JM
Trigo, margarida e arruda

Deixei para depois o milagre do amor.
Sempre que o amor tentava me escapar pelos bolsos, lapelas e bainhas, eu ria. Ria porque sabia que você chegaria – desde a primeira vez que a gente dançou. Você ainda não tinha nome de flor. E ainda assim, quando você veio, floresci.
E feito um ingazeiro florido, que não sabe da vinda inevitável da fruta – doce e aveludada –, a minha boca se calou quando eu avistei o amor vindo em seus braços: lindo, agitado e criança. E assim, sincopadamente fonético, o amor foi rasgando-me os bolsos, as lapelas, as bainhas. O amor quis fazer festa.
O amor quis soltar foguetes que inevitavelmente sairiam pela minha boca, imperecíveis e dourados. Corajosa, você embalou e adoçou o amor-menino. Sentou-se ao lado do amor para dizer-lhe:
Sentimento meu, a simplicidade é morada do entendimento.
E eu vi (era setembro) a liberdade correndo nas suas raízes.
Você chega brisa e acaba em tempestade, reorganizando, inclusive, certezas que os sujeitos não sabiam que tinham. Paralisando os sentidos. Fazendo crescer tudo que é natural. Beija as vontades que a gente deixa ali, na gaveta de guardar as coisas que a gente não quer encarar, mas não quer jogar fora. E quando você vai embora, caminha até a porta como chega a chuva.
Poderosamente trivial.
Enquanto eu escrevo, o amor está em meu colo, enroscado. Já não mais embolso seu embalsamado corpo. Deixo correr livre o menino, pelos quintais que você me leva para caminhar, quando o tempo é de jardim.
E em silêncio, peço a qualquer santo:
Se o tempo for propício à semeadura, que seja
trigo, margarida e arruda.