Domingo, 10 de junho – DIGO 2018

O domingo no centro de Goiânia foi marcado pela diversidade. A terceira edição do DIGO – Festival Internacional da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás, trouxe filmes e documentários, curtas e longas, teatro e diversas outras atividades. Com uma programação que vai até a próxima quarta, o festival teve o seu ápice neste domingo (10) e o Metamorfose marcou presença durante todo o evento.

 

O pontapé inicial foi dado com a palestra “Personagens queer na história da Arte”, com Alexandre Rabelo, escritor e romancista, em um resgate histórico demonstrando a presença de relações homo afetivas desde pelo menos 3.000 A. C. a comunidade LGBT na Arte não é nova, uma mulher lésbica, por exemplo, foi a responsável por criar a Líra. Perceber que existe esse histórico e um movimento dentro dele é importante para a própria auto -valorização da comunidade LGBT. Segundo Alexandre, em épocas como na Grécia Antiga, as relações homo afetivas eram mais naturalizadas, tendo mudado tal condição no pós-revolução industrial, que instaurou de vez a ideia burguesa de “lar”, o que é público e o que é privado. Assim, Alexandre defende que essa história queer e a defesa de afetividades múltiplas acaba por se tornar uma crítica a essa visão burguesa de relação familiar e proporciona a comunidade LGBT um olhar mais sensível frente a essa sociedade.

 

Por outro lado, o palestrante também coloca sua crítica referente as representações homo afetivas das produções áudio visuais no maio mainstream, por pregar um modelo único de amor para a vida toda, por ser muito idealizado. Ou que apresentam um amor podendo ser realizado apenas em um lugar apartado do meio social onde os envolvidos se encontrar. Além de universalizar o conceito do que é ser gay ou lésbica, alimentando uma heteronormatividade e padrões dentro do mundo queer, algo bastante afastado da realidade do sujeito queer, em especial aquele que é perpassado por diversas interseccionalidades ligadas a cor, raça e classe.  Substitui o preconceito por idealização. Em contrapartida, as narrativas alternativas buscam narrativas mais reais, geralmente abordando embates do personagem queer com a família. 

 

A palestra, como todas as outras, abriu espaço para perguntas e pequenos debates, tendo em vista a continuidade das atividades programadas. No domingo, a palestra teve fim com o início do do lançamento do livro “Nicotina Zero”, de autoria também de Alexandre Rabelo. O romance, com uma pegada bastante cinematográfica, foi premiado pelo PapoMix na categoria Melhor Livro LGBT, em 2015 e conta a estória de um DJ que tenta parar de fumar e acertar suas contas com a vivência noturna paulistana. A personagem passa por questionamentos profundos e sensações de desespero, euforia e também libertação. O romance acontece ao longo de uma única noite em São Paulo, na década de 1990. Segundo o autor, Alexandre Rabelo, o romance fala justamente da busca de amor numa metrópole. Alguns encontros do personagem, enquanto vaga pelas ruas da capital, vão por à prova seus amores egoístas. 

 

Alexandre aponta que seu livro não é um livro gay, voltado para a comunidade LGBT especificamente, pois as relações homo afetivas que aparecem a certa altura do texto não são o foco principal. O livro busca abordar temas maiores, voltados a própria essência do ser humano. Alexandre também não gosta de ser enquadrado como um autor que escreve para gays. Ele destaca que a comunidade LGBT não pode, e não deve, produzir apenas para ela mesma. Deve-se criar intersecções nas narrativas ai produzidas para demonstrar que a comunidade também tem um olhar sobre a sociedade como um todo, e não apenas para questões que lhe interessam diretamente. Para Alexandre, isso é uma forma de empoderamento.

 

As 15:00 houve uma mesa sobre o turismo LGBT no estado de Goiás e suas potencialidades. Contando com a presença de Alexandre Resende, diretor executivo do Goiânia Convention & Visitors Bureau e João Lino, gerente de projetos e produtos da Goiás Turismos, foram apontados para o público vários dados estatísticos e técnicos sobre o crescimento de nicho turístico e de como ele vem trazendo lucros astronômicos para países que investem na área, como a Argentina, país que mais fatura nesse ramo na América do Sul. Entretanto, o público teve que ouvir de Alexandre Resende que Goiânia é a “Las Vegas brasileira” (não faremos juízo a respeito dessa afirmação, fica a seu cargo, caro leitor – em especial o leitor goiano – a veracidade da afirmação ...). Importante destacar também que essa foi uma das palestrar com mais participação do público, principalmente no que tange a ajuda das instituições públicas para realização de eventos e implementação de políticas públicas para a comunidade LGBT. Exemplo disso foi a pressão do público para que a Goiás Turismo ajudasse a Parada Gay de Goiânia, o que rendeu a João Lino a firmação de um compromisso de comprometimento em defender a Parada Gay dentro das questões orçamentarias do ano que vem e a defesa do seguimento LGBT no turismo goiano. Por fim, foi ressaltada a importância de se contratar pessoas da comunidade LGBT nesse ramo do mercado, ponto que casa com a temática do festival esse ano, a empregabilidade LGBT+ e a inclusão no mercado de trabalho.

 

Contudo, uma das melhores palestrar do dia abordou justamente algo bastante em voga atualmente, a chamada “ideologia de gênero”. Ministrada pelo psicanalista e professor Eliseu Neto, a palestra discutiu a origem política desse termo e a sua relação com a escola, uma escola cada vez mais conteudista e bancaria (resquícios da nossa ditadura militar), que visa não a formação de cidadãos pensantes, mas de trabalhadores adestrados. O maior símbolo disso atualmente, segundo Eliseu, é o vestibular, que se configura como um “câncer para a educação”.

 

A escola não tem formado sujeitos. Segundo o professor, 75% dos brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, sabem ler, mas não compreendem o que estão lendo. Para piorar, a recente reforma do ensino médio deixou nossa educação ainda mais conservadora. O Brasil caminha para um retrocesso ainda maior e  usa em defesa disso argumentos como o da ideologia de gênero, que seria uma conspiração mundial para que comunistas malvados tomem o poder no nosso país (...).

 

Com tudo isso, o Brasil está, ao contrário do que dizem, muito longe de ser um pais empreendedor (já que o foco do III DIGO é voltado para a empregabilidade LGBT+). O que temos aqui é um empreendedorismo de subsistência. Para Eliseu, essa situação só será passível de mudanças se investirmos, principalmente, em formação de professores e em uma escola mais aberta das diferenças.

 

Encerrando as palestras e mesas do dia, abordou-se a saúde mental e a cobrança pessoal do que seria o ideal logo após o nascimento. O nome, as roupas, os brinquedos, o que a pessoa vai ou não gostar. Logo com o passar do tempo vendo que não se encaixa nos padrões que foram impostos começa a surgir uma disforia acarretando uma série de problemas mentais, baixa autoestima, depressão.

 

Nesse contexto, oito em cada nove suicídios são cometidos por pessoas LGBT resultado do não tratamento das doenças da mente. Pelo fato de não se enxergarem na sociedade, não se sentirem representadas sempre se questionando sobre o que há de errado.

 

A grande indústria vem com a proposta de tornar pessoas objetos, que nunca estão satisfeitos com o que são indo procurar soluções para uma falsa satisfação fortalecendo também o consumismo com uma forma de se sentir aceitos. Por outro lado, o LGBT que não tem recursos recorre a mutilação e ao isolamento. Somente no estado de Goiás são registrados 1 suicídio por semana por adolescentes de 8 a 16 anos. Tudo que foge do padrão e massacrado pela a sociedade esse é o jogo de padronizar e “normalizar”.

 

Democracia não existe se você não permite que o outro seja quem gostaria de ser.  Há uma guerra com a indústria de remédios porque é melhor é fácil sofrer com doenças mentais e emocionais do que tratar a sua mente e isso dá um certo empurrãozinho para que a indústria farmacêutica continue girando. Uma contrapartida e que falta profissionais capacitados para o público LGBT, profissionais que queiram atender a esse público. A probabilidade é que o LGBT de hoje seja o futuro profissional capacitado de amanhã. Porém fica uma questão quem são os profissionais capacitados para ps LGBT+ de hoje ?  

 

A experiência no DIGO 2018 foi bacana, mas a Equipe Metamorfose gostaria de destacar a falta de representatividade lésbica no evento, principalmente nas mesas e palestras. A sensação que se tinha era que o evento era voltado mais para o público gay e para mulheres trans dentro da comunidade LGBT+. O evento vale a pena, mas esperamos que nas próximas edições a presença lésbica seja mais equânime.

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