• Júlia Lee

Seres da mata



20 de janeiro de 2018, um dia quente, abafado, com nuvens brancas sob o céu azul. Essa jornalista que vos escreve se encontra em um shopping no meio de uma região nobre da cidade de Recife, à espera do Expresso Treloso – busão que levaria a galera para longe da selva de pedras onde o volume de som não pode ser maior que 55 decibéis. Jovens coloridos e autênticos se misturavam entre si para decolarem juntos – o que diminui a emissão de gases poluentes ao meio ambiente – em direção ao Guaiamum Treloso Rural, festival independente que acontecia no km 13 da estrada de Aldeia.


Arco-íris, natureza, cores, cabelos ao vento, sol tocando as peles bronzeadas do verão.. e enfim, atravesso o portal para um woodstock recifense à lá 1968. Fui transportada para o abismo da resistência cultural produzida entre seres da mata. Pense comigo caro leitor: 3 palcos em coexistindo entre as flores de Gaia, sustentabilidade planejada com gestão de resíduos sólidos e compensação na emissão de carbono, isso tudo com um line up de 20 horas num sábado pra lá de quente. Me vi entre as linhas tortas da poesia de Lawrence Felinghetti, “Infindos seus lindos seus vivos seus vívidos

seus lindos seres vivos

ouvindo e vendo pensando e sentindo

dançando e rindo soluçando e ganindo

por tardes infindas infindas noites

de amor e êxtase júbilo e agonia

bebendo e queimando falando e cantando”.



O staff do evento contava com a ajuda dos seres da mata, profissionais de todos os tipos que compunham a proteção e organização daquele universo utópico. Mauro Maia, 49 anos, já trabalha pela terceira vez como segurança e diz que essa edição melhorou consideravelmente, afinal “o povo é educado sabe? Estamos presentes porque é importante, e todo mundo nos trata como iguais. A equipe trabalha bem e em paz”, desabafa comigo quando o pergunto sobre o que achava do rolê. Já a jovem de 33 anos, Michely Ribeiro, que pela primeira vez trabalha como segurança explica que a “mistura de música e cultura, esse mix de ritmos, eu via quando era pequena no bloco do Guaiamum. Eu viria só pra entrar, porque são pessoas de todos os tipos e culturas”.


Voltemos na raiz da cultura de uma das regiões ocupadas pela corte Portuguesa logo no início da colonização, em 1535 cria-se Olinda, hoje cidade considerada da mesorregião Metropolitana de Recife. Como uma das cidades mais ricas do século XVI Olinda era ‘Lisboa pequena’, tendo um fluxo intenso de contra culturas: escravos e índios sobreviviam à hegemonia europeia que desembarcada diretamente para as terras tupiniquins.


Caro hermano, veja bem, a cultura de Recife e Região se sustenta pela resistência dos povos oprimidos e miscigenados que perpetuam em cotidiano a alegria de um povo colorido, porém esquecido pelo resto do país que nascera ali. O que acontece então com essa cidade que enfrenta dificuldades de criação do novo? As paredes sufocam aqueles que se encontram trancafiados em um mercado cultural que morre a cada dia para a desigualdade social, segregação e as tendências importadas do vazio existencial. Incentivo estatal é segmentado e voltado para o turismo de épocas específicas, e como forma de manutenção do afastamento sócio-cultural elitista, não existe incentivo para o financiamento de empresas privadas à cultura. Os sonhos experimentais morrem da fome que assola o nordeste com a crise pós-golpe.


Maaas, acalma-te caro leitor, como diria o querido Ricardo Noronha, um dos gestores do Guaiamum “o pessoal queria um woodstock não era? Isso aqui é woodstock, com lama no pé, sereno e céu estrelado.” Há quem continua na linha de frente de resistência, para o que passado não morra e o futuro exista em sonhos na disseminação de uma cultura livre, e o Guaiamum é um exemplo de que existe espaço para ser ocupado por aqueles que acreditam nas possibilidades.


Como disse Baco Exu do Blues, em entrevista para o Metamorfose, "eu sou muito direto em tudo o que falo, eu sempre digo que temos que bater em racista. É dar valor há quem tá ali, o público quer consumir do que é de fora. O povo é tratado como gado, mas a música nordestina começou a sair pro eixo, somos escutados agora. Existe resistência e uma das formas de resistir é tocar em qualquer lugar do nordeste. Porque quem sente na pele não esquece, o nordestino é o vilão pra todo tipo de pessoa preconceituosa", conta Baco.


Já para Di Melo, outro ser da mata que tocou no festival, “primordialmente, se tratando de arte, temos que construir o novo furando as barreiras. Esse festival respira arte, resistência e algo mais entende?”, conta Di Melo.


Afinal, é criando a possibilidade de reunir seres em prol de um momento maior de existência que criamos uma realidade onde o amor, a paz, sustentabilidade que materializamos o novo. É ter um ambiente sem preconceitos, com a troca sincera entre artistas e público. Essa jornalista que vos escreve só espera que um dia, nossa querida pátria consiga disseminar a integração cultural dos nossos povos, de forma que a cultura se torne politizada e os corações apaixonados pela mudança!


Até o próximo festival.