A quem serve a ignorância?

September 4, 2018

Opinião 

 

 

Alexandre III da Macedônia foi um dos maiores e mais brutais conquistadores que a terra já viu. Alexandre, o Grande - como era conhecido - teve como professor o filósofo Aristóteles, que foi responsável por criar um dos mais aceitos sistemas de classificação de seres vivos na história até poucos séculos atrás, além de criar importantes bases da filosofia, poesia, dramaturgia e retórica. O filósofo contribuiu também com o que hoje chamamos de ética, e tem trabalhos sobre física, metafísica, heliocentrismo e lógica. Para Aristóteles todos os homens livres deveriam ter acesso ao conhecimento, Alexandre aprendeu com seu mestre a importância do conhecimento para governar.

 

Quadro que representava a biblioteca de Alexandrina. Foto: reprodução 

 

Das cidades mais importantes criadas por ele, estava a Alexandria do Egito, que se encontra em um local estratégico, no delta, ou foz do rio Nilo. Uma cidade portuária concebida para ser a capital do império de Alexandre na região do Egito, que cresceu muito rápido, sendo um dos pontos de trocas de mercadorias e ideias, entre o que hoje chamamos de norte da África e sul da Europa. Ali milhares de povos e culturas se juntavam para fazer todo tipo de troca, falantes dos mais diversos idiomas e oriundos de vários lugares do mundo conhecido até então, reunidos no mesmo lugar e na mesma época.

 

Que tipo de conhecimentos alguém poderia absorver ali? Eu digo que todo tipo de conhecimento do mundo até então. E por esse motivo, que qualquer capitão, de qualquer embarcação mercante de médio e grande porte sabia que, ao avistar o grande e famoso Farol de Alexandria e aportar sua embarcação na cidade, guardas entrariam no seu navio em busca de algo mais precioso do que apenas contrabando: pergaminhos.

 

Os pergaminhos eram confiscados, copiados e devolvidos a seus respectivos donos, que seguiam viagem enquanto toda a informação escrita que havia consigo, também estava na Grande Biblioteca. Poemas, livros de rotas, mapas, relatos fantásticos, informações sobre tipos diferentes de embarcações, números de mercadorias e tudo mais que fosse escrito era levado. Poucas pessoas entendiam o real propósito daquilo que estava sendo feito. A biblioteca durou mais que o reinado de Alexandre, que teve início em 336 a.C quando seu pai Felipe II morreu, e acabou em 323 a.C com sua própria morte. Treze anos de império enquanto a biblioteca, provavelmente fundada entre 329 a 327 a.C teve seu fim por completo em 642 d.C. Ou seja, mais de novecentos anos.

 

Infelizmente a biblioteca sofreu com vários incidentes, nessa longa história. O primeiro em 48 a.C quando Júlio César mandou atear fogo em Alexandria durante sua perseguição a Pompeu Magno, incêndio que atingiu parte da rica coleção da biblioteca que a essa altura já tinha próximo a 280 anos de existência. Anos depois, a biblioteca sofreu outro duro golpe. Hipátia de Alexandria, que foi uma das poucas mulheres que se tem registro a comandar a biblioteca, foi brutalmente espancada – alguns historiadores dizem que ela também pode ter sido estuprada –, arrastada pelas ruas e queimada viva ainda numa fogueira em 415 d.C. Ela foi matemática, poeta, astrônoma e filosofa. Morreu como uma herege e seu algoz, Cirilo, o mandante do crime, foi considerado santo.

 

Esse ato brutal veio acompanhado do maior incêndio que ocorreu no mesmo período ordenado pelo imperador Teodósio de Roma (cristão) que queria por fim ao que era considerado cultura pagã. Poucos pergaminhos sobraram mas o prédio continuou de pé por mais de duzentos anos até 642 d. C quando finalmente foi ao chão depois do ataque ordenado pelo califa Amir ibne Alas. Poucas pessoas tinham a real noção da importância da biblioteca, mas o seu conhecimento perdido ali teve um impacto profundo no que popularmente foi chamado de Era das Trevas, posteriormente.

 

O problema se devia ao fato de poucas pessoas saberem ler e mais importante que isso, entender a necessidade do conhecimento. Aristóteles não acreditava que todos os indivíduos devessem ter acesso ao conhecimento, apenas os homens livres. Ou seja, uma minoria. Conhecimento e riqueza nas mãos de uma minoria é absurdamente prejudicial.

 

 Foto do enterro de mortos pelo césio 137, em Goiânia. Foto: reprodução 

 

Vocês já imaginaram como o acidente radiológico do césio 137, em Goiânia, poderia ter sido diferente se os catadores de sucata que desmontaram o aparelho de radioterapia tivessem tido a chance de algum estudo, o suficiente para saber o quão perigoso era aquilo? E mesmo assumindo que soubessem do perigo do chumbo, se eles soubessem o que o conteúdo de um aparelho de radioterapia podeira causar, eles teriam levado o aparelho quase desmontado ao ferro velho?

 

Viver em uma sociedade extremamente dependente da ciência e não entender o que é a ciência, seus métodos e sua filosofia é assustadoramente perigoso. Vide as pessoas que negam o aquecimento global que está causando junto com o desmatamento, o agronegócio e o capitalismo, uma extinção em massa que vai matar quase toda a nossa fauna do planeta, inclusive nós mesmos. Pessoas como Donald Trump ou Bolsonaro não tem nada a perder, são ricos e vão morrer em poucos anos cercados de luxo, mas a espécie humana já sofre, principalmente os mais pobres!

 

 Museu Nacional no Rio de Janeiro em chamas no ultimo domingo (02). Foto: Marcelo Bayao (FEF)

 

A ignorância gera medo, e o medo gera divisão, “somos nós, contra eles!”. Essa dicotomia e desumanização do inimigo pode nos cegar, nos privar da autocritica, da possibilidade de sermos nós mesmos os vilões. Perder um museu é mais do que perder obras de arte, artefatos históricos e descobertas científicas, perder um museu é perder nossa identidade, nosso conhecimento. Entender a história, ciência, antropologia e artes é entender que somos indivíduos dotados de potência para mudar algo de errado em algum lugar. Entender ciência nos dá a capacidade de fazer o que é certo! Não o que poderosos nos dizem que é certo!

 

O que torna poderosos, de fato poderosos, é nossa ignorância coletiva. Nossa vontade de seguir lideres cegamente, é acreditar em ideologias fantasiosas, bonitas ou extraordinárias mas sem evidências tão extraordinárias assim, nossa fé cega e submissa. O descaso com a ciências em geral, humanas, naturais, exatas e outras mais é a nossa ruína, não é atoa que ideias estúpidas como terra plana e (ou) perigosas como anti-vacinas ganham força, pois são apenas os sintomas que nunca conseguimos erradicar, o analfabetismo científico. Então nesse dia de dor e luto pela perda de algo tão inestimável, pergunte-se onde está a sua parcela de culpa e para quem serve essa nossa ignorância individual e coletiva.

 

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