• Rosângela Aguiar

A Copa do Mundo é nossa?

Em 1970 eu tinha cinco anos. Eu e meu irmão, um ano mais novo do que eu, éramos crianças, brincávamos como crianças, alheias ao que aconteciam no mundo ao nosso redor. Queríamos apenas brincar de boneca, carrinho, pique esconde. Éramos privilegiados porque tínhamos uma televisão em casa. E quando veio a Copa do Mundo em 1970 sentávamos no sofá, junto com nossos pais e às vezes alguns amiguinhos, para assistir aos jogos do Brasil. Não entendíamos muito bem aquele fervor todo, e não podíamos, como outras pessoas de outros países, usar as cores das nossa bandeira. Era proibido. Não me lembro de me vestir de verde e amarelo, apenas de estar bem arrumada pela minha mãe para assistirmos aos jogos. Os anos passaram, eu cresci e comecei entender melhor o por quê de não podermos usar as cores da nossa bandeira, o que vivíamos naquele período tenebroso, mas continuava gostando de assistir a seleção canarinha. Dava uma certa esperança ver que em alguma coisa a gente era bom para o resto do mundo.


Nunca fui muito fã de futebol, apesar de no Rio de Janeiro onde cresci, torcer para o fluminense. E depois de adulta, por influência de um ex-namorido, passar a torcer também para o Corinthians. Que contradição, não é mesmo? No Rio torço para um time da "elite" carioca e em São Paulo (eternos rivais cariocas) para um time do "povão". Mas o brasil não é assim, um país das contradições? Acho que reflito bem o espírtio deste país!


Teve uma época que para mim futebol era um bando de pernas peludas correndo atras de algo redondo, a bola. Homens suados, fortes e guerreiros da bola. E só. Não dava a mínima, a não ser quando vinha a Copa do Mundo e eu parava para torcer para o Brasil se sagrar campeão mais uma vez e claro, torcer contra nossos arquiinimigos no futebol, a Argentina. E assim se seguiu durante anos. Continuo gostando de ver os jogos da Copa, Olimpíadas, mas agora, passadas quase cinco décadas, vejo este frenezi com outros olhos.


Eu era muito pequena em 1970, uma criança inocente que não sabia e não entendia o que acontecia no país. Mas cresci e fui entendendo que em muitas ocasiões o futebol, esporte favorito dos brasileiros, e isto se deve porque somos muito bons nisso, foi se tornando, o ópio do povo em épocas difíceis e intragáveis. Como dizia Karl Marx em relação à religião, o povo ia se anestesiando e se esquecendo dos seus problemas e dos problemas do resto do país e do mundo. E novamente vejo a Copa como o ópio do povo sofrido do nosso país e por que não dizer do mundo, já que atrocidades continuam acontecendo ao redor do planeta todos os dias?


Sim, eu vou assistir aos jogos do Brasil. Sim, vou torcer pela seleção canarinha, mas não mais com o frenesi de antes. E como eu, milhares de brasileiros se sentem assim. Diferente daquele período tenebroso de nossa história em que as informações do que estava acontecendo no país: mortes, assassinatos de quem era contra a ditadura militar, corrupção por parte de políticos e empresários que ficaram ricos e continuam mandando neste país, não chegavam até os brasileiros. Era tudo escondido. A imprensa era amordaçada, o judiciário vendido aos coronéis que mandavam matar e prender.


Hoje não! Esta situação não acontece porque temos a internet que nos proporciona buscar e receber informações. É verdade que se por um lado nos traz informações de todo o mundo, também traz as chamadas notícias fakes, mentiras com cara de verdade e que muitos acreditam. Foi assim com as pedaladas fiscais que tiraram uma presidenta eleita legitimamente pelo povo, foi assim com um sítio e um apartamento que prenderam o ex-presidente Lula, um líder reconhecido mundialmente e que por mais que critiquem, fez coisas muito boas para o país. Ele buscou a igualdade de direitos e deveres e isto não pode em um país onde os ricos e poderosos não gostam de dividir com quem não tem nem uma coisa nem outra (poder e dinheiro).


E acho que o pior de tudo isto é transformar a Copa do Mundo, que surgiu como união dos povos à semelhança das olimpíadas, em um grande espetáculo e que inebria os sentidos das pessoas mundo afora. Pois é, a grande mídia não fala das agruras dos russos, não fala de um casal gay francês internado após levar uma grande surra em um táxi em São Petersburgo simplesmente pelo fato de ter uma orientação sexual, de gênero diferente de alguns. E sabe porque este ataque homofóbico aconteceu? Desde 2013, há lei que proíbe a homossexualidade em público. Passeatas, paradas do orgulho LGBT e entidades que lutam pelos direitos de LGBT são proibidas e dissipadas com violência pela polícia e isso em pleno século XXI. E eu pergunto: para quê uma lei destas? Por que realizar uma copa em um país homofóbico e que trata as mulheres como objetos? Os jogos não são pra isso. São para unir e não abafar o que acontece.


Vi um vídeo que circula nas redes sociais onde psicólogos ensinam os russos a sorrirem, em especial para os turistas, para que sejam amáveis com quem chega ao país que sedia a copa do mundo. Mas precisa de mais. Precisa ensinar a aceitar o outro como ele é, mas também os turistas têm que aprender a respeitar o modo de vida dos russos. Respeitar suas crenças e culturas (que fique claro que não estou culpabilizando as vítimas deste ataque absurdo). Aqui no Brasil, quando aconteceu a copa não foi preciso nada disto, afinal, somos naturalmente um país hospitaleiro que recebe bem quem chega de fora e isto desde o século XVI. Aqui pode tudo, quase ninguém liga. Não temos uma cultura e crenças tão arraigadas como os russos e outros povos.


E por situações como a que citei, a do casal de gays espancado, um em estado grave na UTI, que me dá nojo ao pensar na copa e não me dá vontade de assistir aos jogos. Não vi a abertura, tinha mais o que fazer. Mas a garotinha que existe dentro de mim quer e vai assistir aos jogos do Brasil. E é bom até para termos como criticar ou elogiar com precisão, pelo menos sou destas que dá opinião só quando sabe do que está acontecendo, caso contrário, eu me calo. Está na minha veia jornalística. Não falo sobre o que não sei e se não sei, procuro saber antes, pesquiso, me informo.


E é isto que falta ao país: informação, leitura, notícias verdadeiras e não que se espalhe por aí notícias falsas pelas redes sociais. Espero, sinceramente, que esta copa do mundo não anestesie tanto o brasileiro a ponto de não enxergar o que está em curso no país e que, como em 1970, serviu para vendar os olhos do povo para os horrores da ditadura militar. Brasil saiu campeão mundial no México enquanto perdia internamente a decência, a liberdade, o amor ao próximo, a educação, a vida. Que a Copa do Mundo da Rússia neste ano de 2018 não seja igual. Que saiamos campeão em todas as áreas, não apenas no futebol, mas na vida de liberdade, de decência, de amor ao próximo, de igualdade de direitos e deveres, de honestidade.