdicas para o processo de ensino-aprendizagem, nas escolas e universidades.

 

Desde o início dos anos 2000, a chamada “cultura pop” vem ganhando cada vez mais espaço no âmbito, não apenas nacional, mas também global, estando cada vez mais presente no nosso cotidiano. Com a inserção, e posterior lucratividade, de filmes de super-heróis no mercado, houve uma espécie de resgate da cultura nerd e, o que antes era visto com certo preconceito e estranhamento, hoje “virou moda” e é um mercado bastante lucrativo. Atualmente as opções de produtos dessa vertente conseguem abarcar de crianças a idosos e estão cada vez mais inseridos no nosso dia-a-dia.

 

Nesse contexto, as Histórias em Quadrinhos (HQs) é uma das expressões/produtos mais populares. Sua influência está na música, no cinema, na literatura e em outras diversas formas de demonstrações artísticas e culturais. As maiores bilheterias dos cinemas atualmente estão, em sua grande maioria, nas mãos de filmes baseados em HQs. Nota-se também o fato de que, nos últimos anos as HQs também vêm influenciando as produções televisivas e o conteúdo produzido para veiculação através de plataformas de streaming, como as séries Demolidor e The Flash. Vale a pena ressaltar que a popularização de produções audiovisuais via serviços de streaming, a exemplo da Netflix, vem afetando as audiências dos conglomerados televisivos convencionais. Um dos fatores a influenciar tal mudança de hábitos é a também a popularização de aparelhos móveis com acesso à internet. O desenvolvimento de aplicativos para celulares de acesso a serviços de streaming vem fazendo com que o número de espectadores de series de televisão cresça cada vez mais. O Brasil, fica atrás apenas dos EUA em número de assinantes da Netflix, por exemplo.

 

Obviamente essas formas de entretenimento vão influenciar a vida social, seja na camiseta que o seu amigo está usando, seja no que se discute no ônibus, e até mesmo com a família no almoço de domingo. Essas histórias comumente trazem questionamentos sobre a sociedade, a política e o mundo atual, levando os leitores e consumidores a refletirem sobre o contexto em que estão inseridos (exemplo mais recente é o filme do Pantera Negra – inclusive, recomendo!). Segundo alguns estudos socio-educacionais, o público leitor de Histórias em Quadrinhos, por exemplo, tende a ver o mundo como um ambiente mais injusto e muito mais enlouquecido que o mundo visto por gerações anteriores.

 

Uma das franquias de HQs mais famosas no mundo são os X-Men. Muito dessa popularidade vem do forte debate que eles fazem, desde sua origem em 1963, sobre a aceitação daquilo que é diferente. Esse “espírito” também se expressa nas versões dessas histórias feitas para o cinema e para a televisão. Um dos exemplos mais recentes disso é a série de tv, produzida pela Fox, The Gifted, baseada nos X-Men, da Marvel Comics, ligada à série de filmes de mesmo nome e inserida no mesmo universo ficcional. 

 

A trama da série gira em torno da família Strucker, que tem a vida virada de cabeça para baixo após a descoberta de que os filhos adolescentes são mutantes (pessoas que nascem com habilidades especiais, para além das capacidades comumente entendidas como humanas) em um período político-social extremamente hostil em relação a esse grupo de pessoas. Para piorar, o pai dos jovens trabalha caçando mutantes. Tal situação acaba forçando-o a rever os próprios conceitos e ideais nos quais acredita. Com tal enredo, a série aborda bem a questão da tolerância e da diferença, que acaba se constituindo como o grande fio condutor da narrativa dos X-Men, se reafirmando continuamente em várias versões da franquia.

 

Até o evento que revela os poderes do filho caçula, os Strucker são uma família “comum”, que, sem se questionar, reproduz o preconceito sobre aquilo que não faz parte da sua realidade. É essa lógica que muda quando os poderes do caçula afloram de uma forma perigosa, colocando a vida de vários outros jovens em perigo, e a filha mais velha do casal revela já ter seus poderes a três anos, mas preferiu “ficar no armário”. No enredo das histórias dos X-Men, os mutantes são tratados de formas absurdas. Na série, quando as pessoas que eles amam estão prestes a se tornarem alvos desses tratamentos, a alteridade, o respeito e o repensar de conceitos acaba despertando como um dos motes narrativos do seriado.

 

Assim, tendo em vista, de um lado, a cada vez maior popularização das series de TV e da temática em torno de heróis originados de Histórias em Quadrinhos; e, de outro lado, a pertinência da série The Gifted frente à discussão sobre da diferença, tão atual no nosso contexto político-social brasileiro, eu te pergunto: seria mesmo nada didático usar essas produções audiovisuais em sala de aula para abordar essas questões?

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