• Sara Macêdo

O malandro encaixotado no tabuleiro da democracia

A conjuntura atual do país que permite uma agenda de retrocessos de 50 anos - em dois anos de mandato do presidente não eleito Michel Temer, destina-se a não acreditar na verdade de um detento. Dráuzio Varella, cientista brasileiro, sentenciou em sua obra “Estação Carandiru”, a estética da malandragem, um transgressor, indignos de credibilidade, e, por conseguinte, a prisão é a estação do mentiroso. A harmonia dessas sentenças produz um método-fim baseado na perversidade e satisfação doentia de assistir esse indivíduo marginal aniquilado em seu encarceramento.


Onde existem pessoas, mas não se enxergam cidadãos. No segundo pior Estado do país em condições humanitárias de encarceramento, o Paraná, chega à chamada inovação da execução penal, as denominadas celas modulares, e sumariamente, os contêineres, que promete modernizar o sistema penitenciário. Tais celas modulares, em outra época – sede de nazismo alemão -, foram chamadas de geladeiras de carne humana. Não há grades nas portas, mas sim isolamento total. Um programa caro, aliás, mas não tão interessante ao Estado que parece pretender riscar um fósforo para acabar com o excessivo número de pessoas em regime fechado no Brasil.


Paraná é considerado vanguarda, e Goiás vêm logo atrás, serão adquiridas duzentas unidades ao custo de R$ 28 milhões, de sorte que cada caixote custará aos contribuintes goianos a bagatela de R$ 140 mil. A penitenciária com o sobrenome Santillo – pesquisem a fundo sobre essa família e saberá bem que comporta o título da casa de extermínio e encarceramento em massa -, não pode se contentar em aguardar esse protótipo em que o corpo caiba nos exatos limites de um leito, uma vontade verbalizada sem qualquer vergonha.


Soluções desumanas para problemas sociais, a legalidade tão reafirmada nos tribunais também passa longe, desrespeitando as Regras de Mandela. A serviço do punitivismo se usa do eficienticismo utilitarista, a vontade democrática não tem força de morada no esgoto de aprisionamento humano. Uma criatividade arquitetônica que esbarra na inspiração do holocausto alemão.