Um sujeito em clima de Copa do Mundo

 

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

 

Amigo torcedor, amigo secador, estava aqui com um grupo de chegados, numa simpática bodega da região norte de Goiânia, o bar do Leandro, discutindo os rumos da seleção brasileira no mata a mata, quando um dos nossos genuínos intelectuais futebolísticos deu a letra: “O Neymar precisa jogar bola, o William também e o Gabriel Jesus tem de começar a fazer gols, senão vamos embora no momento em que enfrentarmos um time razoável”.

 

Você não está entendendo, meu consagrado, longe de ser uma mera constatação de bêbado pós jogo de Copa do Mundo, nem tampouco aquela arrogância de torcedores em dia de peleja brazuca. Foi daqueles brados retumbantes típicos de devotos pelos anos áureos da pátria de chuteiras, titio Nelson, que a gente só vê a cada quatro anos e ainda estão eternizadas em tuas crônicas que fugia do óbvio ululante, já que “em futebol o pior cego é aquele que só vê a bola”.

 

De repente naquela tarde à lá Benito di Paula, fomos tomados por falatórios contrários ao esporte bretão cujo objetivo era denegri-lo, sem mais nem menos. No momento que ouvia as palavras serem regozijadas, seguei o ímpeto de não mandar ninguém às favas e meus amigos optaram sabiamente pela mesma escolha. Enquanto isso, a máxima do futiba ser “pão e circo” ganhou força aos borbotões no boteco.

 

Ora, nos quatro cantos do Brasil é convenção que qualquer sujeito detentor do mínimo senso de respeito às emoções e sensações patrióticas contemple o escrete canarinho, embora o sentimento anti-Brasil venha crescendo vertiginosamente na terra de Ronaldinho Gaúcho durante o mundial. Compreendo tais posicionamentos, mas sou sofredor de carteirinha. Quase uma versão futebolística de Policarpo Quaresma, célebre personagem de Lima Barreto.

 

Bem, não é que porque passamos por um vexame monumental em Belo Horizonte há quatro anos que iremos endossar o coro contra os heróis nacionais que estão na Rússia – sim, eu sei dos problemas pelos quais o mundo vem passado, inclusive os do próprio Pais sede, porém podemos discuti-los a qualquer hora. A tragédia do Mineirão foi um fato isolado em nossa história detentora de cinco taças mundiais – somos os maiores de todos os tempos, isto tem de servir para algo, né?

 

Por isso, afirmo já pensando na abstinência pós Copa, em dia de jogo deveria ser decretado feriado nacional, pois evitaríamos várias situações lamentáveis e não faltaríamos ao trabalho, nem queimaríamos a largada antes de compromissos. Um cara em clima de Copa deveria ter licença para protagonizar as maiores barbáries que se possa imaginar. E não adianta, amigo, você vir me dizer que a bebedeira pela manhã é uma atitude repugnante, porque irei lhe falar que nada disso faz o menor sentido.

 

Pense comigo: se você levantou da cama ruim no dia seguinte, com a cabeça explodindo, preocupado com a bronca do chefe na firma, basta parar na padaria e mandar ver um pão quente na chapa com café preto, a tradicional refeição pela manhã do trabalhador brasileiro. Depois, é só dar três tapas na cara e, então, chegará sorridente ao serviço. No início da tarde, se sono persistir, vale uma sonequinha no banheiro de deficiente – quem nunca, porra – só para suportar a ressaca e manter o emprego.

 

Por fim, que a caminhada até Moscou, no próximo dia 15, seja leve, alegre e maluca, como nas outras conquistas que este escriba não presenciou porque era criança. Claro, quero ver a bola ciscar na rede carinhosamente e beber até dançar pagode no boteco da vila. Até a próxima, já com o Brasilzão quartas-de-final, forte abraço!

 

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