A revolta nos acordes

December 16, 2018

No Timbre - entrevista com a banda Señores

 

Coluna foi publicada de 2015 a 2018 nas páginas do Diário da Manhã. Metamorfose republica a entrevista feita com a banda punk goiana Señores

 

Considerada a única coluna de entrevista em profundidade que rolou no jornalismo cultural goianiense nos últimos tempos, No Timbre vigorou nas páginas do Diário da Manhã entre 2015 e 2018. Neste tempo, o jornalista cultural Heitor Vilela (que foi editor por cinco anos do DM Revista e agora faz parte da editoria de cultura do Jornal Metamorfose) entrevistou boa parte da cena roqueira de nossa capital, fazendo um perfil do som que estava rolando nos bares e sendo ouvido pela galera no auto-falante das casas, dos carros e do trampo.

 

Apesar de bastante coisa ter acontecido nos últimos tempos, iremos republicar uma vez por semana essas entrevistas com o objetivo de manter vivo uma iniciativa que valoriza a cena local. A primeira da série será com a banda goiana de punk rock Señores, que foi publicada em fevereiro de 2015, mas parece bastante atual por conta do teor do conteúdo que guiou a conversa naquela ocasião. De lá para cá, o grupo lançou os discos Balões de Ar (2016) e Aqui é Chernobyl (2018), mostrando uma pegada que há tempos o rock havia perdido. (Marcus Vinícius Beck)
 

Heitor Vilela

Especial para o DM Revista

 

A quinta edição da coluna No Timbre, traz uma entrevista com uma das bandas de Punk Rock mais autênticas e antigas da cidade, que ainda está na ativa, com muita criatividade e energia depois de 16 anos de carreira. Em uma conversa descontraída em um bar do setor universitário, troquei ideia com o trio que forma a Señores, que me contou experiências únicas e históricas, além de episódios de lutas, correria e arte.

 

 

A banda é formada pelo médico Fred, baixista e vocalista, 38, , o professor de história Rafael Saddi, guitarrista e vocalista, 35, e o comerciante Mauricio Ramone na bateria, 36. A história começou em 1995, quando Rafael, Maurício e o Murilo, um punk, tocavam em uma banda chamada Psyco Terapy, que cantavam músicas em Inglês. Fred, que morava no Rio de Janeiro, já compunha com o Rafael, pelo telefone, algumas letras e melodias, após o fim da banda Psyco Terapy,  o baixista veio para Goiânia. Foi quando surgiu a proposta de fazer um outro grupo que cantava em português, com letras sobre opressão, resistência e a sociedade.

 

A proposta de nome inicial era Restos Imortais, porém não vingou e logo foi proposto uma outra alternativa. Em 1999 a Señores começou. A ideia do novo nome partiu de uma carta de Carlos Lamarca, guerrilheiro que participou da luta armada contra a ditadura militar no Brasil, que quando estava na clandestinidade e mandou o texto para os filhos que estavam exilados em Cuba, onde dizia: “Nunca chame ninguém de senhor, porque ninguém é senhor de ninguém”.

 

Señores é uma banda de Punk Rock, com influência no punk clássico da década de 70, como Ramones, The Clash e Sex Pistols. A marca registrada é a sonoridade melódica e rasgada, feita a partir de três ou quatro acordes e letras politizadas. “Estávamos muito insatisfeitos com o que rolava nos anos 90′, foi a década da decadência do rock, depois de Nirvana, falando do mainstream, não tinha mais nenhuma banda que tocava a tradução das revoltas cotidianas, com um som mais enérgico e engajado, a gente queria fazer algo que a gente gostasse de ouvir", conta Saddi.

 

A partir dessa proposta, a Señores começou a tocar nas periferias, gigs punk, eventos em espaços autônomos, estúdios e em toda a parte que rolasse um microfone e um som, mesmo que no meio da rua.

 

Cantando a revolução

 

O primeiro EP, um disco demo foi lançado em 2002, onde também trazia a referência de Lamarca no título: Ninguém é Senhor de Ninguém. O álbum foi gravado no Old Estúdio, onde a banda ensaiava e pela própria proposta do espaço, a partir de um preço camarada, a Señores conseguiu gravar e editar o primeiro disco. O álbum que tinha cinco faixas, entre elas a Aspidistra, ou Mantenha o Sistema, uma música baseada no livro do escritor inglês George Orwell, Keep the Aspidistra Flying, narra a história de um homem que trava uma luta contra o dinheiro. Nesse primeiro EP, outras canções clássicas foram gravadas, como o hino da CLG (Construção Libertária Goiana) uma organização libertária que o Saddi participava na época.

 

Porém em uma era que mesmo os jovens mais engajados, estavam mais preocupados com a estética do que com a mensagem do artista, as letras mais politizadas da banda, que vinham com uma história contextualizando antes de serem executadas nos shows, eram cortadas algumas vezes pelo grito de: “toca logo!”. E a partir dessa certa frustração de tocar e não ser ouvido ou compreendido, querer falar algo para o público e ser por muitas vezes ignorado, a Señores compôs a música Camundongos. “Eu me sinto bem menor que um camundongo que rasteja pelo chão do seu quintal, estou cansado de cantar, tantas letras pra pessoas que não vão nem mesmo me escutar”.

 

Mesmo com a dificuldade inicial e a aceitação em certos meios de tocar um som rasgado com letras politizadas, o grupo sempre manteve a mesma linha, sem rebaixar as pautas e os interesses. A partir que os três camaradas amadureciam, as letras se tornaram mais introspectivas e aprofundadas nas questões sociais, nesse cenário surgiu um segundo disco do grupo, o Paz entre Nós e Guerra aos Senhores. O álbum traz uma insatisfação com a apatia da sociedade, que não se interessa pela luta ou pela militância, com uma melancolia clássica do conjunto que traz a frustração como tema, mas com uma crítica esperançosa, em relação às mudanças sociais e a solidariedade de classe. O disco, além da questão de protesto, trazia conflitos do cotidiano, bem como das relações humanas e sentimentais.

 

O primeiro show da banda, foi no Cantorias, onde cada um levava um instrumento ou uma caixa, para montar a parte técnica do evento. Os shows na periferia eram organizados pela Liga HC, no esquema do faça você mesmo, com ingressos a R$ 1 e na parte da tarde, para o pessoal que morava longe pudesse ir e voltar para a casa de ônibus. “Não existia esse negócio de grandes festivais na época, o Goiânia Noise era underground ainda, rolava no DCE. Com o processo de profissionalização dos eventos de rock na cidade, os festivais passaram a ter ingressos caros, cervejas mais caras ainda e se tornaram inacessíveis para a galera mais quebrada, da periferia mesmo, que era o nosso principal público.”

 

O grupo comenta que nos primeiros anos da banda, a cena de Punk da cidade era rica, com shows quase todos os finais de semana e bandas boas como a Ímpeto, Flores Indecentes, HC-137 e a Obesos. “Continuamos tocando para o público paralelo, o pessoal com mais grana que queria curtir um som mais pop, neutro, sem contestação frequentava os grandes festivais. Foi ai que o Punk e o Hard Core foi ficando mais para o escanteio em Goiânia.” A Señores tocou em duas “Verduradas” que era uma festa de protesto pela questão da libertação animal, na Praça Universitária em shows abertos puxando a pauta Anti-Fascista, fazendo eventos no esquema de ocupação, chegavam, montavam e tocavam sem pedir autorização para ninguém.

 

Em 2004, surgiu o movimento Culturart, movimento de produtores culturais da região sul, no setor Parque Atheneu, o qual a Señores fazia parte. Esse movimento puxava eventos de manifestação para fomentar o incentivo a cultura naquela região periférica da grande Goiânia. Rafael Saddi comentou, que conseguiram montar um centro cultural e um cursinho popular para os jovens daquele bairro, além de realizar com frequência shows e apresentações com artes integradas, de bandas, grupos de rap e de teatro.

 

O hino das ruas

 

O banda atuou também apoiando a luta dos catadores de material reciclados. Em um show no festival Goiânia Noise, no ano de 2007, os integrantes da Señores conseguiram articular para que os trabalhadores do movimento cuidassem da parte de reciclagem de lixo de todo os dias do evento. Nesse mesmo ano, Rafael Saddi, que participava ativamente do movimento de catadores, foi participar de uma marcha em Aparecida de Goiânia contra o fechamento de um lixão. “Durante a manifestação, a PM fez o cerco para acompanhar o ato e eu e uns caras do movimento, juntamos para bolar umas palavras de ordem e nisso surgiu: “eu quero ver o prefeito não ceder, quero ver o secretário não tremer! Recua polícia, recua!”, disse Saddi. Deste movimento, surgiu uma das músicas mais famosas e icônicas da banda, a Recua Polícia.

 

“A Polícia Militar no Brasil, foi criada com um treinamento de guerra, para lutar contra o inimigo.  Quando ela é colocada nas ruas para lidar com civis, a população passa a ser o inimigo. Na ditadura a figura do subversivo era o inimigo que precisava ser combatido, ao fim da ditadura militar, o inimigo da PM, passa a ser o negro, o pobre, o morador da favela ou da periferia e principalmente os lutadores, quem questiona o estado ou o patrão.” o doutor em História, que também é professor na UFG, faz essa análise para explicar o porquê a música Recua Polícia foi tão aceita e difundida pelo país. “A música deu ritmo, à um sentimento coletivo de opressão dos brasileiros que fogem ao padrão aceito pelas instituições” completa Saddi.

 

Depois de alguns anos a banda gravou o álbum A banda, que entraria para o novo disco da Señores, que não foi lançada oficialmente, porém vazou na internet e se tornou um hino, um verdadeiro grito de guerra nas manifestações, de todo o tipo que acontecem na cidade. Durante os protestos contra o aumento das tarifas do transporte em Goiânia, entre os anos de 2013 e 2014, a canção foi amplamente entoada pelos militantes. “Saiu das ruas, do movimento dos catadores e agora voltou para as ruas novamente, Recua Polícia é um grito de resistência que foi absorvida pelos movimentos sociais e é cantada em coro nas manifestações, inclusive fora de Goiânia.”

 

“Aquilo que a gente cantava no segundo disco, que ninguém se interessava pela luta e a militância e que ninguém queria ouvir, isso mudou em 2013, a banda continua a mesma, porém a geração mudou e as pessoas começaram a se interessar pelo o que a gente cantava. A arte é a expressão das forças atuantes na sociedade, representam um momento único, aquilo que está transbordando e precisa ser dito, gritado, desenhado ou cantado.”

 

O grupo participou de vários eventos de ocupação, articulados pelo MUU (Movimento da união underground), que na época era puxado pelo Léo Punk, da Faixa de Gaza, que organizava atividades nas periferias da cidade para contrapor os grandes festivais de Goiânia. Nesses eventos, a banda de punk rock tocou ao lado de artistas iniciantes e também o pessoal do Rap e Hip Hop. “Se estamos com 16 anos de banda, é porque nunca ficamos totalmente parados, sempre tocamos nas quebradas, seja para muito público ou para uma dúzia de pessoas.”

 

Outra música e momento histórico que a Señores protagonizou é a O Operário Que Não Virou Presidente, que traz uma releitura a partir do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, contrastando com a história do presidente Lula e a visão que um governante tem da população: “a gente escreveu na época do segundo mandato do Lula, quando ele cortou o ponto dos grevistas, mas ela continua sendo atual e serve para qualquer político que se diz esquerdista ou representante dos trabalhadores. A máxima sobre um político sempre vai ser: Muda de visão, quem muda de lugar”. A banda tocou essa e outras músicas em um show histórico que ocorreu dentro do plenário da Câmara de Vereadores, que estava ocupado pelos servidores da educação em greve, no ano de 2014.

 

“Nunca recusamos nenhum show, o único lugar que a gente nunca aceitou ou aceitaria tocar seria qualquer evento ligado às eleições ou politicagem, por princípios.”

 

O baixista Fred contou de uma vez que a Señores tocou em um Hospital: “quando trabalhava como médico no Hospital das Clínicas, tinha um evento cultural de literatura em um espaço voltado para os estudantes de medicina, professores e pacientes internos do hospital. Era um evento de poesia, nunca tinha rolado bandas, ai levamos a bateria e todos os instrumentos e tocamos a música de 1 minuto e o pessoal adorou, mesmo doente ficaram cheios de energia com o nosso som”.

 

Em 2014, para registrar os 50 anos do Golpe Militar de 64′, um colégio público no centro de Aparecida de Goiânia organizou um festival em Repúdio à Ditadura, entre várias bandas a Señores foi convidada. Durante as apresentações, a Polícia Militar se sentiu ofendida por ter sido chamada para atuar na segurança do espaço e partiu para agressão contra todos os presentes, a maioria jovens menores de 18 anos que estavam com os pais e irmãos. “Um PM virou para mim e disse que era um desrespeito chamar a PM, para esse tipo de show, contra a ditadura militar. Espancaram gente pra caralho, foi um absurdo, saiu na mídia após o pessoal juntar provas e vídeos dos policiais atacando as crianças”, contaram os integrantes da banda.

 

A primeira ópera rock goiana

 

 

O disco Balões de Ar é certamente o disco mais maduro e diferente da Señores. “Esse disco escrevemos para o futuro, estamos apostando, lançando essas músicas ao vento, esperamos que chegue em algum lugar, em alguém.” O álbum totalmente autoral conta, em sequência, uma história com personagens e situações históricas, porém extremamente atuais.

 



 

 

 

 

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