• Marcus Vinícius Beck

O papa questiona a veracidade do telejornalismo

Resenha

Em romance, escritor Tom Wolfe levanta a questão de até que ponto um telejornal pode manipular imagens e mentir

Terno branco. É assim que o jornalista e escritor norte-americano Tom Wolfe (1930-2018) ficou conhecido na década de 1960. Considerado um dos pais do Novo Jornalismo, vertente contracultural sessentista que utilizou técnicas próprias da literatura realista para a composição de reportagens, Wolfe era dono de um texto elegante (repleto de onomatopeias, metáforas, ironia e sarcasmo) e não poupava críticas à sociedade de consumo do Tio Sam, elevando o jornalismo ao estado de arte.


O livro O novo jornalismo (1973) é um fidedigno documento dos anos em que Wolfe (1930-2018), Gay Talese (1932), Truman Capote (1924-1984) e Norman Mailer (1923-2007) reinventaram o texto jornalístico. Para o papa, era preciso misturar elementos de construção cena a cena, observação e sentimento para compor a reportagem. Tudo isso parecia ficção, coisa da cabeça desse maluco do Tom Wolfe, mas era verdade. Ao longo do ensaio, Wolfe tece elogios ao realismo francês (que tinha os escritores Gustave Flaubert (1821-1880) e Honoré de Balzac (1799-1850) como principais expoentes) e defende que era preciso adotar tais ensinamentos.


Porra, como assim? Ora, por meio da técnica realista, os repórteres poderiam penetrar no íntimo da sociedade, pois os romancistas, na visão de Wolfe, tinham escolhido não levar isso muito a sério. Na França, país em que Wolfe enxergava bastante influência para os novos jornalistas, jovens escritores estavam experimentando romper com as estruturas tradicionais do romance, tendo como principal carro-chefe a obra O Jogo da Amarelinha (1963), do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984).


Bem, agora vamos aos fatos. O romance Emboscada no Forte Bragg, publicado pela editora L&PM, chegou é um dos poucos livros de Tom Wolfe em língua portuguesa. Na terra natal do escritor, a história que conta o assassinado de um jovem homossexual na base militar de Forte Bragg nunca chegou a ser publicada em livro impresso. Saiu em capítulos, todo mês, na revista cultural Rolling Stone, em diversas edições entre o final de 1966 e o começo de 1997.


Ainda que tivesse considerável sucesso de público e crítica, não foi suficiente para fazer com que o texto de Wolfe ganhasse o formato de livro. “Meu editor não achou que Emboscada... fosse bom o bastante para ser meu primeiro livro desde Fogueira das Vaidades (1987)”, disse o autor, na época. Seu editor não foi o único que teve ressaltar em relação à qualidade da obra. Os suplementos literários de prestígio, como o inglês de The Times Literary Supplement e do jornal The Washington Post bateram “de mão fechada” em Wolfe em função de Emboscada.


O principal argumento para assegurar que a qualidade do romance não era lá grandes coisas era a postura conservadora com relação ao homossexualismo. Apesar de contar com deslize grave, ainda mais vindo de um cara que teve papel de protagonista durante a contracultura, na década e 1960, a Emboscada tem, sim, sua ponto positivo: Wolfe, com maestria literária, conseguiu descrever como uma rede de televisão (na época em que a obra foi escrita ainda o meio de comunicação que tinha mais amplitude) manipula o depoimento de um trio de soldados, atraído às câmeras depois de serem levados pelos jornalistas a sessões de bebida e strip-tease.


Homofóbicos, os três são suspeitos de chutarem até a morte um companheiro de farda que foi “pego gemino qui nem uns doido”. Ah, antes que me esqueça, a linguagem adotada por Wolfe na obra é genial... Em inglês, o terno branco escreveu como acreditava que militares conversariam. A tradução para o português optou por uma linguagem de “caipira símbolo”, de acordo com o material de divulgação da editora Rocco, primeira a lançar a obra na terra tupiniquim.


Mesmo com todas as críticas, Wolfe acertou a mão ao criticar a cultura norte-americana. Claro que nem de longe deste livro possui peso jornalístico e literário equivalente ao Fogueiras da Vaidade, mas ainda assim deve ser lido pelo público. Wolfe, como um legítimo representante do Novo Jornalismo, é um cara que precisa ser lido pelas pessoas mais novas. Isso é que basta.