Em alta, militarismo atrai multidão em desfile

September 7, 2018

7 de setembro        

 

Manifestantes favoráveis a intervenção militar portavam cartazes durante desfile. Governador e candidato à reeleição José Eliton foi alvo de críticas do público presente

Desfile em comemoração a Independência do Brasil reuniu cerca de 10 mil pessoas na Avenida Tocantins. Foto: Cristovão Mattos

 

“É a segunda vez que venho para Goiânia e consigo assistir o desfile. Esse tipo de celebração precisa existir” - Gleidson Oliveira, representante comercial

 

Com faixas pedindo intervenção militar, o desfile cívico que comemorou os 196 anos da Independência do Brasil contou com pequeno atraso em relação aos anos anteriores. As primeiras tropas do exército estavam previstas para descer a Avenida Tocantins em direção à Avenida Paranaíba às 8h45, mas o hasteamento das bandeiras começou só às 9h em frente ao Teatro Goiânia. O público também aproveitou a ocasião para cobrar maior honestidade por parte dos políticos que estão disputando as eleições. Cerca de 10 mil pessoas compareceram.

 

Manifestantes com bandeiras e cartazes ficaram concentrados ao longo da Tocantins e realizaram silenciosos protestos durante a solenidade. O palanque foi montado em frente ao cruzamento da Tocantins com a Rua 4 e, no momento em que o governador José Eliton (PSDB) passou pela população, ouviram-se gritos como “olha, faça” em alusão as promessas dele, que está concorrendo ao Palácio Pedro Ludovico. Grupos à esquerda, todavia, ficaram ofuscados em meio aos brados de simpatizantes do presidenciável Jair Bolsonaro (PSC), vítima de ataque ontem em Juiz de Fora.

 

Indiferente ao desfile cívico, o artesão Júnior César, 47, comentou que a celebração é “um desperdício de dinheiro público”. Ele criticou a tradicional iniciativa de comemoração do desfile cívico, porque ela seria desnecessária para o cidadão e não teria nenhuma função aparente. César afirmou que a situação pela qual o País passa no momento faz com que a solenidade não “tenha sentido”, além de reunir no mesmo lugar pessoas com tendências ideológicas autoritárias que não pensam duas vezes antes de pregar o discurso de ódio.

 

“Eu acho que esse patriotismo todo é meio sem sentido”, argumenta. César também contou que, embora boa parte da polícia goiana esteja concentrada para assistir ao desfile, o dia a dia de quem trabalho no Centro não possui nenhum auxílio por parte das tropas de segurança. “Eu trabalho no cruzamento da Avenida Anhanguera com a Avenida Goiás. Poucas vezes vi a polícia fazendo de fato algum tipo de policiamento na região. Isso é bem perigoso”, reclama ele, ao lado de um carro do Choque.  

 

“Nossa, tem tanto carro e polícia. Na hora que chamamos, eles não aparecem” - Angelina Durães

 

A proprietária de loja na Tocantins Angelina Durães, 40, disse que a falta de policiamento no centro é uma realidade. Ela traçou um paralelo entre a quantidade de carros no desfile e o que vê na rua no cotidiano. “Nossa, tem tanto carro e polícia. Na hora que chamamos, eles não aparecem”, diz.

 

Já o representante comercial Gleidson Dias, 38, pensa que o desfile cívico é importante para a memória nacional. Natural do interior de Minas Gerais, ele acredita que a solenidade é bonita. “É a segunda vez que venho para Goiânia e consigo assistir o desfile. Esse tipo de celebração precisa existir”, conta. Mas quando não está na capital goianiense para prestigiar a comemoração da Independência ele a assistir em sua cidade. “Lá não perdi nenhum até hoje”.

 

Escolas

 

Além de contar com a presença de 3 mil militares do Exército, Polícia Militar (PM), Corpo de Bombeiros e da Guarda Civil Metropolitana de Goiânia (GCM), o desfile teve a participação da banda marcial dos colégios militares Hugo de Carvalho Ramos e Waldemar Mundim. Os estudantes passaram pela Avenida Tocantins em passos sincronizados e arrancaram aplausos das autoridades que estavam presentes no palanque. Já os alunos de um colégio do Jardim América tocaram o clássico hino de resistência ao fascismo Bella Chio.

 

Também estavam presentes na celebração o secretário de segurança pública e administração penitenciária e ex-governador de Goiás entre 1975 a 1979, durante a Ditadura Militar, Irapuan Costa Júnior, o governador de Goiás, José Eliton, o candidato a deputado federal, Demóstenes Torres (PTB), bem como autoridades da Polícia Militar e do Exército.

 

Em vídeo divulgado numa rede social, o prefeito de Goiânia Iris Rezende (MDB) declarou que a data é uma homenagem aos antepassados. Segundo ele, o dia da Independência do Brasil é uma celebração em que todos os brasileiros devem refletir sobre o que “o País espera de nós, homens públicos”. “Precisamos nos desdobrar para honrar com muito trabalho e responsabilidade o voto popular. Entender o verdadeiro sentido da independência e da democracia para nossa sociedade, que ainda clama por grandes transformações”, diz.

 

Já o governador José Eliton, por sua vez, lembrou que a data serve para os brasileiros pensar o que querer para a educação. “Já consolidamos o Estado Democrático de Direito. Agora, precisamos ter pessoas que trabalhem o Brasil pensando no futuro, olhando uma nação que precisa se reconciliar, que precisa se encontrar com o desenvolvimento e com a geração de empregos. Precisamos dar o direito a cada brasileiro sonhar com um futuro melhor. Que o Brasil possa ser sólido e respeitoso com todos”, afirma, em rede social.

 

Cerimônia contou com presença de famílias; vendedores ambulantes viram oportunidade de lucrar

 

O artesão Júnior César afirma que celebração é não tem sentido. Foto: Cristovão Mattos

 

Famílias com crianças, idosos e amigos levantaram cedo da cama para assistir ao desfile da Independência, data em que há a tradicional celebração cívica. Moradores de várias localidades da capital goianiense se posicionaram ao longo da Avenida Tocantins para acompanhar os detalhes do evento. Foi possível ouvir ainda reclamações do público em relação à imprensa. “Além de eles poderem ficar na rua, atrapalham nossa visão”, diz uma mulher, minutos antes de a cerimônia de abertura.

 

Vendo uma oportunidade de aumentar o lucro, alguns ambulantes comercializavam cerveja e refrigerante, e aperitivos para o público ‘encher a barriga’. “Tanto a cerveja quanto o refrigerante são R$ 5”, ofereceu um homem à reportagem do Metamorfose. “A gente aproveita o evento para dar uma aumentada no lucro”, confessa.

 

A maioria do público, por outro lado, disputava algum espaço para tentar se esquivar do sol típico do Cerrado, usando panfletos, óculos escuros bonés, ou chapéu. Crianças, que não estavam preocupadas com o calor, deliciavam-se com a exposição de helicópteros que passavam rasante e expondo seus armamentos.

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