Medo e delírio em Criméia Leste

Ilustração: Heitor Vilela 

 

Às duas, três ou quatro da madrugada, em algum lugar do Setor Criméia Leste, em uma segunda-feira qualquer, na verdade durante uma sessão etílica pós-produção jornalística, encontramos uma macumba temperada com um litro de 51, uma cidra vagabunda, um frango depenado e nove ou dez velas pretas recém acesas. Era numa encruzilhada como aquela que transformou o bluesman Robert Johnson em um gênio da música no século XX. Sentíamos as três ou quatro doses de conhaque que bebemos anteriormente no bar do do Jair correr lentamente pelos nossos sangues. Estávamos eu e o jornalista contracultural Carlos Durruti atrás de mais uma birita para suportar as dores geradas por este sórdido ano de 2018 e pelas virulências da vida cotidiana.

 

Isso nunca havia acontecido antes... Será que voltamos a ser homens pré-históricos? Ou perdemos totalmente a nossa decência e auto-respeito? De repente, desci do carro e fui caminhando calmamente, olhando para os dois lados, temendo que reações sobrenaturais pudessem acontecer e tentando ficar no controle da situação, para apanhar a pinga com certa tranquilidade. Então, peguei-a e retornei ao sereia vermelha. Ao pôr o pé para dentro do veículo, Carlos disse: “Você não vai pegar a outra garrafa?”. Fiz uma avaliação rápida de tudo aquilo e decidi pegar a cidra. “Somos uns lixos de pessoas”, bradou Carlos, quando voltei ao carro. No auto-falante, Jim Morrison berrava uma canção lindamente sensual.

 

Uns merdas. É isso que somos. Confesso que fiquei irritantemente paranóico depois que a bebedeira passou. Eu fui movido pelo medo dos valores religiosos que regem a sociedade ocidental. Na redação do Diário de Notícias, um dia depois do lamentável episódio, eu só pude torcer para que o pior não acontecesse comigo, nem com Carlos. Ora, dizem que coisas tristemente esquisitas podem rolar quando você pega pinga em macumba com frango e velas pretas. O problema é que não faço a mínima ideia se havia ou não as tais velas pretas naquela porra de lugar. Na hora, só tive o ímpeto de encher a cara mais um pouco, e nem sequer refleti sobre rituais religiosos que são feitos com ingredientes que encontramos perdidos na rua em uma madrugada qualquer.

 

Veja bem: a garrafa de 51 simbolizava nada mais, nada menos, do que a possibilidade de concretizar o grau etílico que estava em nossos sangues e elevá-lo a níveis absurdos, irrisórios, que dois branquelos não experimentam desde o século XVI, quando os europeus chegaram à América Latina e catequizaram os índios e escravos que eram adeptos a tais estados religiosos e etílicos. Alguma pessoa seriamente comprometida com os preceitos da umbanda, se estiver lendo isto aqui, estará pensando que sou um filha da puta lunático, depravado e sem um reles pingo de consciência moral… um cretino que contribui para a disseminação de preconceitos em torno das religiões africanas.  

 

Lamentável. Por um momento, sentado no Aqui Chopp, no Criméia, tive convicção de que estava fazendo algo extremamente inútil e que seria um milagre sairmos daquele recinto sem levar uma facada ou um tiro. Mas, após discutirmos com meia dúzia de caras que estavam bebendo civilizadamente suas cervejas, atestamos que não ligamos de fato para as crenças religiosas, ou para o perigo iminente que pairava sobre nós e nossos comentários altamente mentirosos cujo objetivo era atingir bêbados barrigudos com cara de rato sentados em cadeiras de plástico. Do nada, nosso entusiasmo renasce, o escárnio vai parar à ponta da língua… um perigo!

 

Jesus Cristo! Não quero te dizer nada, mas acho melhor você tomar conta de nós. Não iremos nos responsabilizar por qualquer situação que fuja de nosso controle. Sim, compreendo que somos um bando de seres decrépitos, sem moral alguma, bêbados, drogados, deprimentes e deprimidos... Tenho certeza de que não faz muita questão de ter nossa companhia no reino dos céus. Imagine só dois caricatos, verdadeiros solitários da rebeldia da década de 1960 e 1970, enchendo a cara contigo? Pensando bem, é uma má ideia, retiro minhas palavras, fica bem Senhor Jesus.

 

Quem era aquele maldito filha da puta que deixou uma garrafa de 51 em uma encruzilhada? Não faz sentido alguém se dar ao trabalho de provocar uma bebedeira homérica em dois jornalistas acostumados com a penumbra financeira, sentimental e amorosa, e ainda fazê-los celebrar a lamúria de cada dia encarnando um espírito pé de cana. Em síntese: dois merdas com notória habilidade literária e artística, mas mergulhados em sentimentos sórdidos. Ora, perdemos o pouco resquício ético que norteia qualquer atividade humana e descemos ao nível rastejante de meros bêbados ensandecidos atrás de um trago de pinga barata.

 

Para esta história fazer algum sentido, é preciso voltar ao momento em que me deparei com Rodolfo da Silva comprando cervejas em uma distribuidora do Criméia no meio da madrugada. Bêbado, cheguei para falar com o proprietário do estabelecimento, mas estava tão tomado pela birita e sequer dei conta de sussurrar uma frase possível de ser compreendida pelo homem moderno, na língua portuguesa moderna.

 

Então, Rodolfo se virou a mim e me saudou: “O que você tá fazendo aqui, Xico?” Disse-lhe que estava indo embora, porém resolvi contar o episódio que protagonizei na encruzilhada como se fosse Homero em sua clássica epopéia sobre a mitologia grega. Percebi que seu semblante ficou alegre, com sorriso triste exposto à cara. “Vou beber um trago desse trem, pode ser?”, perguntou, pegando a garrafa de bebida  antes de formalizarmos nossa objeção. Rebati, dizendo que sim, que “a cachaça estava ali para ser bebida, caralho”. “Que loucura da porra, gente”, falou Rodolfo, sentindo o destilado lhe queimar o esofâgo.

 

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm…. “Você vai me pagar uma cerveja para eu lhe acompanhar, só vamos até você caso haja bebida - e de graça, sabia?” “Talvez”, responde alcoolicamente Rodolfo da Silva, nosso colega de redação, “mas só agilizar o rolê de vocês, porque também vou querer afundar o pé na bebida. Tô triste, meu amigo de infância, idealizador do jornal do Criméia, morreu”.

 

Boa, saborosa, eis um bebida de pessoas respeitadas: a cerveja. Muito saborosa. Muito sutil. Não é 51 de terreiro. O negócio é que precisávamos encher a cara, comemorar o incomemorável, saudar o ócio de cada dia, essa merda toda, alardear e gargantear que empunhávamos uma cachaça encontrada em uma macumba. Minutos depois o foco da conversa mudou. Passamos a falar sobre a deplorável situação em que nos encontramos enquanto meros operários do texto.

 

De repente, um velho com olhos saltados e cara de jagunço nordestino, se aproximou de nós, e disse:

 

“Vocês beberam pinga de macumba?”.

 

“Sim”, respondi. “A gente queria dar uma variada, sabe, essas coisas de gente estranha”.

 

“Isso é sério”, falou o velho, laconicamente, com o semblante fechado. “Tinha frango?”, emendou, pedindo um cigarro.

 

Carlos, sabiamente, explicou que não tínhamos dinheiro para nada, nem para miserável cigarro de cada dia.

 

“Não tinha frango, e eu não tenho nada aqui, meu bom”, sentenciou meu companheiro, bebendo um longo e violento trago de pinga.

 

“Nesses casos, normalmente, quando o povo deixa umas cachaças na rua é para a galera sair ali e bebê-las mesmo, sem frescura, nem nada do tipo”.

 

“Foda-se tudo isso. Eu sou um cara que acredita só na luta de classes. Pra mim a coisa é muito simples: havia uma pinga na rua que me deixaria mais bêbado do que estou, então resolvi pegá-la e bebê-la”, relata Carlos.

 

É verdade que por alguns instantes tive a sensação de que os acontecimentos de minha vida estavam saindo do controle. Carlos teceu algo do tipo “olha Rodolfo seu filho é um cara legal, mas é conservador para caralho, sempre fura as porras das greves que rolam no trampo”. O clima esquentou um pouco e os dois travaram uma competição retórica cuja finalidade não era nada mais do que estabelecer o mais caricato. Nem preciso dizer que Carlos ganhou esta batalha com certa folga.

 

Do nada, começamos a falar de Maia. Lembro-me que escrevi um texto para ela, enorme, de 6 laudas, uma coisa altamente apaixonada e literária. Mas o foco da conversa não era minha singela homenagem a ela, e sim o que Carlos deveria fazer para conquistá-la. Bradei algumas situações bem pontuais acerca das principais características de Maia, nada que pudesse deixá-lo para baixo. Elogiei-a e sacramentei: “ela gosta de você, cara”.  Na verdade, reconheço, vê-los juntos é interessante. Não por conta de ambos estarem se amando, mas sim por conta do casal que formam: posso encher a cara com Carlos, protagonizar as maiores barbáries, e conversar com Maia pensando em segundas intenções, porque tudo seguirá na mais singela e genuína camaradagem de nós três.

 

No meio de nosso desabafo existencial e amoroso, o velho de olhos arregalados voltou à nossa mesa. O sujeito sentou-se com nós, mas eu prontamente levantei e fui até ele para lhe dizer que alguém iria ocupar a cadeira. Acho que não fui bem interpretado, porque o cara partiu para cima de mim. Fiquei imóvel quando o velho chegou em minha direção para me dar um murro, ou algo do tipo. Porém, acabei abraçando aquele miserável com semblante torturante e perigoso. Certamente não era a nossa hora de fazer a grande travessia para o outro lado do paraíso. Por fim, ele perguntou se eu e Carlos éramos um casal.

 

“Algo me diz que vocês dois são uns gays”, bradou.

 

“Talvez, nunca se sabe”, provoquei.

 

Carlos acendeu um cigarro, sorrindo.

 

“Meu caro, já fiquei com homens e essas coisas todas, mas me considero hétero”, respondeu Carlos.

 

“Sei não, hein”, sacramenta o velho.

 

“Deixe eu te explicar uma coisa: antes de sermos agraciados com sua companhia estávamos falando da mesma mina, de uma mina que nós dois gostamos… então acho que o teu senso de julgamento está errado”, discorri.

 

No momento em que estávamos perdendo o controle da situação, Rodolfo interviu e pediu para que o dono do bar fechasse a nossa conta. Mas Carlos e eu continuamos bebendo 51 no gargalo até findar a garrafa. Neste meio termo, surgiu um cara trajando o manto do Vila Nova. Chato, o sujeito não parou um minuto sequer de discorrer sobre o time da Vila Famosa e sobre os perigos que enfrentou indo ao Serra Dourada no final de semana. Chamou-nos de playboy. Redargui dizendo que Carlos havia sido preso por espancar três pessoas na saída de um clássico do Vila contra o Goiás. Visivelmente abalado, ficou nos encarando. Antes de irmos definitivamente embora, Carlos quase teve seu chapéu roubado pelo vilanovense.

 

“Porra, devolva o chapéu do cara”, pedi, educadamente, temendo pelo pior.

 

“Só se vocês me derem um troco para comer um sanduíche ali na Praça do Bretas”, exigiu.

 

“Tô quebrado, sem grana, sem nada”.

 

“Ué, mas você não era diretor de um jornal e ele (Carlos) um artista de renome mundial?”

 

Fiquei calado, levemente deprimido por jogar migué sem maiores constrangimentos em gente perigosa, assustado pelo desfecho que a situação teria.

 

Rodolfo tirou da carteira uma nota de R$ 10 e deu para o cara. Ufa, foi por pouco!

 

Entrei em casa em escorando pelas paredes. Mais um dia, mais um dia de loucura, um dia de medos e delírios no Criméia Leste.

 

*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

 

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