Medo e delírio na era gonzo

September 18, 2018

Idealizado por um doidão chamado Hunter Thompson, o estilo gonzo rompeu em suas reportagens com praticamente todas as regras do jornalismo na década de 1960

 

Jornalista quebrou regras e criou um novo estilo de fazer jornalismo na década de 1960. Foto: Reprodução

 

“Eu havia me tornado tão envolvido com os foras da lei que não tinha mais certeza se eu estava pesquisando sobre os Hell´s Angels ou se estava sendo lentamente por eles absorvido”- Hunter Thompson, sobre a gangue de motoqueiros Hell´s Angels

 

Você deve estar se perguntando por que diabos vira e mexe cito em meus garranchos literários o jornalista Hunter Thompson. Ora, deixe eu lhe explicar, vai que cola: o cara foi um dos idealizadores do Jornalismo Gonzo. Ele chutou com os dois pés as normas convencionais de se fazer reportagem, desafiou regras e tretou com seus chefes nas redações onde trabalhou. Sempre chegava com uma cerveja nas mãos e fumando sem parar com sua piteira à lá bluesman dos anos 1940.

 

Preciso elencar mais algum motivo para tê-lo como um mestre? Bem, deixe ater-me aos fatos. Depois volto à divagação estilística e literária. O livro-reportagem Hell´s Angels, lançado em 1967, se tornou uma espécie de bíblia ao retratar sociológica, antropológica e culturalmente a gangue de motoqueiros homônima, responsável por fazer a segurança de bandas como Rolling Stones e Jefferson Airplane na década de 1960. Na obra, o lendário repórter materializou de forma radical a ideia de violência como algo essencialmente ligado aos estadunidenses.

 

Com o objetivo de mostrar como o grupo de fato se comportava e quais eram suas crenças individuais, Thompson chegou a conviver com os motoqueiros por cerca de dois anos. Em trecho da obra, ele afirmou que durante a investigação que daria origem ao livro-reportagem não sabia se estava fazendo uma matéria sobre os temidos Hell´s Angels ou se havia virado integrante do grupo. “Eu havia me tornado tão envolvido com os foras da lei que não tinha mais certeza se eu estava pesquisando sobre os Hell´s Angels ou se estava sendo lentamente por eles absorvido”, escreveu o jornalista.

 

No final, quando os foras da lei descobriram que ele era jornalista, levou duas surras, sendo que uma delas o levou a um hospital à beira da morte. A outra foi motivada por descontentamento dos motoqueiros acerca de um artigo que escrevera em uma revista de circulação em todo o território norte-americano. “No Dia do Trabalho de 1966, abusei um pouco da sorte e apanhei feio de quatro ou cinco Angels que pareciam achar que eu estava me aproveitando deles. Um desentendimento sem muita importância se tornou muito sério de repente”, narra o jornalista, nas duas últimas páginas do livro.

 

Dessa zoada cabeça saiu o estalo de criar um novo estilo de reportagem, porém “um estilo que acabou virando um total fracasso” – como ele se referiu ao Gonzo em um artigo que compõe a obra Grande caçada aos tubarões: histórias esquisitas de um tempo esquisito, publicada em 2004. Era um jeito de fazer jornalismo inspirado na frase do escritor realista norte-americano William Faulkner: “a pior ficção sempre foi mais verdadeira do que qualquer jornalismo. E os bons jornalistas sempre souberam disso”.

 

Primeira ilustração da obra Medo e Delírio em Las Vegas. Foto: Ralph Steadman

 

Thompson era um chapado, mas reduzi-lo a isso é uma grande desonestidade intelectual e jornalística. O ilustrador Ralph Steadman, responsável por fazer os desenhos de Medo e Delírio em Las Vegas, em 1971, falava que o colega tinha enorme fôlego para apurar suas matérias. Em artigo publicado na revista Piauí, ele conta que ambos estavam em Washington durante o caso Watergate (escândalo político que levou à renúncia do presidente Richard Nixon) e Thompson apurava os fatos de madrugada após beber por várias horas. “Era incansável”, comentou o ilustrador inglês.

 

Um ano antes, o encrenqueiro repórter fora designado para cobrir uma corrida de motociclistas em Kentucky, sua terra natal e conhecida por ser totalmente conservadora. Ele mergulhou numa análise profunda sobre a sociedade local e seus hábitos. Intitulado de O Derby de Kentucky é degenerado e depravado, de 1970, o texto tecia duras críticas ao american way of life, que estava afundado na Guerra do Vietnã.

 

No ano seguinte, lançou Medo e Delírio em Las Vegas e sacramentou o estilo que o consagrou como repórter, ainda que muitos duvidem da veracidade daquela história repleta de calotes em hotel, consumo desenfreado de drogas e loucuras dos mais diversos tipos.

 

Bem, para que todas estas palavras possam fazer algum sentido, é preciso lembrar que o Jornalismo Gonzo surgiu na segunda metade da década de 1960. No som, Jefferson Airplane, The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Bob Dylan cantavam os descontentamentos de toda uma juventude condenada à morte na Guerra do Vietnã. Uma década antes, a literatura havia se transformado com os escritos da geração beat, composta por nomes como Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e Allen Ginsberg, responsáveis por criticar a sociedade de consumo do Tio-Sam. O cinema respirava a revolução com os filmes de Jean-Luc Godard e François Truffaut.

 

A década de 1960 também foi o pleno desabrochar de gente do calibre de autores como Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote, que misturavam técnicas literárias ao texto jornalístico. Capote era um romancista que precisava encontrar algum motivo para seguir escrevendo. Talese tinha experiência como repórter do New York Times, mas queria contar histórias que levariam mais tempo para serem apuradas. E Wolfe – tido como uma espécie de papa do New Journalism – havia terminado seu doutorado e estava entusiasmado com a literatura realista do francês Honoré de Balzac.

 

Para esclarecer: Thompson foi muito além dos seus colegas. Ao invés de somente retratar os fatos com distanciamento, em terceira pessoa, como pregam os manuais de redação, ele acreditava que conseguiria exprimir maior verdade à narrativa se conseguisse inserir-se no centro dos acontecimentos. Ele não queria apenas contá-los como narrador observador. Queria mais.

 

Em Radical chique e o novo jornalismo, Wolfe disse que a melhor obra lançada no ano de 1967 foi Hell's Angels, “de um obscuro jornalista de São Francisco”. O livro-reportagem continha todos os mandamentos que os novos jornalistas seguiam, mas com um componente que o diferia dos demais: o texto era tão enfurecido quanto os anarquistas na Guerra Civil Espanhola.

 

Hunter Thompson reconhecia que o ‘terno branco’ (referindo-se a Tom Wolfe e seu indefectível figurino) escrevia magistralmente bem, mas o criticava por “ser amigo de gente chata, o que o impedia de fazer a imersão ao fato”.

 

Nas décadas seguintes, passou a viver à sombra do que produzira em seus anos áureos. Chegou a colaborar ainda para várias revistas de grande circulação nos EUA, como a Playboy, escrevendo matérias com cunho ácido e com o seu primoroso estilo sarcástico. Na década de 1990, cobriu futebol americano para o site da ESPN.

 

Em 2005, aos 68 anos, resolveu dar um fim em sua vida. Deu um tiro de Magnum 44 em sua cabeça. Todavia, antes de cometer suicídio, Thompson deixou uma carta em que detalhava os motivos que o levaram a tirar a vida. “Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de passeios. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”, escreveu.

 

Como disse Sr. Kurtz, em Coração das Trevas, de Joseph Conrad: “O horror! O horror!... exterminem todos os brutos!”.

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