O Chernobyl chileno: crise ambiental e envenenamento da população

November 23, 2018

MEIO AMBIENTE

 

Foto do coletivo chileno de fotojornalismo Sac Fotografia

 

 

Imagine industrias sendo instaladas e atuando desde 1958 em uma área e, a cada dia, a população local sofrendo com a emissão de poluentes, seja via ar ou via água. Parece ruim, não é?! Pois essa é a realidade das comunidades de Quintero e Puchuncaví, que abriga o cordão industrial do Chile, também chamada de "zona de sacrifício."

 

Quintero e Puchuncaví estão localizados na região costeira central de Valparaíso, uma região onde o Ministério do Meio Ambiente Chileno afirma estar implementando medidas para melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. A baía de Quintero é uma região repleta de água e recursos naturais, em especial metais preciosos e terras férteis. Já Puchuncaví é uma das cidades mais antigas do Chile, com mais de 500 anos e, de acordo com o historiador Benjamín Vicuña Mackenna, a cidade era um dos terminais do famoso "Camino del Inca", a trilha que ligava a zona central do Chile com Cusco.

 

No ano de 1894 formou-se a primeira comuna chamada "Quintero-Puchuncaví", integrada pelas duas localidades e em 1925 foi criada a comuna de Puchuncaví; no entanto, o Presidente Carlos Ibáñez del Campo, em 1929, promoveu um decreto anexando as comunas de baixo orçamento e a comuna de Puchuncaví foi eliminada, ficando dependente por um longo período de Quintero. Mas em 1944, Puchuncaví novamente se tornou uma comuna independente.

 

Durante a primeira metade do século XX, a Baía de Quintero era uma área dedicada principalmente à pesca artesanal e ao desenvolvimento da agricultura em várias de suas localidades. No entanto, com a crise que atingiu o Chile em 1930, o país adotou uma política de substituição de importações, o que aumenta o mercado interno e desenvolveu um setor secundário da economia, baseado na ativa participação do Estado nas empresas do país. Assim, em 1958, na localidade de Ventanas, se instala uma termoelétrica da empresa estatal Chilectra e, em 1964, se instala a Fundação Ventanas, da Empresa Nacional de Mineração (ENAMI – na sigla em espanhol), adotando um modelo desenvolvimentista. Atualmente é onde ocorre a maior parte do armazenamento e distribuição de petróleo e fundição de cobre. A região também possui o principal complexo marítimo do país e da costa oeste da América do Sul. É composto pelo porto de Valparaíso, principal porto exportador, com um movimento de 4,6 milhões de toneladas em 2007; pelo porto de San Antonio, primeiro porto regional de importação, com um movimento de 6,0 milhões de toneladas em 2007; e os portos de Ventanas-Quintero, que se tornaram o principal ponto de tráfego nacional e internacional de combustíveis líquidos.

 

A instalação deste parque industrial, que cresceu em seus quarenta anos de operação, significou uma importante fonte de emprego e desenvolvimento para a região, o que levou inclusive à criação de setores de habitação e de lazer. Entretanto, o crescimento industrial também produziu impactos ambientais que, desde o início, causaram a resistência de vários grupos locais. Os primeiros foram os agricultores que entraram com ações judiciais contra a ENAMI por danos às colheitas e aos animais. Posteriormente, professores se juntaram, pautando frente às autoridades sobre a contaminação dos habitantes.

 

Ainda nos anos oitenta foram realizados estudos sobre o nível de contaminação da água e do solo e sobre a saúde dos trabalhadores da região. Em 1992, o alto nível de poluição do ar na área foi reconhecido pelo Estado, tendo que adotar medidas para combater esse problema. Em 1993, o Ministério da Agricultura, por meio do Decreto nº 346/93, declarou Puchuncaví e Quintero como uma área saturada com dióxido de enxofre.

 

Esse mesmo gás foi o responsável pelo envenenamento em massa de estudantes e professores na antiga escola La Greda devido a um vazamento da Codelco Ventanas, o que levou ao encerramento das atividades dessa refinaria. Para além disso, há registros de derramamento de óleo na baía, alta quantidade de emissão de gases poluentes e tóxicos, etc. Tal situação vem gerando cada vez mais demandas da comunidade local por soluções em um curto prazo e que seja definitiva, como o fechamento de usinas termelétricas a carvão, para impedir o crescimento do parque industrial e limitar as atividades produtivas.

 

De acordo com o Greenpeace, as indústrias e a população afetada não podem mais coexistir. Não é mais suficiente apenas continuar medindo o ar ou levar os afetados para tratamento médico toda vez que uma emergência é registrada. A população local está sendo hospitalizada por envenenamento. Segundo a ONG, é o verdadeiro Chernobyl chileno.

 

Em agosto desse ano, sete dias depois das autoridades confirmaram sete novos casos de intoxicação, 10 mil estudantes ficaram mais de duas semanas com aulas suspensas devido ao risco de intoxicação na região, de acordo com o portal de notícias Publimetro.

 

Em entrevista para o Jornal Metamorfose, o fotojornalista chileno Max, morador de Valparaíso, afirmou que o termo 'zona de sacrifício' é relativamente novo e diz respeito a localidades pobres que não tem uma rede política que os ajude, consequentemente são vulneráveis e esquecidas pelo governo, sofrendo dia após dia a contaminação da região.

 

Segundo ele, o governo até decretou que já não se poderia estabelecer novas indústrias, já que a zona estava saturada de emissões de ácidos. Porém, isso foi nos anos 1990. Para piorar, as leis para a regulamentação das emissões não têm sido aprovadas por nenhum governo desde então.

 

O que existe na realidade são dias específicos onde uma ou várias indústrias emitem gases, formando uma nuvem tóxica que chega até Quintero/Puchuncaví e a população começa a passar mal. A única coisa que o governo faz nessa situação é emitir um alerta e as aulas são canceladas, trabalhadores podem ficar em casa, etc. Max afirma que essas empresas nunca são responsabilizadas ou submetidas a investigações serias por parte do governo chileno, mesmo com 700 pessoas diretamente afetadas por esses problemas ambientais decorrentes de tal atividade.

 

Protestos

 

 Fotos de protestos em Valparaíso e Quintero/Puchuncaví. Fotos do coletivo Sac Fotografia

 

Os chilenos tem uma longa história de resistência, luta e consequentemente opressão por parte do estado. Para Gabriel Valenzuela, que é engenheiro ambiental e mestrando em geografia, a Ditadura Militar (1979-1990) não foi somente uma violação dos direitos humanos mas "um atraso intecltual, até os dias de hoje você vai numa livraria perguntando por filosofia marxista ou hegeliana, e o pessoal da loja vai te olhar esquisito, falar de marxismo aqui gera medo, por que o terror ainda fica na memória dos chilenos", afirma Gabriel em entrevista ao Jornal Metamorfose

 

Segundo Gabriel Valenzuela, os grandes meios de comunicação não divulgam os protestos, que seguem se radicalizando a cada dia, o que gera uma sensação de "abafamento" da situação. Valenzuela explica que o chile é "um lugar pequeno e reprimido, uma 'sociedade disciplinada'. Os meios de comunicação conseguem dividir a opinião pública, mas tem um pessoal inteligente e organizado, a internet é uma  forte arma para gerar uma 'inteligência coletiva' nas redes sociais, gerando um movimento social novo", afirma. O que acontece atualmente no Chile é a divulgação de protestos e notícias políticas em meios de comunicação alternativos, como por exemplo, o coletivo de fotojornalistas Frente Fotográfico, que fazem coberturas diárias dos protestos. 

 

Com divulgação nas redes sociais diversos protestos, pacíficos ou não, vem acontecendo, nas regiões de Valparaíso e Quintero/Puchuncaví, consequentemente uma repressão cada vez maior e mais violenta da população local. Segundo o fotojornalista Max, nos primeiros dias de outubro "acharam um cara em pleno centro de Valparaíso, morto numa cena de "suicídio". O cara era um dirigente sindical e ativista meio ambiental de Quintero. Se quiser procurar mais de ele o nome dele é Alejandro Castro. Foi foda porque foi muito óbvio que foi assassinato, o dia anterior o cara estava normal, participando das manifestações como sempre. Policia disse que foi suicídio”.

 

Em entrevista à CNN chilena, a mãe de Alejandro afirmou que seu filho vinha sendo observado já a algum tempo e que já havia sido ameaçado pelos Carabineros de Fuerzas Especiales (um grupo de operações especiais da polícia).

 

Essa situação não é exclusiva de uma única região do Chile, atualmente governado por Sebastián Piñera, conservador de direita e apoiador do ultra-direitista Jair Bolsonaro, recentemente também está bastante tensa a situação dos mapuches e as disputas de terra, tendo ocorrido o assassinato de Camilo Catrillanca.

 

O Jornal Metamorfose trará mais notícias em breve. 

 

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