Que leiamos mais Piva

November 13, 2018

Poesia marginal

 

Leitor de García Lorca e Rimbaud, Roberto Piva é considerado um beat à brasileira

 

 A obra do poeta Roberto Piva conta com intertextualidade entre autores surrealistas e marginais, como os simbolistas franceses. Foto: Reprodução

 

 

“Sua escrita é espontânea, movida pelo entusiasmo, ao sabor da inspiração e do fluxo da consciência” - Claudio Willer, poeta, crítico literário e tradutor, em artigo sobre Piva

 

 

Original e maldito. É assim que o poeta paulistano Roberto Piva (1937-2010) é lembrado nos dias de hoje. Publicado pela primeira vez em Antologia dos Novíssimos (1961), coletânea que reúne textos de escritores sessentistas, Piva é cultuado como uma das vozes mais marcantes da literatura marginal brasileira. A notoriedade que ele ganhou veio logo de cara, quando lançou o surpreendente primeiro livro, Paranoia (1963), que possui fotografias do artista visual Wesley Duke Lee (1931-2010).

 

Leitor assíduo do dramaturgo surrealista Antonin Artaud (1896-1948) e do maldito Arthur Rimbaud (1854-1891), o paulistano publicou vários manifestos que são determinantes para a compreensão de sua obra. Piva foi responsável por promover a chegada do estilo beatnik ao Brasil na década de 1960. Embora na época os escritores contraculturais da década de 1950 já fossem conhecidos como temática jornalística, o poeta paulistano foi o pioneiro em língua portuguesa a estabelecer um diálogo com a trupe rebelde fazia parte da geração Beat.

 

No artigo Roberto Piva e a poesia (2010), publicado na Revista Triplov de Artes, Religiões e Ciência, o poeta e tradutor Claudio Willer escreveu que “a leitura de Allen Ginsberg contribuiu para que Piva se expressasse com maior liberdade vocabular”. “Piva criou todas essas paráfrases, alusões e apropriações (e tantas outras) de modo proposital? Não creio. Sua escrita é espontânea, movida pelo entusiasmo, ao sabor da inspiração e do fluxo da consciência. Escreve direto. Seus manuscritos originais correspondem ao que foi publicado, quase sem rasuras”, diz Willer, que traduziu Uivo e outros poemas (1956), de Allen Ginsberg, para a língua portuguesa.

 

Obra marcante na contracultura literária, o livro Paranoia é instilado de paixão transgressora cujo destinatário é a própria cidade de São Paulo. Falar desse marco é pesar os sentimentos de amor, êxtase, ritmo e correspondência. Piva é foda. Os versos do poeta paulistano, conforme ensaio do crítico literário paranaense Francisco de Matteu, Transvicerar Roberto Piva (2018), carregam consigo as características descritas pelo romancista francês George Bataille (1897-1962), autor do clássico da literatura erótica História do Olho (1928): existem por conta de uma paixão amorosa.  Paixão era o combustível do cara.

 

Bem, não restam dúvidas que o paulistano teria bastante assunto para conversar com o poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989), responsável por traduzir o clássico Pergunte ao Pó, do escritor norte-americano John Fante (1909-1983), cronista da doentia sociedade norte-americana durante a Grande Depressão. O que eu quero dizer é que o precursor do movimento beatnik no Brasil bebe praticamente da mesma fonte que Leminski, o que pode ser notado em uma simples leitura dos poemas e ensaios do paranaense. Tal semelhança, aliás, chegou a ser percebida por Matteu em Transvicerar Roberto Piva (2018).  

 

“Para ele (Piva), estar apaixonado era praticamente uma condição necessária para escrever”, discorre o crítico literário. Com a palavra, o maldito paulistano: “Poesia é uma consequência da vida, um epifenômeno dela”, escreveu o poeta. Esse tesão literário conferido nas palavras do próprio Piva, a quem a célebre frase do escritor Jack Kerouac (1920-1969) “só gosto dos loucos, dos loucos para viver” deve ser atribuída sem pudor num necessário exercício de paráfrase. “É o que sobrou da paixão, é que o sobrou da orgia”, arremata o poeta, na obra Encontros (2009).

 

Desregramento

 

Que para escrever poesia seja necessário ter uma vida intensa pode até ser interpretado como uma falácia. Nosso maior poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), por exemplo, foi um funcionário público exemplar e, até onde nos mostram os registros históricos,  sua biografia quase não tem muitos excessos. Há casos, todavia, nos quais sejam impensáveis imaginar a constituição poética dentro dos limites da sobriedade e racionalidade. O escritor paulista Roberto Piva, homossexual e adepto da filosofia dionisíaca da embriaguez, deixou-nos esse legado existencial.

 

Desde 1963, quando lançara o explosivo Paranoia, Piva tratou de transgredir a espinha dorsal de sua poesia, mantendo-se fiel a frase que mais proferiu em entrevistas ao longo de sua vida: “só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Fã da expansão da consciência por meio de alucinógenos, o poeta fez do seu comportamento pouco usual a matéria prima de sua obra, moldando sua linguagem conforme as experiências que tinha. O escritor Ademir Assunção, vencedor do prêmio Jabuti em 2013 pelo livro A voz do ventríloquo, definiu à Revista Cult que Piva “não era um poeta de final de semana. Era um poeta intenso, em tempo integral. Para ele,  a poesia não era um adereço intelectual. Era algo vital”.

 

Além da conduta dionisíaca estava o xamanismo, culto às forças da natureza cujo contato Piva travou ainda jovem com um empregado de uma fazenda do seu pai. A partir de então, a prática milenar tornou-se ponto central em sua vida, já que a busca pelo sagrado primitivo é tomada, muitas vezes, como símbolo de oposição aos ditames da civilização cristã, à qual era crítico ferrenho. “A maioria de suas poesias foi escrita em locais que ele chamava lugares de poder, por terem uma vibração, um magnetismo que davam a ele inspiração. Era lugares que ele tinha como mágicos”, diz o companheiro de Piva, Gustavo Benini, em entrevista à Revista Cult.

 

Ainda que estivesse diretamente associada às experiências imediatas, a poesia de Piva não se resume somente a materialização do instante. “Ele jamais economizou citações e indicações de leitura no aparente delírio de seus poemas. Assim, em um país com 70 por cento de analfabetos funcionais, Piva navegou contra a corrente não só pela poesia supostamente hermética e pela conduta transgressiva, mas por apresentar-se como erudito e divulgar sua erudição”, declarou o poeta e tradutor Claudio Willer.

 

Também é possível elencar outras referências, como, Rimbaud e aquilo que ficara conhecido como “desregramento de todos os sentidos”, a música (sobretudo jazz e bossa nova), bem como o pessimismo nietzschiano, “De tudo o que se escreve, aprecio somente aquilo que é escrito com o próprio sangue”.

 

Poemas:

 

Poema Porrada

 

Eu estou farto de muita

coisa

não me transformarei

em subúrbio

não serei uma válvula sonora

não serei paz

eu quero a destruição

de tudo que é frágil:

cristãos fábricas palácios

juízes patrões e operários

uma noite destruída cobre os dois sexos

minha alma sapateia feito louca

um tiro de máuser atravessa o

tímpano de

duas centopéias

o universo é cuspido pelo cu

sangrento

de um Deus-Cadela

as vísceras se comovem

eu preciso dissipar o encanto do meu velho

esqueleto

eu preciso esquecer que existo

mariposas perfuram o céu de cimento

eu me entrincheiro no Arco-Íris

Ah voltar de novo à janela

perder o olhar nos telhados

como

se fossem o Universo

o girassol de Oscar Wilde

entardece sobre os tetos

eu preciso partir um dia para muito longe

o mundo exterior tem pressa demais para mim

São Paulo e a Rússia não podem parar

quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?


 

 
 

 

 

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