• Marcus Vinícius Beck

Prazer, sou a Democracia

Chamo-me Democracia, nasci na Grécia, na Acrópole, em meio à subversão socrática, e não ando passando muito bem no Brasil, bem como em toda a América Latina. Aqui, onde sou eternamente adolescente e vivo sempre espremida entre uma porrada e uma trégua, as coisas teimam em ir de mal a pior. Entre um golpe e outro, suplico por ajuda. Ainda que meu pedido pareça meio romântico – viva esse troço de romantismo, hoje e sempre -, ratifico que não há nada de chantagem nisso, não. Estou ferida, sinto dor, medo, raiva, angústia... Os tiros, nenhum pouco acidentais, que alvejaram Marielle, Sabotinha, Amarildo e tantos outros que morrem ou somem nesse Brasil que flerta perigosamente com o Estado de Exceção, são propositais.


Chamo-me Democracia, meu idioma de nascença é o grego, mas me comunico em todas as línguas modernas de origem germânica e latina. Falo também o idioma das ruas, do povo, com ou sem coloquialidade... Oxigênio, por favor, ufa, não consigo deixar de respirar pelos aparelhos do totalitarismo nessas horas em que o coro da intervenção militar ecoa aos borbotões pelas ruas do fascismo em uma nação personalizada por gente com camisas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a instituição mais honesta e transparente. Cadê Pelé? Que dor, Doutor Sócrates!


Não tolero atentados à novíssima Carta Magna, tal como aquele que fizeram ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tanto no episódio de sua condenação como na caravana. Perco o fôlego ante as ameaças, antes comuns porque ditaduras agem dessa forma, agora banais porque os cidadãos de bem querem pôr no xilindró as pessoas que discordam de suas ideias tolas e chulas. Mesmo que para isso tenham de ameaçar, amedrontar e matar. Como deixar pra lá essa porra?


Tenho alergia aos insultos à história, porém, do ponto de vista democrático, sou obrigada a tolerá-los. Preste atenção no que tive de ouvir e ler, por meio de figuras alopradas e páginas de jornais vendidas à máquina estatal – e fadadas ao ostracismo, porque o maltrato com a língua portuguesa ganha ares inacreditáveis ali.


Pois bem, deixe eu voltar para o assunto principal, e de suma importância: 1964 não foi golpe de Estado, o povo, à direita, obviamente, foi às ruas clamar que estavam enojados com a corrupção, com o comunismo – como se o latifundiário João Goulart flertasse com a bandeira vermelha – e mobilizaram várias pessoas no episódio que ficara conhecido como A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que culminara nos anos de escuridão dos milicos. Por isso, dispensarei entrar no mérito que fora articulado em 2016 por essa gente do Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra rua.


Chamo-me Democracia e meus tímpanos estão doloridos por conta dos megafones que servem como instrumentos para se bradar a intolerância. À direta e à esquerda de quem debate, do lado dos jacobinos e girondinos, dos mortadelas e dos coxinhas. E vocês sabe que vim aos trancos e barrancos, atravessei o período das trevas da Idade Média em que a Igreja Católica determinava o que se poderia ler ou não, vi a ascensão e queda dos governos absolutistas, entusiasmei-me com a verborragia de Rousseau, Voltaire, Diderot, Marx, Bakunin, Gramsci e Darcy Ribeiro, o que homem que saiu derrotado em tudo que o tentara fazer, chorei com a ascensão de Hitlter, tive ares de felicidade com a Revolução Russa de Lênin, depois me decepcionei com Stálin.


Lembrando da compilação de artigos A Boa Política do professor Renato Janine Ribeiro, digo no meu conhecidíssimo espírito grego, flertando com o gênio italiano Umberto Eco: A internet, ao contrário do que se acredita, é um paraíso para imbecis que antes só tinham voz na mesa do bar após várias taças de vinho.


Chamo-me Democracia, muito prazer, na versão da América Latina, sou apenas uma menininha que tem de conviver com a égide do ódio que rege a orquestra do desespero que comemorou e saudou o golpe do dia 31 de março de 1964, que derrubou Fernando Lugo, elegeu Maurício Macri e aplaudiu o golpe contra Manuel Zelaya em Honduras. Mas, ainda assim, consigo me animar com gente como o ex-jogador argentino Diego Maradona. “O povo brasileiro não pode apoiar que uma pessoa honesta como Lula da Silva seja visto como corrupto número 1, enquanto o traidor Michel Temer foi acusado e poupado", diz o ex-jogador em entrevista ao jornal Clarín, da Argentina. Grande Maradona. Conveniente Pelé. Cuidado, cuidado.