No Timbre: o amor, loucura e a genialidade valvulada de Arnaldo Baptista

July 6, 2018

Arnaldo completa hoje 70 anos como um dos músicos mais influentes e inovadores da música brasileira. Relembre essa entrevista feita em 2015 com o gênio vivo da criatividade psicodélica

“Louvado Seja Deus, que nos deu Arnaldo – Um Lóki surreal.” Peço licença para começar essa matéria, citando a música do artista goiano Diego de Moraes. Em essência, explicar ou classificar a obra de Arnaldo seria muita prepotência, ou no mínimo um desafio para qualquer jornalista ou quem se julga crítico. Então louvemos a criatividade daquele que é cantor, compositor e multi-instrumentista, que foi o cabeça dos Mutantes e como em um jogo de dominós, influenciou quase tudo que veio depois de 1967. Em Julho de 2015, ainda praticamente como um foca nesta profissão, consegui por quase uma hora conversar com Baptista via telefone. Uma verdadeira honra falar diretamente com ele que ao longo dos anos anteriores, durante a faculdade e até hoje é presença contínua na agulha de minha vitrola e trilha sonora dos melhores momentos e também os mais tristes. Essa entrevista foi publicada originalmente no aniversário de 67 anos de Arnaldo, na capa do caderno de cultura do jornal Diário da Manhã.

 

Nascido na grande São Paulo em um dia 6 de Julho de 1948, Arnaldo Dias Baptista, crescido no meio da música desde sempre. Filho da pianista e compositora Clarisse Dias e do poeta César Baptista, genética essa que talvez seja mais explícita na carreira solo de Arnaldo, quando toca profundamente o subconsciente humano com seu piano e as mais belas e loucas letras de amor.

 

Sobre os Mutantes, creio que possa ser dispensado às apresentações. Uma das bandas mais criativas de todos os tempos, que introduziu e modificou para sempre a música brasileira. A ponta da lança do movimento tropicalista do fim dos anos 60'. Arnaldo se destacou como arranjador e compositor do grupo formado com o irmão Sérgio Dias e a companheira e por um tempo esposa, Rita Lee. Também experimentou da loucura, da forma mais intensa que o termo amor pode ser traduzido, se tornou “uma pessoa só” e viajou na criação de sua obra musical.

 

Quando em 73' sai de vez da banda, forja uma das obras mais bonitas da língua portuguesa. O disco Lóki, lançado em em 1974 é o ápice do músico, relembrado com nostalgia pelos apaixonados e quem já teve o coração partido. Com baladas de puro Rock n' Roll e apelos machucados de desculpas e a declaração de amor mais intensa já cantada. É o disco para se ouvir na “bad”, nas madrugadas e amanheceres onde você se permitir abrir a transcendência da mente. Desde a época, já colocava questões como a concentração urbana e dava pitadas do fim do sonho. “Porque não se construir núcleos, habitacionais menores, para haver maior descentralização, para existir o verde” o prenúncio de um paulistano. Depois, também cantou e levantou a bandeira do uso de carros elétricos, para diminuir a poluição causada pelo uso de petróleo.

 

Sua obra solo deve ser melhor conhecida e avaliada, assim como as canções da época do Patrulha do Espaço. Existem músicas lindas, como “Fique aqui comigo”, “Tacape” e a belíssima “Sunshine” do álbum O Elo Perdido. Já nos anos 2000, lançou alguns discos, bem produzidos e crus, no sentido da criação pura e genuína do músico. Atualmente se dedica a pequenos shows e principalmente as artes plásticas, que é incentivada e divulgada pela esposa Lucinha, com quem vive a mais de 30 anos.

 

Para entender melhor as fases e a mente do músico, só entrando em um sonho do próprio Arnaldo. Também é indicado que se assista o documentário: “Lóki – Arnaldo Baptista”, realizado pelo Canal Brasil e lançado em 2008. Arnaldo vem trabalhando em um novo disco, que deve se chamar “Esphera” e que ainda não tem data de lançamento. Então “Dê uma chance ao Suficiente” e hoje que celebramos o aniversário do cantor, contemple um pouco da mente de Arnaldo.

 

Confira sem cortes a entrevista com Arnaldo Baptista, publicada originalmente em julho de 2015:

 

Heitor Vilela - Arnaldo você é reverenciado na internet e por músicos de toda parte do mundo, qual é a sensação de ter rompido as fronteiras geográficas e políticas com sua arte?

 

Arnaldo Baptista - Certo. Nesse sentido, eu que sou uma espécie de autodidata né, eu encontro uma certa dificuldade em saber que eu to falando com um pessoal que não fala português, então tem todo um lance que eu faço músicas muito em inglês né, 80%, então tem haver com comunicação, e nesse sentido com as línguas imperando, eu vou conseguir me comunicar.

 

Heitor Vilela - Quais são suas maiores inspirações quando pinta ou desenha algo?

 

 

Arnaldo Baptista - Muito boa a pergunta. É o seguinte, eu como to envolvido em comunicação né, me deixo levar pelo que ha de melhor na terra, quanto a instrumentos, equipamentos, etc., então eu vou adquirindo os melhores equipamentos, tipo: contra baixo gibson, guitarra gibson, órgão Hammond , bateria Ludwig, ai eu vou conseguindo comunicar o que eu sinto com o público e é isso que eu quero. Nesse sentido, eu fico me levando pelo que é bonito né, não só bom de ouvir né e qualidade, mas o que é belo em aspecto tipo Brigitte Bardot, Françoise Hardy, Audrey Hepburn. Pessoas bonitas que me colorem o lado poético né, então no sentido de pintura, o rosto, a plástica dessas pessoas me deixa levar a inclinação pro lado de beleza.

 

Heitor Vilela - Para você, tanto a música quanto a pintura é uma forma de esvaziar um pouco a cabeça?

 

Arnaldo Baptista - Áh, isso é uma ótima colocação. Esvaziar a cabeça. Que as vezes eu fico com uma coisa engasgada na cabeça até que a música salva. Então eu fico engasgado e deixo a música, o quadro, faz isso esvaziar minha cabeça, no sentido de eu compartilho, no sentido de compartilhar e “compar-trilhar”.

 

Heitor Vilela - Qual uma música que representaria para você, o atual momento da sua vida?

 

Arnaldo Baptista - Acho que a música Loki que ela consegue retratar na letra o meu modo de sentir o som eu e a terra.

 

Heitor Vilela - Qual seria um sonho seu, que gostaria de realizar?

 

Arnaldo Baptista - Como acabei de falar, comunicação né. Eu gostaria de ter um PA com amplificadores valvulados que eu acho que são muito melhores que o som digital né. E eu acho que uma espécie de vida artificial que há nos amplificadores valvulados. Então esse é o meu sonho.

 

Heitor Vilela - O que acha dos novos músicos e compositores da música mundial?

 

Arnaldo Baptista - Áh isso é lindo. No sentido de estudo, a música prevalece o lado de estudo né, pessoas como Lenny Kravitz tem uma técnica onde, dimensão e harmonia que é invejável, e isso se consegue devido ao estudo de horas e horas em função de se preparar com instrumento em casa, estudando ele mostra o valor dele como músico pro público. E isso é gostoso, quem estuda.

 

Heitor Vilela - O que seria pra você, uma arte inovadora?

 

Arnaldo Baptista - Áh, exato. Inovadora é uma coisa que é exótica né. Então no sentido assim, hoje por exemplo, eu pintei de “manhã-drugada” um porco misturado com gato, eu chamei de “Pigato”, é uma coisa que ninguém entende mas é uma mistura de porco em inglês com gato em português né, mas no desenho tá retratado isso, um nariz de porco, uma orelha de gato, então quer dizer, bonito, e fica isso realismo, que é exótico.

 

Heitor Vilela - Como preferiria viajar, em um "navio cheio de loiras", na sua "velha motocicleta" ou em um "disco voador"?

 

Arnaldo Baptista - Áaaah, eu prefiro um navio cheio de loiras. (risos) Eu prefiro me levar por essa.

 

Heitor Vilela - Qual é o momento mais marcante de sua carreira como músico?

 

Arnaldo Baptista - Uma vez eu tava na turnê dos Mutantes, num estádio, acho que em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e no final do show o estádio inteirinho começou a gritar: “Arnaldo, Arnaldo, Arnaldo”, e isso no show dos Mutantes, isso me deixou batendo as asinhas de felicidade, eu adorei, fiquei contentíssimo.

 

Heitor Vilela - Arnaldo, sua música atravessou gerações e hoje é ídolo de avos, pais e netos. Agora aos 67 anos, qual seria a mensagem que você gostaria de deixar para todos esses seus fãs?

 

Arnaldo Baptista - Eu gostaria de deixar patente que eu vejo que o mundo é muito grande, pra eu conseguir fazer aparecer o meu nome em tudo isso de línguas, cultura e tudo mais, mas no sentido de o quanto eu consigo com o que eu possuo, o que eu posso estar me satisfazendo. Isso é interessante pra mim.

 

Heitor Vilela - Qual é o conselho que você deixaria para quem está começando a tocar, cantar ou compor alguma coisa?

 

Arnaldo Baptista - Esse acho que é bom eu falar. Acho que é “hipersensibilidade”, no sentido onde você encontra um tempero, uma cor em algo que pra muitas pessoas seria muito áspero, desértico. Você encontra uma cor, um pouco de líquido, humildade, e isso vai desenvolvendo o musgo do seu saber, e vira até flor.

 

Heitor Vilela - Arnaldo, qual é seu instrumento predileto atualmente?

 

Arnaldo Baptista - Agora tá sendo bateria. Eu to estudando bastante, porque eu to prestes a gravar um solo que vou incluir no LP né, no CD né. Então bateria eu to estudando. Atualmente tá sendo o que eu mais me dedico, a bateria.

 

Heitor Vilela - Você que sempre cantou sobre os discos voadores, você acha que se realmente existisse vida fora da terra, como seria?

 

Arnaldo Baptista - Ótima pergunta, no sentido de alcance da hipersensibilidade deles até onde vai. Que eles não podem, é viver num planeta onde não exista som né, alguma coisa paralela, harmonia, sei lá, então é parte do que eles sentem, mas no sentido de, onde o som impera é importante na vida, na comunicação. Eu acho que existe uma vida interplanetária sim, que nós encontramos algo em comunicação com eles, que seja paz, comunicação e repartir o que eles conseguem.

 

Heitor Vilela - Você tocou recentemente no festival Psicodália. Como foi a experiência de tocar com aquele pessoal novo, todo mundo muito jovem, e que conheciam sua música?

 

Arnaldo Baptista - Eu achei interessantíssimo. Que o lado que atinge da minha arte, que é desde Mutantes até minha arte pessoal solo, que foi coroado. Quando eu cantando em inglês, todo mundo, o público inteiro cantava junto, em coral, e conhecia a letra. Então pra mim foi algo muito interessante. Além de estar numa chuva danada igual Woodstock né, e eu falava no microfone “No rain, no rain, no rain” igual o Woodstock, e o pessoal ficava sentando na água. Eu achava muito interessante.

 

Heitor Vilela - Quarenta anos depois do Woodstock, você acha é possível voltar a ter uma experiência como aquela politicamente, socialmente e musicalmente?

 

Arnaldo Baptista - O Woodstock foi nos Estados Unidos, mas conseguiu uma penetração profunda igual o festival da ilha de Wight, perto da Inglaterra, também foi profundo. Talvez a gente consiga a mesma coisa aqui no Brasil, não custa ter esperança né.

 

Heitor Vilela - No seu disco “Loki”, aquela música do lado B, “Te amo podes crê”, é tida como uma das músicas mais intensas que falam de amor na língua portuguesa. O que você tem a dizer pra hoje, sobre o disco “Loki”?

 

Arnaldo Baptista - Essa música para mim foi muito difícil compor, resultado tal que a gente consegue ouvir, consegui uma coisa profunda com a minha performance. Interessante que o pessoal se prenda a essa música, “te amo podes crê”, que conduz uma perfeição de instrumental e vocal.

 

Heitor Vilela - Questão de shows, como que tá? Como está sua agenda recente?

 

Arnaldo Baptista - Eu to agora fazendo shows em Sesc, de alguma forma, através da internet a gente vende os ingressos. Então às vezes tá conseguindo fazer um lado bom, um show no teatro municipal em São Paulo que eu fiz, foi interessante e agora é Sesc. Psicodália que você falou também. Vou atingindo a todos como eu consigo na medida do possível. Muitas vezes, dentro do meu projeto Sarau Benedito.

 

Heitor Vilela - E em questão de gravação. Você estava comentando que tá estudando bateria. Você tá prevendo para seus fãs algum material novo, de estúdio?

 

Arnaldo Baptista - Eu to tentando condensar meu trabalho no sentido de alcance poético que alcançou com minha música o sentido de energia, onde existe eletricidade solar pros carros, e nesse sentido a gente vê que a eletricidade é grátis através do sol. Os carros de Fórmula 1 não possuem células fotofotáicas, esperança do futuro né, eles podem colocar eletricidade solar e não precisaria mudar o carro da corrida.

 

Heitor Vilela - Pra você, o que seria uma revolução?

 

 

Arnaldo Baptista - Seria uma coisa que eu vou usar o trocadilho: RevoluSom, onde todos os amplificadores seriam a válvula, não digital, que eu não gosto. Então seria uma RevoluSom.

 

Heitor Vilela - Pra terminar a entrevista, qual a última mensagem que você gostaria de dizer ao mundo, as pessoas?

 

Arnaldo Baptista - Dê uma chance ao suficiente, no inglês “Give enough a chance”, no sentido de vida, filosofia, e alcance. 

 

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