Os falsos enfrentamentos da direita conservadora brasileira e o sacrifício recorrente do corpo das mulheres

December 13, 2018

Política 

"Bolsa Estupro" é o novo projeto da ministra do ministério de Mulheres,Família e Direitos Humanos , Damares Alves

Protesto 8 de março de 2018, em Goiânia. Foto: Júlia Lee

 

Nesta última semana, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), anunciou sua nova ministra do proposital e arcaico ministério de Mulheres, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, uma pastora protestante da Igreja do Evangelho Quadrangular. Em defesa da vida e da família, mas disposta a se movimentar pela pauta de igualdade salarial, interessantemente, uma das poucas demandas das organizações feministas de cunho politicamente liberal, através de falas como “empoderamento financeiro”. A religiosa cristã também vem de um gabinete parlamentar já conhecido por demandas legislativas consideradas extremamente conservadoras, a do deputado Magno Malta, senhor da recentemente e definitivamente arquivada, projeto de lei Escola sem Partido.

 

A futura ministra também passará a controlar a garantidora indireta dos direitos das populações originárias do Brasil, a FUNAI, sendo apresentada a pasta, como “mãe de uma índia”. Os estereótipos são um mundo para representar esses falsos enfrentamentos. Uma mulher singularizando performances de confronto do homem médio da elite do poder é bem mais interessante para concretizar direitos que precisam ser sacrificados para nos tornamos um país de cidadãos de bem que não poderia perder tempo com demandas de considerada “novidade”, como a liberdade do corpo da mulher (a finada rainha da Inglaterra, por exemplo, no momento das conflagrações pelo sufrágio feminino, foi extremamente contra tais “ambições”, afirmando que o lugar da figura da mulher era outro, a história poderia nos contar mais).

 

Essa semana também se tornou em evidência o ativismo da futura ministra em torno da agenda do aborto. É interessante verificar que a palavra crise está presente em todas as falas que tentam justificar o sacrifício da dignidade da mulher, em contraponto a um direito marital e bíblico de dificultosa comprovação real. A relativização do pacto dos direitos humanos é agenda recorrente na América Latina, a mão que acena uma “bolsa estupro” que se encontra curiosamente se nenhum apoio atual da bancada evangélica no segmento parlamentar – um projeto não se sustenta sozinho -, pode mascarar, por exemplo, a reforma sem precedentes do ensino médio. Paulo Freire já apontava não haver nem causa nem consequência à crise da educação, ela é simplesmente moldada nos encaixes para ser assim, até como essência, pois não caberia caráter transformador.

 

Uma “bolsa estupro”, seria, em palavras mais elucidadas, uma contrapartida financeira que sacraliza o corpo da mulher como um objeto sem alternativas se não a concepção, mesmo que o fruto seja da violência. No século XIX isso era chamado de indulto de reles imoral, para mulheres que não se deram o respeito o suficiente para não serem estupradas, ou seja, elas deveriam estar fora de casa no momento.

 

É um elemento essencial da caça às bruxas diferenciar as mulheres enquanto elemento de exploração para a acumulação da força de trabalho, não é meramente uma opressão hierárquica. A maternidade compulsória das mulheres de países pobres é o que possibilita a legalização do aborto nos países ricos, afinal é o onde se delimita a verdadeira atividade produtiva para o capitalismo. A Irlanda não descriminaliza o aborto sem a possibilidade de derrota da dependência da Argentina sul-americana.

 

Através de valores judaico-cristãos, o mesmo discurso que vem servindo, desde sempre, para justificar falsos enfrentamentos de crises econômicas, a custo também, do que Damares aponta como práticas nocivas dos povos originários que devem propriamente continuar a ser colonizada.

 

Enfrentamos essas dicotomias difíceis entre opressões econômicas e demais opressões. Essa divisão é falsa. As armadilhas das polêmicas infelizmente colherão mais frutos duradouros quando se tratarem da luta feminista, principalmente depois das ruas serem tomadas pela força do #Elenão, afinal o contraponto de alcance do confronto é maior. Uma conversa de cunho privado e religioso sobre uma goiabeira pode tomar grandes proporções sem nenhum evidente contraponto positivo para a luta conta a exploração generalizada. Infelizmente a consequência confere poder às palavras.

 

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