Diário subversivo: dias de embriaguez, utopia e tesão – parte 2

October 12, 2018

LIVRO REPORTAGEM

 

 

Às 16 horas, do dia 18 de outubro de 2016, estudantes e professores se reuniram na Praça Universitária para protestar contra as medidas do pai da mesóclise, Michel Temer (PMDB). Meses antes, a direita brasileira tirara Dilma Rousseff (PT) do poder com a justificativa de que o governo petista estava desgastado e envolvido em escândalos de corrupção. Logo nos primeiros dias, entretanto, viu-se que o novo presidente governaria com a finalidade de engordar sua biografia. Em toda sua trajetória política, ficara conhecido por agir nos bastidores e ‘molhar a mão’ de quem poderia colocá-lo para ocupar o trono.

 

Em meio a este clima, subi as escadas que davam para a porta da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Os militantes do movimento contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 não ficaram exatamente felizes ao me verem chegar à Faculdade de Educação (FE) para articular a cobertura jornalística do ato. Afinal, eu era pouco conhecido entre eles e

Ilustração: Heitor Vilela/ Rabiscos e Escarros                                             confiar cegamente em um cara aleatório já tinha provocado situações pitorescas para bastante gente que estava ali naquela tarde. Havia também o temor de que policiais à paisana, mais conhecidos como “P2”, poderiam estar infiltrados entre os manifestantes. 

 

Suado e ofegante, passei direto ao banheiro sem acenar para quem estava fazendo os últimos ajustes nos cartazes que seriam exibidos pelas ruas. Como era de se esperar, ao pôr os pés para fora do sanitário, todos me fitaram das pernas à cabeça. Meu sangue sulista é fino demais para o clima exageradamente quente do cerrado. Explicar as coisas nessas condições para mim sempre foi um martírio, e eu jamais conseguiria cair no gosto da galera que articulava manifestações de rua, pois meu raciocínio certamente estaria truncado. 

 

Segui parado no pátio da FE e Maia veio até mim, aos risos:

 

 “Olá, gatinho”, saudou-me. 

 

Cumprimentei-a, lutando para manter uma distância razoável, por conta do odor provocado pela umidificação gerada em minhas glândulas sudoríparas.

 

“Oi, meu amor, como vai?”, respondi. 

 

“Tá tudo bem contigo?”. 

 

“Sim, claro, é que eu tô suando um pouco”.

 

Maia sorriu. “Cê é hilário, Beck”, atestou. “Não acredito que cê veio de a pé da Praça da Bíblia até aqui”. Meneei a cabeça, dizendo algo relacionado a pouco crédito na carteira de estudante. 

 

Minutos depois, minha companheira começou a me passar as orientações de segurança necessárias para que o ato contra a PEC 241 ocorresse sem intervenções da polícia. 

 

“Ouvi dizer que a polícia vai reprimir a galera”, alertou.

 

“Porra”, esbravejei. “É certeza isso?”

 

“Certeza não é, mas não dá pra duvidar, né?”, aconselhou. 

 

Maia, então, comunicou-me qual seria meu papel durante o ato:

 

“Vou precisar que você escreva uns textos informativos, bem ao teu estilo”. 

 

“Tudo bem”, falei, assentindo com a cabeça.

 

“Vou ter de escrever quantos textos e para qual veículo?”

 

“Uns três, quatro. Vai ser para a página do Movimento dos Secundarista em luta de Goiás, que é a galera que está puxando essas manifestações. É para o Facebook deles”, explicou Maia.

 

“E como cê quer que eu escreva?”, indaguei.

 

“Com linguagem ácida, com seu estilo”, respondeu. “Você vai precisar contar a história do ato, tipo como foi, quantas pessoas tinha, descrever cenas, diálogos e, principalmente, criticar a PM”.

Por você, gatinha, faço qualquer coisa, pensei, aceitando prontamente a proposta.

 

Maia tem aproximadamente um metro e sessenta. Corpo esculpido a dedo por algum pintor naturalista do século XIX. Pele dourada carioca. Detentora de um quê pecaminoso e sublime. Ela sabe de seu poder. E não a faz a mínima questão de escondê-lo. Vive a vida a rir, a amar. Mas indigna-se com as injustiças sociais que prejudicam os mais necessitados. Leitora assídua da literatura inglesa, sempre escreveu poemas com cunho político e social. Na época da Primavera Estudantil, tinha cabelo azul, na altura do pescoço, que se remexia preguiçosamente enquanto andava. 

 

Conhecemo-nos bebendo cerveja e discutindo os rumos que o Brasil tomaria em meio a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, em maio de 2016. Nesta noite, demos alguns beijos, fomos para meu apartamento e transamos, ouvindo L.A Woman, do The Doors, disco que fora lançado em 1971 e selou o trabalho de Jim Morrison à frente da banda. Impressionado pela preciosidade humana que conheci, mantive contato e compartilhávamos mutuamente o que escrevíamos: ela poemas e eu crônicas. Acabamos virando amigos, daqueles de conversar desde os problemas com pai, mãe e outras coisas da vida.

 

De repente, comecei a me perguntar qual era a pauta da cobertura do protesto? Maia falou que eu tinha de descrever o ato com minha linguagem característica: desbocada, ácida e irônica. Seria moleza, é óbvio. Afinal, eu era a fonte e o personagem da matéria.

 

Por outro lado, havia o fator emocional e físico que iria nos desafiar ao longo do ato, o que pesaria no momento em que eu sentasse para redigir os textos para o Facebook do movimento. Tínhamos de ficar com os dois olhos abertos para não se meter em complicações com a Polícia Militar (PM), que tradicionalmente acompanha manifestações de rua ao lado dos militantes. 

 

Em dada altura, comecei a refletir acerca da cobertura jornalística convencional e cheguei à conclusão de era praticamente impossível pô-la em prática. Criticar o impacto da manifestação no trânsito, chamá-los de arruaceiros e baderneiros são era de fato a tônica do estilo de reportagem que eu pretendia adotar. A intenção era mergulhar no íntimo dos militantes, capturar momentos, ações e sentimentos. Observá-los atentamente e escutá-los entoar cânticos de luta pelas ruas. Para isso, nada melhor do que me tornar um deles.

 

Então, como proceder nesta situação? Alcoolicamente, ao menos, eu estava preparado: tinha bebido três latas de cerveja enquanto caminhava para o ponto de ônibus. Maia, não sei. Talvez tivesse almoçado bem, ou fumado um baseado, não sei... 

 

Na entrada da FE, os articuladores do protesto finalizavam os últimos ajustes nos cartazes e estavam quase prontos para se concentrarem na Praça Universitária. Cerca de 15 pessoas pintavam palavras de ordem, como “Educação não é mercadoria” e “Ocupa tudo”. 

 

Ficamos aproximadamente uns dez segundos em silêncio, até que Maia disse:

 

“Não era nem pra você estar aqui.”

 

“Ué, por quê?”

 

“Ah, sabe como é, né... egos de movimento social”.

 

“Sei”, concordei, arqueando as sobrancelhas. 

 

“Mas eu confio em você, confio em sua índole e honestidade”, disse ela. “Acho que você nunca ia se autopromover.”

 

Falei qualquer coisa sobre ética. 

 

Confesso que ao receber a informação sobre a possibilidade de ficar de fora da passeata me senti mais leve para poder desempenhar tranquilamente minha função. E, é lógico, caso fosse preciso, acompanhar Maia, moradora do Setor Bela Vista, considerado um bairro nobre de Goiânia, e pouca atenta às malícias que policiais costumam pôr em prática em protestos. Não que eu fosse um exímio especialista nisso, mas quando se tratava dela era movido por sentimentos e não pela razão. 

 

Ela era vulnerável. De longe era possível vê-la. Cabelo azul e uma câmera nas mãos eram o pretexto que policiais precisavam para não esquecê-la, persegui-la e xingá-la... Já eu caminharia segurando um papel e caneta. Não estava em meus planos correr feito Usain Bolt nos jogos Olímpicos. Sou sedentário e boêmio. Atletismo não é comigo. 

 

“Vou finalizar os ajustes que estou fazendo nos cartazes”, avisou-me Maia.

 

“Sem problemas”.

 

“Já, já eu volto, porque tenho de beber um café antes de ir para o ato”

 

“Importante”, respondi.

 

“Sim, não sou obrigada a protestar sem café”, disse, sorrindo alegre e apreensivamente. 

 

Maia colocou as mãos sobre meu ombro e falou algo relacionado a nós. Fiquei imóvel por uns trinta segundos, ouvindo-a falar sobre a importância dela em minha vida. Aquelas palavras foram como um combustível que me guiaram durante todo o ato. Em seguida, perambulei alguns minutos pelo pátio da FE e troquei uma ideia com um cara que estava na porta de entrada da faculdade. 

 

Resolvi pedir um cigarro para ele.

 

“Tenho só palheiro”, disse o sujeito.

 

“Pode ser”, falei. 

 

Bati o isqueiro e acendi. 

 

Vagabundo por natureza, fiquei embaixo de uma sombra e decidi que o melhor a se fazer era papear fiado com um maluco cabeludo e estranho. 

 

“Vai pro ato”, me perguntou o cara.

 

“Sim”, respondi, encarando-o dos pés a cabeça.

 

“Não tem como ficar parado em casa, né”, falou. “Porque será meu filho que irá sofrer, vivendo um contexto sócio-político trágico daqui uns anos. 

 

“Pois é”, concordei, balançando a cabeça. “Temos de fazer algo, nem que seja chamar o governador do de cretino”. 

 

“Por isso, temos de protestar”, concluiu.

 

Rimos. Minha companheira apareceu e cumprimentou o sujeito com dois beijos no rosto. Jurei que ela o conhecia pela simpatia que esbanjou ao saudá-lo, mas depois acabei descobrindo que ela o viu pela primeira vez ali. É incrível a gentileza que Maia esbanja com pessoas desconhecidas. Ela tem a habilidade de conversar por horas a fio – e sobre qualquer assunto - com alguém que nunca viu na vida. É um talento comunicativo invejável.

 

Então, fomos caminhando lentamente até a cantina, que fica no andar de baixo da FE. Maia comprou meio-copo de café, por 75 centavos, e fumou um, ou dois cigarros. Conversamos sobre Darcy Ribeiro, utopias anarquistas e as expectativas que tínhamos em relação ao futuro. 

 

Enquanto descíamos as escadas que dava para o pátio da FE, Maia disse:

 

“Vou fazer um documentário da passeata”

 

“Legal”, falei. “Você vai começar as filmagens hoje”

 

“Sim”.

 

“Tipo Glauber Rocha, em A Revolução dos Cravos... Já viu esse filme?”

 

“Sim”, respondeu, empolgada. “É um puta documentário”.

 

Ali percebi que nosso lance era diferente: era uma afirmação honesta e verdadeira de tudo o que julgávamos certos nos bares fuleiros no Leste Universitário, e que estavam presente na cabeça dos estudantes, professores e trabalhadores da educação – não os atrelados a partidos políticos, mas sim os que desejavam reivindicar algo. 

 

De repente, quando já estávamos sentados bebendo café, Maia segurou a minha mão, visivelmente emocionada, e bradou: 

 

“A gente não tem liberdade pra pensar, pra ser, pra existir... tô tão cansada disso. Quero mudar tudo isso”, disse.

 

“Liberdade é para poucos”, rebati, abraçando-a.

 

Maia sorriu e se recostou no tronco de uma árvore, olhando para mim. Fiquei hipnotizado pelos seus olhos castanhos de farol. Meu cérebro, de uma hora para outra, tornou-se incapaz de construir uma frase.

 

É, ela mexia comigo. 

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