O calcanhar da Democracia Corintiana

August 20, 2018

 

Com nome de filósofo, o ídolo corintiano Sócrates Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não era qualquer jogador. O nome atípico é fruto do interesse de Seu Raimundo nas teses de Platão, apimentada com uma dose de intelectualidade. Comunista, aprendeu com o pai o que significava os anos de chumbo quando o viu queimar uma coleção de livros no ápice do regime ditatorial. De pernas compridas e magro, dizia que nunca iria sair de Ribeirão Preto. Mesmo com o destaque que teve no Botinha, fez questão de conciliar a carreira dentro das quatro linhas com o curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP).

 

Sócrates tinha permissão do time que o revelou para terminar a graduação. Quase não treinava. Ia ao centro de treinamento da equipe de vez em quando. E, ainda assim, escolhia a parte do gramado que tinha sombra. Era fã inveterado de cerveja, cigarro e farra. “Só quero pagar gasolina e cerveja com o dinheiro que ganho no Botafogo”, falava. No momento em que recebeu o diploma de médico, aos 24 anos, os grandes clubes do País passaram assediá-lo. O primeiro foi o São Paulo. Mas ele viu o lendário presidente alvinegro Vicente Matheus oferecer 350 mil dólares seu passe , o que lhe tornaria o jogador mais caro do País até então.

 

A tão esperada estreia pelo Timão aconteceu em 20 de agosto de 1978 num clássico contra o Santos, seu time do coração, em partida válida pelo campeonato paulista. Bem marcado, teve pouco destaque. Porém, diante de um Morumbi com aproximadamente 120 mil torcedores, o craque demonstrou aquela que seria sua principal característica: o toque de calcanhar. Com 1,92 metros, o doutor dizia que o requinte era uma forma equiparar as limitações de deslocamento que tinha. “É um artefato que deixa meu jogo mais rápido”, afirmava. O tão sonhado gol aconteceu seis dias depois de sua estréia, quando marcou contra a Ferroviária, no Pacaembu.

 

Neste momento, o calcanhar de outro já provava aquilo que chamou de “transformação radical na vida”. Nunca imaginou que um dia fosse conquistasse esse prestígio por meio do esporte bretão. “Nunca pretendi ser um ídolo. Antes [no Botafogo], eu jogava por prazer, mas o futebol está se convertendo num peso para mim. Se tiver de escolher entre viver minha vida com minha família e jogar futebol, eu não tenho dúvida: paro com o futebol”, falava. O combustível que mantinha Sócrates jogando era o fato de querer vestir a camisa da seleção brasileira em uma Copa do Mundo.

 

Capitão do mítico escrete de 82, afirmou que a pior frustração de sua carreira fora ter perdido o certame quando a Itália, em Barcelona, no episódio que ficara conhecido como “tragédia de Sarriá”. Telê Santana assumiu em 1979 o comando da seleção e conseguiu convencê-lo de que era necessário ser um atleta para jogar com a amarelinha. Abriu mão dos hábitos boêmios – Sócrates fumava dois maços de cigarro por dia e bebia cerveja todo dia. Com a cessão de tais hábitos, chegou à Espanha na mais plena forma física em função da rotina de sua concentração.

 

Antes do Mundial, o doutor já tinha altos índices de popularidade. Era reverenciado pela atriz Sônia Braga, que ficou conhecida após interpretar Gabriela e Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Vascaína, dizia que era preciso fazer uma campanha para seu time contratar o camisa 8 da Fiel. “O Sócrates me atrai muito. Seu equilíbrio desequilibra toda uma defesa. Engana todos os zagueiros, finge que vai para a esquerda e penetra com elegância pela direita.” Ela também teceu comentários acerca do estilo que Sócrates adotou para comemorar seus gols. “Eu, como atriz, sinto em Sócrates toda uma consciência de espaço cênico. Até vibrar diferente ele vibra. Não tem o compromisso da comemoração do gol como o Pelé, por exemplo, com aquele soco no ar. Ele não vibra mais que o gol. Vibra na medida exata.”

 

Além das quatro linhas

 

Cérebro da Democracia Corintiana, Sócrates formou com o atacante Walter Casagrande e o lateral-esquerdo Wladimir o maior movimento libertário e revolucionário do futebol brasileiro. O trio lutou para fazer com que todos os votos, desde o roupeiro até o treinador, tivessem o mesmo peso na hora de escalar o time. Conseguiram abolir a concentração e criticavam a Ditadura Militar com slogans como “Democracia Corintiana”.

 

No livro Sócrates e Casagrande: uma história de amor, narrou-se o episódio em que a equipe foi jogar um amistoso no Japão. Apaixonado, o atacante não queria ficar longe de sua namorada à época. Então fizeram uma votação para decidir se Casão deveria voltar, ou não, para São Paulo. Ainda que tomado pelas dores do amor, o roqueiro teve de ir com a equipe à Terra do Sol Nascente. Por essas e por outras, o futebol precisa de mais jogadores como Sócrates.

 

 

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