• Rosângela Aguiar

O sabor vilaboense e as lembranças da infância

Andando pelos becos e vielas com calçamento de pedra da Cidade de Goiás, a gente se transporta no tempo. Respira história, aprende com os vilaboenses, novos e velhos, que encontramos pelo caminho. Ao acordar, ter o privilégio de tomar um farto café da manhã típico da cidade como o famoso bolinho de arroz e um cafezinho bem quente. Algo que só visitando a antiga Vila Boa, primeira capital de Goiás, para saber. E como dizem os mais velhos, “barriga cheia pé na areia”. Em uma visita ao Mercado Municipal de Goiás encontro o fubá de arroz, o queijo, plantas medicinais, o tradicional fumo de rolo, a famosa empadinha goiana e o bolinho de arroz.


Nesta edição do FICA – Festival de Cinema e Vídeo Ambiental – uma oficina promovida pela associação As Coralinas, formada por mulheres vilaboenses, tive a oportunidade, mais uma vez, de aprender uma das mais tradicionais receitas da região, o bolinho de arroz. A receita passada de mãe para filha através de gerações foi modificada por Juraci Aquino, mulher guerreira, que criou os nove filhos vendendo a tradicional iguaria da gastronomia vilaboense.


Foto: Maria Luiza Graner


E ela ensina a outras mulheres que também querem fazer em suas casas. A receita é simples, mas às vezes complica pelas medidas utilizadas, o prato e a forminha. Complicado para quem está acostumado com as facilidades da vida moderna que nos proporcionam utensílios inimagináveis em séculos passados. Mas ver Dona Juraci escaldando o fubá e depois literalmente colocando a mão na massa enquanto despeja o leite até dar o ponto, encanta e nos dá vontade de saborear logo esta delícia.


A receita mais famosa é da doceira e poetisa Cora Coralina, precursora das mulheres guerreiras da Cidade de Goiás. Uma mulher que viveu à frente de seu tempo e inspirou o projeto As Coralinas que depois se transformou em associação.


“Prato de bom bocados e de mães-bentas. De fios de ovos. De receita dobrada de grandes pudins, recendendo a cravo, nadando em calda...”, o verso do poema O prato azul pombinho, de Cora Coralina traduz a veia culinária e traduz um pouco o por quê de tantas variedades culinárias existentes na cidade.


Voltando à oficina de As Coralinas aprendo o pulo do gato, escaldar o fubá de arroz, ou seja, jogar sobre o fubá e não é farinha de arroz, porque tem diferença no resultado final, o óleo e o leite fervendo e ir misturando, tal qual fazemos o tradicional pão de queijo. Depois colocamos o resto dos ingredientes (açúcar, fermento, ovos e mais leite para chegar ao ponto) e misturamos tudo antes de deixar dar uma descansada e levar ao forno.


O cheiro se espalha como rastro de pólvora pelo mercado. E nos faz lembrar do tempo de criança quando nossas mães faziam bolo e a gente esperava ansiosamente pelo primeiro pedaço ainda quente. O sabor? Ah... este só indo até a Cidade de Goiás, em especial no Mercado Municipal e experimentar.