• Rosângela Aguiar

Como fortalecer e ampliar o protagonismo da mulher no audiovisual

O questionamento que predominou na mesa "Mulher no cinema" foi papel que elas exercem no cinema




A diretora de cinema Laís Bodanski foi uma das participantes da mesa "Mulher no Cinema". Foto: Júlia Lee


Jardim da Casa de Cora Coralina. Um lugar mágico, repleto de história de uma mulher busca da ressignificação do discurso e posições do feminino na sétima guerreira e à frente de seu tempo. E foi ali, sob a sombra de árvores centenárias que mulheres realizadoras de cinema no Brasil debateram e trocaram ideias na arte. A diretora Lais Bodansky, a atriz Bruna Linzmeyer, a diretora e roteirista Susanna Lira e a professora de cinema da UEG, Ceiça Ferreira, foram as estrelas da mesa de cinema realizada nesta sexta-feira, 8 de junho, com o tema Mulheres no Cinema, na Casa de Cora Coralina.


O intenso debate levantou questões importantes sobre a presença do feminino no cinema e a necessidade de ressignificação do olhar sobre a mulher. “O machismo não é o oposto do feminismo. Um não deve ser contra o outro. Temos que trabalhar juntos para reeditar as regras de convivência”, afirmou a diretora Lais Bodansky.


E como podemos fazer isto no cinema, em especial no Brasil? Os desafios das mulheres na produção audiovisual no país são diários e começam na escolha da equipe, passando pelo set de filmagem e a finalização de todo o material captado. Sem falar na apresentação em festivais e mostras competitivas onde a quando não são maioria, os homens são a totalidade do júri e não conseguem entender a visão feminina.


“Além destes desafios diários, precisamos fazer uma desconstrução da da situação em si, do discursos, dos bastidores e de como é estar num set de filmagem sendo as protagonistas da realização do filme”, disse Susanna Lira, que, como diretora, enfrenta há anos estes desafios em um mundo predominantemente de homens, mas que vem sendo tomado por grandes profissionais em todas as áreas.


Jovem, bonita, atriz e com uma história de vida forte que poucos conhecem, a atriz Bruna Linsmeyer deu um tapa na cara de quem enxerga a mulher pelo olhar do patriarcado. Para ela a mulher no audiovisual, mesmo quando protagonista de uma história, é infantilizada e não é vista como um todo, como um ser integral. Ou ela é puta, vagabunda, não vale nada e quase não tem fala, ou é linda, deusa, perfeita, não erra e é musa inspiradora. Isto tem que mudar”, criticou Bruna Lizmeyer.


“O cinema é político. O corpo é político”, Lais Bodansky.

Bruna, Susanna e Lais fizeram coro com Ciça ferreira, mediadora do debate, na sugestão aos organizadores do 20 FICA para chamar mais mulheres e ter mais mesas como a realizada nesta sexta-feira. “E acho importante também nós simplesmente temos que estar. E não sermos chamadas, mulheres, mulheres negras, gays, homens negros, para falar somente sobre estas temáticas que envolvem a questão de gênero e cor da pele. Temos que simplesmente estar, tem que ser algo natural”, reforçou Lais Bodansky.


O simplesmente estar, colocado pela diretora, levou o público presente a mais um ponto de reflexão, uma vez que, como ela mesma disse, desde o início da humanidade as mulheres foram colocadas na arquibancada, à margem como meras espectadoras e observadoras, quando, na verdade, tinham e tem muito a contribuir.


A pernambucana Kátia Mezel, cineasta, diretora, e guerreira do audiovisual, presente ao debate, foi a primeira vencedora da primeira edição do FICA. Diretora, mulher, nordestina mostrou a força do feminino em um festival que predominou o masculino na produção, direção e roteirização de filmes da mostra competitiva. Um dado relevante quando avaliamos pesquisa da Ancine que aponta que apenas 17% dos diretores e roteiristas do audiovisual brasileiro são mulheres. Se este índice já é baixo, quando olhamos para o dado sobre mulheres negras é infinitamente pior: 0%.


Kátia Mezel questionou o fato de que muitas mulheres reproduzem o esquema de poder dos homens, algo que muitas reclamam e questionam. E isto vem mudando quando diretoras se cercam de profissionais mulheres, na direção de fotografia, na montagem, no roteiro, no protagonismo dos filmes. A atriz Bruna Lizmeyer concorda e vai além do cinema. “Eu priorizo mulheres para os serviços que preciso na minha vida, encanadora, eletricista, mecânica, porque estamos em todos os lugares”. E como disse a atriz, isto é sororidade, é compartilhar, apoiar e incentivar.


“Ainda estamos numa jaula, em que a mulher é vendida como um ideal vendido pelo cinema e não falamos de nós. Isto, aos poucos está mudando. E precisamos fazer esta ressignificação do discurso e sair desta jaula, desta prisão que a sociedade nos coloca”, alerta Lais Bodansky.


Para todas elas estar no 20 Fica e nesta mesa de cinema para falar das mulheres no audiovisual tem um significado intrínseco e mostra como este debate é importante e deve ser ampliado, inclusive para a questão dos diversos gêneros.

Essas mulheres


Filha de cineastas, Lais Bodansky começou na época do vídeo quando fez o primeiro curta-metragem Cartão Vermelho, de 1995, sobre uma menina que vivia entre moleques e descobre a sexualidade. “Eu tinha curiosidade sobre o assunto, e fiz intuitivamente. Já meu último filme, Como Nossos Pais tudo foi feito com um propósito, consciente. E foram dois momentos na minha vida”, desabafou. Por ser filha de cineastas, Laís disse te ruma história diferente e particular com o cinema, já que vivenciava tudo dentro de casa, o que a ajudou a desmitificar o imaginário de que cinema não é “coisa para mulheres e temum glamour, que não existe”.



A atriz Bruna Linzmeyer também participou da mesa. Foto: Júlia Lee


A carioca Suzanna Lira, diretora e roteirista é filha de mãe solteira e criada pela avó materna, que, segundo ela, tinha muito de Cora Coralina e mesmo não sabendo muitas coisas, deu liberdade para o crescimento pessoal e escolhas da vida. “Vim de um lar com duas mulheres fortes, que me deram muita liberdade e me ensinaram a brigar pelo meu espaço”, afirmou.


A diretora entrou para a faculdade de jornalismo aos 17 anos, trabalhou na profissão e após assistir ao filme Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, resolveu largar o jornalismo e fazer documentário. “Em todos os filmes que fiz e faço, as protagonistas são mulheres e existe uma diversidade e imensa. E tenho esperança que a realidade atual mude. Eu trabalho com a mesma assistente de direção há cinco anos e agora estou incentivando ela a dirigir sozinha, ser a protagonista e é assim que formaremos mais profissionais, dando oportunidade”, explicou Susanna Lira.


A mais jovem das convidadas para a mesa, a atriz catarinense Bruna Lizmeyer, aos 25 anos, mostrou a força da mulher e também contou um pouco da sua experiência de vida e como lida com certas situações que passa no set de filmagem. “Eu sou de uma cidade de 10 mil habitantes do interior de Santa Catarina e venho de uma família pobre, cuja avó tinha um marido opressor e violento e minha mãe rompeu com tudo isso e me deu liberdade para crescer”, conta.


Ela confessou que ser atriz não era um sonho, mas acabou acontecendo. E na curta carreira até agora já enfrentou situações de assédio que só percebeu algum tempo depois do ocorrido. “Porque aquela situação me incomodava, me constrangia, me fazia querer voltar para casa, sumir dali”, desabafou.


Bruna lançou um desafio para a plateia: “Temos que fazer um exercício de troca de gênero, se fosse um gênero invertido, um homem no lugar de uma mulher em determinada situação ? O que estaria acontecendo (interrogação)”. E questiona onde estão as mulheres negras e as lésbicas, por exemplo, representadas na sua essência e não como estereótipo no cinema brasileiro.


“Nós somos corpos historicamente oprimidos, violentados, vivemos num mundo patriarcal, de homens, e homens brancos que querem se manter no poder, e precisamos quebrar isto”, disse Bruna Lizmeyer. E Lais Bodansky complementa: “A fala é de igualdade de direitos e por isso acho que precisamos reeditar as regras de convivência”.