A festa antifascista

October 19, 2018

Resistência

 

Coletivo Metamorfose promove festa com temática antifascista com objetivo de combater os crescentes casos de violência que acometem o Brasil. Ingresso custará R$ 5

 

Coletivo de mídia independente apresenta evento com temática antifascista. Foto: Divulgação

 

Itália, 1922. O fascista Benito Mussolini (1883-1945) chegou ao poder com a promessa de que iria trazer os anos gloriosos do Império Romano de volta. Neste meio tempo, que nunca chegara a se concretizar de fato, intelectuais foram perseguidos pelo regime totalitário e permaneceram encarcerados até o final da ditadura, após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Marxista, o escritor Antônio Gramsci (1891-1937) foi um deles. No xilindró, escreveu o clássico Cadernos do Cárcere, conjunto de 29 cadernos onde ele se empenhou radicalmente em explicar a  importância das contradições e da cultura na transformação da sociedade. Morreu amordaçado pelo fascismo.

 

Ponto, parágrafo... Agora, você está no Brasil na década de 2010. Após a reeleição de Dilma Rousseff (PT), ex-combatente pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) durante a Ditadura Militar (1964-1985), a dita nova direita começou a ganhar adeptos nas mais diversas camadas da sociedade. Com discurso truculento, pregando uma ode ao machismo e ao armamentismo, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) é o mais cotado para subir a rampa do Palácio do Planalto no dia 1° de janeiro do ano que vem. Eleitores do ultradireitista veem no discurso dele uma justificativa para a barbárie, vide os casos de violência cada vez maiores e referência escrachada ao nazismo, que levara o mundo ao colapso entre as décadas de 1930 e 1940.

 

Preocupado com o futuro do País, o coletivo Metamorfose organiza no sábado (20) festa com temática antifascista. O evento vai acontecer na Casa Liberté, na rua 19, Setor Central, próximo ao Colégio Lyceu. A primeira atração será o documentário da diretora carioca Lúcia Murat, Que bom te ver viva, lançado em 1989. Do começo ao fim, o filme exibe depoimentos de mulheres que foram brutalmente torturadas durante os anos de chumbos na época em que os milicos governaram no Brasil. Em seguida, haverá roda de debates com a advogada popular Sara Mâcedo e a mestranda em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Sofia Corso.

 

O ator e produtor cênico, Geovani dos Santos, 22, comentou que a arte é a única maneira de conseguir se comunicar com todos os grupos sociais. Segundo ele, as manifestações artísticas simbolizam uma forma de resistência contra todos os retrocessos e processos históricos pelo qual o Brasil já passou. “A performance Mídia Humana (que Geovani vai apresentar na Liberté) está diretamente ligada às minhas vivências pessoais que se tornam fatores importantíssimos de luta no atual momento preocupante que vivemos, além de representar parte das brigas diretas e violentas que eu já vivi no Pará”, explica o artista, que é natural de Marabá, no Pará.

 

Fotojornalista, Júlia Lee, 22, irá declamar alguns poemas que escreveu ao longo de 17 anos. “Escrevo sobre os gritos da alma para não morrer afogada em agonia”, argumenta ela, que é colaboradora da sessão literária Doce Viagem, coluna do Jornal Metamorfose. “A arte é uma das formas de resistência contra todo tipo de opressão que a gente vem vivendo nos últimos tempos, sendo representada pela candidatura de um ex-capitão do exército abertamente fascista”, diz Lee. Integrante do coletivo de mídia independente Metamorfose, ela acredita que, mesmo com a derrota de Bolsonaro nas urnas, o autoritarismo já é uma realidade no Brasil. “As eleições são uma farsa e representam tudo aquilo que vemos na democracia liberal burguesa. Então, o processo que estamos vivendo no momento é algo muito maior. Por isso, organizamos essa festa”, pontua.

 

O agitador cultural e jornalista Heitor Vilela, 24, argumenta que os diversos casos de violência provocados por simpatizantes do ultradireitista nas últimas semanas são efeitos da “cobra que estão criando na sociedade”. Para ele, que possui histórico de luta contra a opressão no Estado de Goiás, sendo inclusive encarcerado no âmbito da Operação R$ 2,80, a história vai se lembrar de quem esteve ao lado “dessa podridão”. “A gente precisa resistir (enquanto podemos) contra toda e qualquer postura autoritária. Estamos com medo. E o que significa isso? E o que significa esse medo? A possibilidade nefasta de se manter em silêncio, de não reagir, não contrapor, não resistir ao pensamento e atitudes fascistas. Não é momento de se esconder, é momento de enfrentar”.

 

Atrações

 

A exibição do documentário Que bom te ver viva está marcada para às 16h, horário em que as portas da Casa Liberté estão abertas ao público. Dirigido por Lúcia Murat, que participou da luta armada contra a ditadura e foi torturada nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o filme será a fagulha para o debate que irá rolar em seguida. Murat, em 2004, abordou a temática do militarismo de novo no filme Quase dois irmãos, que retrata a cadeia da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde os prisioneiros e presos comuns dividiam o mesmo espaço. O longa é estrelado pelo ator Caco Ciocler e Flávio Buraqui.

 

Comandada pelas poetas Maria Luiza Graner, Júlia Lee, Gardênia e Maha Iza (expoente da poesia marginal feminina goianiense, tendo participado da Antologia Clandestina, lançada no ano passado), a leitura que guiará o sarau será essencialmente com cunho de resistência antifascista. “Nossa uma amizade que nasceu da música se une pela primeira vez nos palcos para cantar a injustiça social com poeticidade e performance. Unidos em suas vozes brasileiras o objetivo é manter-se cantando em um país que nos quer silenciar”, contou Maria Luiza Graner, 20, que deve se apresentar ao lado do poeta Wilson da Silva, 20, seu amigo de longa data.

 

O ator Geovani dos Santos vai ser uma das atrações da noite. Foto: Maria Luiza Graner

 

 A atração final será a banda goiana Guerrilha Armada dos Coelhos Mutantes. Foto: RG Fotográfico

 

Por fim, a principal atração da noite ficará sob responsabilidade da banda goiana Guerrilha Armada dos Coelhos Mutantes. Formada em 2007, o grupo faz parte do movimento Calango Beat, que consiste numa mistura entre estilos musicais regionais e das grandes metrópoles. A Guerrilha carrega como alicerce a ideia de música de mensagem, com letras empodera­das, de protesto, que relatam pro­blemas sociais cotidianos, sem nunca per­der o ar revoltado que lhes caracteriza. A voz estridente de Ângela Vitorette Leite é a marca registrada da banda. O show será em versão acústica.


 

 Metamorfose promete mudar a cara dos meios de comunicação em Goiás. Foto: Reprodução

 

 

 

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