Uma crônica sobre a liquidez amorosa

April 20, 2018

Prezado leitor, essa história totalmente otimista de que a fila anda vale tanto para o sexo casual quanto para o amor romântico à lá Alvares de Azevedo. O poetinha Vinícius de Moraes, sujeito devoto ao casamento, pois constituíra nada mais nada menos do que nove famílias, dizia que a beleza é fundamental. Sim, que as feias perdoem este mal diagramado cronista de costumes que vos batuca este lirismo de quinta categoria, mas as lindas, instigantes e misteriosas sempre vão ter um espaço em meu coração.

 

No amor, contudo, a fila é um pouco menor, sequer ela existe, diriam alguns mais otimistas. Parece mais um lance do acaso, um game over em um jogo movido por coincidências. Para um amor à primeira vista, como batucou em vários jornais da imprensa carioca na década de 1950 e 1960 o cronista Paulo Mendes Campos, há várias tentativas frustradas, põe frustrada nisso, chega a dilacerar o peito. Ora, o sujeito, ou a moça, podem ficar cara a cara, corações disparados, mas nada rolar. Inclusive, não há mau nenhum nisso.

 

A fila amorosa empaca como a preguiça de um jornalista bêbado, para usar uma imagem de Rum: Diário de um jornalista bêbado, do pai do gonzo Hunter Thompson, o demente mor com notória habilidade literária, outro padrinho espiritual desta coluna. Aliás, outro dia estava exercendo meu talento boêmio e eis que me deparo com ela. Foi difícil conter o ímpeto de tesão que acometeu – e controlou – minha humilde capacidade de raciocínio. Sabendo que sou um poço de esquisitice, ela chegou perto de mim e começou a puxar conversa. Respondi tudo, mediando-a dos pés à cabeça.

 

Pois bem, passaram-se alguns dias, quiçá semanas, até eu encontrá-la. Bebemos um vinho tinto em uma dessas noites gélidas que pairaram sob Goiânia na última semana. Conversa vai, conversa vem, ela me disse que tenho uma queda por mulher de personalidade forte. Realmente, meu amor! Mas sou tímido pra cacete, e não consegui sequer tecer uma frase mais ou menos inteligente no momento em que conversávamos. Bem, refleti sobriamente no dia seguinte, sou um cara genial depois dos acontecimentos. Ou talvez um cretino fundamental, para usar uma frase do titio Nelson Rodrigues.

 

A fila anda... só se for nesta merda de Tinder. Jovem antigo que sou, evito usar o aplicativo que vem fazendo a cabeça de nossos jovens. Porém, como me considero um sujeito atrasadíssimo no que diz respeito à tecnologia, já deve existir outras ferramentas que viabilizam o sexo casual, e eu ainda estou, pra variar, atrasado. Foda-se. A verdade verdadeira, dane-se esse negócio de redundância, é que vivemos tempos insuportavelmente líquidos. As relações humanas se esvaem rapidamente, com apenas um, ou talvez dois, toques na tela dos aparelhos eletrônicos de última geração.  

 

Enquanto isso, na fila do amor... reticência... ao mesmo estilo Tom Wolfe... Homens com olhares baixos, mexendo nos celulares. Suas companheiras de mesa, atesto, suplicam por alguma atitude deles, ou só atenção mesmo, já é suficiente. Apesar de vivermos na modernidade líquida, como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ainda é possível encontrar estranhas pessoas que curtem uma onda de amor, e repudiam a fugacidade do pinga-pinga sentimental. Enquanto escrevo estas linhas, ela está em algum lugar, muito feliz, certamente.

 

E eu, escrevendo crônicas sobre um aparente fracasso amoroso. Mas, como um mediano cronista de costumes, não quero entrar nessa onda de modernidade, né? Pra que inventar? Então, após esta confissão, irei molhar a palavra ali na bodega da esquina... prepara aquela de Orizona, seu Leandro. Até a próxima sexta-feira. Forte abraço.

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