Sem a camisa de força de um roteiro, Luiz Bolognesi mostra realidade indígena

June 7, 2018

 

Em entrevista, o diretor e roteirista Luis Bolognesi contou como foi a produção do filme Ex-Paje. Falou também sobre os povos indígenas e a importância do FICA para fomentar produção audiovisual no Brasil

"Ouvindo o chamado dos espíritos", Perpera Suruí. Foto: Divulgação

 

A primeira vez do roteirista e diretor Luiz Bolognesi no FICA foi há dois anos, quando apresentou o filme “Uma história de amor e flor” na mostra competitiva. Na 20ª edição ele volta abrindo a Mostra de Cinema com o documentário “Ex-pajé”, vencedor no Festival de Berlim e que está rodando o mundo. Este não é o primeiro filme sobre tribos indígenas que Bolognesi faz, porém tem um diferencial em relação aos outros e causa um grande impacto em quem assiste. Para ele e toda a equipe também foi uma experiência impactante. “Estou feliz de participar mais uma vez do FICA que comemora a 20ª edição, nesta cidade que é maravilhosa e, em especial, por ser o festival um dos mais importantes de cinema ambiental e que abre a oportunidade de debate entre realizadores e público. Além de exibir o filme Ex-pajé, Luiz Bolognesi ministrou um minicurso, Roteiros para novas plataformas digitais, na quarta-feira (6 de junho), pela manhã. Nesta conversa com o Site Metamorfose ele conta como foi a experiência de fazer este filme, como surgiu a ideia e a importância da realização de encontros como o FICA.

 

Metamorfose - Como surgiu a ideia deste filme, o Ex-Pajé?

 

Luiz Bolognesi - Na verdade, eu já trabalho com a questão indígena há muito tempo, eu sou da área da antropologia. Eu já tinha feito dois filmes sobre a questão indígena, o roteiro do Terra Vermelha (2007), sobre o guarani kaiowá e tinha feito um desenho animado chamado Uma história de Amor e Fúria, que é uma leitura da história do Brasil do ponto de vista de um índio tupinambá que estaria no Rio de Janeiro no século XVI e seria um imortal. Eu estava preparando um filme que seria a entrevista com oito pajés para tentar trazer e revelar um pouco a maneira de pensar dos pajés. E durante a pesquisa eu conheci o Perpera, que é esse pajé que se diz ex-pajé, coisa que eu não sabia que existia. Eu já tinha ouvido falar em ex-prefeito, ex-jogador de futebol, mas ex-pajé... E ele me explicou que não estava como ex-pajé porque queria, mas porque ele estava sob pressão do pastor evangélico. E que continuava vendo os espíritos e que os espíritos estavam muito bravos, porque ele parou de tocar as flautas sagradas, de fazer os cantos mágicos e tal.  E diante deste encontro super inesperado com ele, eu mudei o projeto. Eu achei que o filme era colar no Perpera e mostrar esta história que os pajés estão vivendo no Brasil inteiro, que é esta inquisição evangélica. Então o filme deu uma guinada e eu voltei um ano depois deste encontro, com uma equipe de cinco pessoas e passei um mês com ele, convivendo e acompanhando o dia a dia dele, filmando o conflito interno deste homem, vivendo este bullying terrível da igreja evangélica, que desqualifica o pensamento dele, que diz que tudo que ele faz é coisa do diabo e coloca ele em um lugar muito difícil de lidar e viver. O filme colou nesta realidade e foi assim que nasceu o Ex-Pajé.

 

Resistência: Tribo Paiter Suruí, da Amazônia, mantém algumas tradições. Divulgação

 

Metamorfose - Que é uma coisa que remonta muito a 1500, na chegada dos portugueses, com os padres jesuítas que fizeram a mesma coisa com os povos indígenas que estavam aqui na época. É a mesma coisa em pleno século XXI.

 

Luiz Bolognesi -  Exatamente. Eu achei que o filme tinha esta importância já que retrata um processo que iniciou com a chegada dos europeus, quando a conquista foi feita, como dizem muitos historiadores, pela cruz e pela espada. O objetivo da colonização era a ocupação territorial, de conquista territorial e de extermínio dos povos nativos, e a ferramenta que eles mais utilizaram foi a pregação religiosa, que destruía o âmago da cultura deles, culpabilizando todos os hábitos culturais. E hoje em dia tem pastor no norte da Amazônia e, em pleno século XXI, fazendo a mesma coisa, dizendo que a língua deles é coisa do diabo. E isso começou no século XVI e esse processo de cristianização, que foi uma ferramenta de conquista e desqualificação da cultura local muito forte, não parou durante todo esses mais cinco séculos. O processo agora mudou de mãos, era da igreja católica, agora está com a evangélica, mas é o mesmo.

 

 

Primeiro foram os católicos a "colonizarem" os índios, agora são os evangélicos e seus pastores. Divulgação

 

“É importante que os brancos vejam que nós trabalhamos, porque os brancos falam que a gente não trabalha”, afirma Perpera Suruí

 

Metamorfose – A construção da narrativa do filme contribui para esta boa recepção do filme, já que quem assiste se coloca no lugar do ex-pajé e sente na pele o que ele está sentindo? Isto abriu o diálogo com quem está assistindo?

 

Luiz Bolognesi - Eu acho que sim. Eu sou roteirista e escrevo roteiros para outros diretores, mas neste filme eu não cheguei com o roteiro pronto. A gente chegou com uma ideia e foi construindo o roteiro junto com eles.  E o filme ficou muito aberto, permitindo que eles se expressassem, mostrassem o modo de vida deles. E acho que esse foi um grande ganho do filme já que nós, brancos, não chegamos com uma camisa de força, uma narrativa pronta e impusemos essa narrativa a eles. Em vez disso, a gente construiu a narrativa junto com eles, entendendo o que era importante filmar. Eles diziam o queriam que a gente filmasse, o que não gostariam. Por exemplo, eles pediram para que nós filmássemos eles trabalhando, dizendo “é importante que os brancos vejam que nós trabalhamos, porque os brancos falam que a gente não trabalha”. No entanto, quando eu quis filmar as mulheres colhendo plantas medicinais, eles disseram que não poderíamos filmar isso, “porque quando elas estão colhendo plantas medicinais não pode ter homem junto e além do que nós não queremos que filme as nossas plantas medicinais porque é um segredo nosso, é um conhecimento nosso”. E a gente respeitava. E isso foi criando uma confiança muito grande e permitiu que eles se expusessem muito e o filme mergulhasse muito na intimidade deles. E acho que é isso que o filme traduz para as pessoas que assistem. Uma sensação de estar convivendo com a intimidade dessas pessoas para além dos clichês que a gente recebe da mídia, toda uma narrativa de que índio é tosco, é rudimentar, que não trabalha e o filme vai, lentamente, construindo um outro ponto de vista. E foi esta ponte que o filme conseguiu estabelecer entre o modo de vida deles e as questões que são importantes para eles e uma conexão com audiência com várias cidades e países do mundo.

 

 

Impacto do bullying religioso. Divulgação

 

Metamorfose - O filme realmente impacta. Tinha lido sobre, mas ao assisti-lo a gente fica impactado, se sente dentro da aldeia, acompanhando como fosse a câmera. Com esta narrativa você acha que tem conseguido alcançar este objetivo de levar esta realidade nua e crua para que o espectador entenda como esse processo atinge um povo?

 

Luiz Bolognesi - Tenho a impressão que sim. O filme pegou uma onda muito maior que a gente imaginava, por ser um filme local, que retrata um problema local, brasileiro, eu não tinha nenhuma segurança, nenhuma certeza que o filme iria interessar para a audiência internacional. Mas ele logo de cara foi selecionado para o Festival de Berlim, que é um dos festivais de cinema mais importantes do mundo e lá teve quatro sessões super lotadas, com debates e um olhar muito forte da crítica internacional e ganhou um prêmio. E isso fez com que os spots do cinema se voltassem para o filme. E só no mês de maio o filme esteve em quatro continentes, na Ásia (Israel), na Europa (Alemanha), na América do Norte (Canadá) e na América do Sul (Brasil). Daqui eu estou indo para um festival na Inglaterra, chamado Sheffield Doc/Fest, um dos dois festivais de documentário mais importantes do mundo, mostrar o filme. A surpresa é isso, porque as audiências, de um modo geral, se interessam muito pela história. E é muito diferente a reação do público europeu para do brasileiro. Basicamente o que eu noto é que o público brasileiro se emociona, no final é quase uma comoção. E os europeus ficam indignados. E dizem: como é possível? Ainda mais que passei o filme na Alemanha e o pastor é alemão. Causou um mal-estar para eles ver essa opressão cultural, que é a marca da Europa na África, na América e tal. E é um filme que tem tido esta possibilidade de apresentar os índios modernos, porque tem gente que fala “Ah, que índio que usa celular, usa note”. Ué, os portugueses não andam mais de caravelas e ninguém fala que eles deixaram de ser portugueses. Então eu sinto que o filme surpreende porque ele leva uma nova imagem do que é uma tribo indígena contemporânea que tem carros, tem motos, são empresários de agrofloresta e não deixam de ser índios. Falam a língua deles, a cultura deles está ali e está vivendo este conflito central, que é o conflito entre a ancestralidade da cultura deles e essa inquisição evangélica. Esse é o conflito que está acontecendo nas tribos do país hoje.

 

 

 " O filme pegou uma onda muito maior que a gente imaginava", Luiz Bolognesi, diretor e roteirista. Divulgação

 

Metamorfose - Agora, que captação de áudio é aquela! Porque a gente percebe pelo áudio captado os sons da floresta, isso foi proposital na montagem?

 

Luiz Bolognesi - A estratégia, desde o começo, foi: como vou aprender uma cultura que é tão diferente da nossa? Eu concluí que tinha que ser não pela articulação de entrevistas, eu abri mão de entrevistas, mas pela poesia. Então, poesia no cinema é câmera e som. E apesar da gente ser uma equipe pequena, a gente foi com um equipamento de primeiríssima qualidade. A câmera que filmou é uma câmera cinemascope e a gente filmou com um fotógrafo muito sofisticado, o Pedro J. Márquez, que é espanhol. O técnico de som a mesma coisa, que foi Rodrigo Macedo e a montagem foi feita por Ricardo Farias. E a gente investiu nisso não por um narcisismo, por uma vaidade do diretor, mas porque eu achava que a gente tinha que captar a força deste mundo através da poesia. E o trabalho sonoro respeitou muito o trabalho do pajé. O tempo todo a gente percebia que o pajé estava falando comigo e de repente ele entrava em um transe, sempre puxado pelo som. O som tinha essa potência, esse poder, de levar o Perpera para outros caminhos. A gente notou isso e construiu o som do filme muito forte, respeitando os silêncios no filme. E a gente fez uma construção de som com um técnico, o Rodrigo, que faz filmes muito sofisticados no Brasil, como o Tropa de Elite, Cidade de Deus. A gente cuidou do som como se fosse uma super produção, entendendo que este impacto sonoro nos ajudaria a entender o modo de viver dele, os silêncios dele e foi desta maneira que a gente construiu o filme.


 

 

 Sons da floresta: Perpera Suruí recebe o chamado dos espíritos e sofre dilema interno. Divulgação

 

Metamorfose – Qual a avaliação que você faz do FICA, que chega a sua 20ª edição?

 

Luiz Bolognesi - É muito importante, porque este festival reúne dois temas, o cinema e o meio ambiente. E ainda acontece no meio do bioma cerrado, que ainda resiste no meio de uma devastação gigante em toda a região do Centro-Oeste brasileira e em um lugar onde o Bioma Cerrado é preservado, de cultura muito forte, como a Cidade de Goiás, com sua arquitetura, seu patrimônio histórico, a própria herança cultural de uma grande mulher, poetisa, que é um exemplo para o Brasil, que é Cora Coralina. Então, é muito importante ter já há 20 anos um festival de cinema internacional que traz a temática para a discussão. E espero que eu venha nos próximos 20. Estou muito feliz de estar aqui.

 

Metamorfose – Você acha que o festival ajuda a fomentar o audiovisual no Brasil, em especial com esta temática?

 

Luiz Bolognesi - Fomenta muito. Na verdade, a gente precisa de mais encontros como esse. Fica cada um na sua caixinha trabalhando e todo festival é uma oportunidade de troca de conhecimento, de informações, de experiências e de linguagem. E uma oportunidade para todos que trabalham com audiovisual se alimentar vendo outros projetos. É assim como para um médico a importância de ir a um congresso para se atualizar. Para nós do audiovisual a mesma coisa, com uma questão diferente, o público pode participar. No congresso de medicina talvez não tenha graça, mas num festival de cinema é uma oportunidade muito grande para toda comunidade de Goiás, do Centro-Oeste que se desloca para cá, que lota as pousadas e vem para ver os filmes, também uma oportunidade muito interessante. Estou muito feliz de ter vindo.

 

 

 

"Poesia no cinema é câmera e som", Luiz Bolognesi. Divulgação

 

 

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