• Júlia Lee

Erros da fé no capitalismo: a mercantilização da cultura

Chapada dos Veadeiros

Mercantilização da cultura marginalizada afeta preservação ambiental, favorecendo o avanço do agronegócio na Chapada dos Veadeiros (GO)


Foto: Ôrue Brasileiro


Quilombo. Substantivo masculino. Lugar secreto em que ficavam ou para onde iam os escravos fugidos. Os negros de diversas etnias que foram forçados a vir para o Brasil tinham sua própria cultura, e a miscigenação de povos nas senzalas resultou-se em outras culturas. Quando essas pessoas fugiam para campos de resistência, os conhecidos Quilombos, suas culturas e tradições continuaram sendo cultivadas em isolamento, assim como os povos indígenas que resistiram à colonização, suas tradições ainda perpetuam – mesmo que marginalmente – até os dias atuais.


A Chapada dos Veadeiros é conhecida por ser o ponto mais alto do estado de Goiás, assim como sua área de preservação ambiental que liga sete cidades, tem a mais importante área de preservação do cerrado e contém importantíssimas comunidades quilombolas e indígenas, que sofrem cada dia mais com o avanço do agronegócio e consequentemente a falta de demarcação de terras. Porém, desde 2001 acontece o Encontro de Culturas na Vila de São Jorge, que reúne todas as comunidades resistentes visando sua preservação cultural.


O Encontro acontece todos os anos em julho e tem duração de 15 dias, é um evento organizado por Juliano Basso através da Casa Cultural Cavaleiros de Jorge (CCCJ), do qual Basso é dono. Há 18 anos, Juliano viu a oportunidade de construir um espaço onde a cultura da população remanescente continuasse viva, foi-se criado então o Encontro de Culturas. Ano após ano, o evento foi construindo uma sólida relação turística com as cidades da APA de Alto Paraíso, pois além de trazer turistas de todo o mundo ele acontece no período de alta temporada, o que trouxe diversos tipos de investimento de fora para as cidades e vilas, assim como a melhoria dos serviços prestados e as condições daquela região.


Índio Fulni ô, foto: Júlia Lee


Um evento majoritariamente gratuito, que envolve as culturas ancestrais nas ruas da vila de São Jorge, e que fomenta o mercado e a economia local. O Encontro de Culturas conseguiu constituir uma relação muito forte com os povos que rodeiam a chapada, por serem sua única forma de compartilhar sua cultura com pessoas de outros ciclos sociais. Era uma oportunidade única de encontrar a integração das raízes do estado de Goiás num ambiente onde a experiência era gratuita, livre, e de fácil acesso.


As festas aconteciam majoritariamente nas ruas da vila, com a comunidade local participando ativamente da organização do evento. Sem contar que os moradores esperavam ansiosamente para se reencontrar com as festas tradicionais que foram marginalizadas e isoladas com o tempo.

Porém, assim como todo processo de mercantilização capitalista, e com o avanço do agronegócio que ameaça a região, a ganância e o dinheiro se sobressaíram à história. Em 2018 o Encontro de Culturas passou por um processo de privatização, com o auxílio de recursos políticos para o monopólio dos eventos culturais na Vila de São Jorge. O público que antes era diversificado e tinha a participação das comunidades se transformou em estrangeiros brancos que pagam de R$ 50,00 a 100,00 reais para terem acesso a cada oficina e show oferecido pela CCCJ, colocando a própria população das vilas à margem do encontro. “O encontro não é mais o mesmo, nós não temos dinheiro pra pagar pra ver as tradicionais danças e festanças que antes aconteciam nas ruas”, diz uma moradora (que prefere não ser identificada por medo de retaliações) de São Jorge que trabalha como sapateira.


De acordo com os moradores da vila, existem problemas relacionados à venda da cultura resistente e imposições políticas que influenciam a privatização do encontro, assim como relações socioeconômicas que refletem na consolidação econômica das cidades envolvidas. Segundo o antropólogo Caio Csermak, em sua tese de mestrado, o “acesso das culturas populares ao Estado é permeado pela submissão destas a lógica do mercado, o que se dá, especialmente, no caso de políticas públicas voltadas para o fomento do turismo. Nestas, as culturas populares muitas vezes cumprem o papel de um produto exótico a ser consumido pelos turistas, ávidos por uma experiência turística “com cores locais”.”


A relação do desenvolvimento financeiro da região entrelaçada ao Encontro de Culturas impõe um status importante de manutenção do próprio estado com a região. O avanço financeiro do encontro demonstra importantes relações de apoio com grandes empresas, como a própria Petrobrás, o que consequentemente leva investimentos estruturais na vila e região, melhorando a qualidade de vida dos moradores gerando empregabilidade no local.


O problema está na relação tóxica do poder financeiro, pois quando ocorre a perda de patrocínio derivado da crise política nacional e consequentemente econômica que ocorreu nos últimos anos no Brasil, existe a necessidade da manutenção desse poder. Como por exemplo, a intrínseca diferença entre o turismo tradicional para o ecoturismo, começando pelos seus consumidores e a forma como eles se relacionam com o que consomem. Assim como em todas as camadas do capitalismo selvagem, existem relações de poder alternativas, onde o turismo leva impactos ambientais com investimento de todos os lados para as vilas, o ecoturismo leva estabilidade econômica e preservação ambiental. A Chapada dos Veadeiros sofre com a mercantilização cultural, consequentemente turística, criando um cenário favorável para o avanço do agronegócio e o desmatamento exacerbado.


Todas as relações de poder que ocorrem no cotidiano da vila de São Jorge estão interligadas à uma estrutura macro de poder, que tem uma posição muito clara com a preservação socioambiental da região, que favorece o avanço do agronegócio. No aniversário de 18 anos, o Encontro de Culturas ficou refém dessa mercantilização, deixando a população da vila à margem do encontro, onde as pessoas apenas trabalhavam para o acontecimento sem desfrutar da cultura tradicional que ela mesmo faz parte.


18º Encontro de Culturas


Fotos do encontro dentro da CCCJ, tiradas por Júlia Lee


O Centro Cultural Cavaleiros de Jorge (CCCJ), de Juliano Basso, foi denunciado por moradores e ambulantes de fecharem a rua comercialmente, ou seja, para venderem produtos em frente o centro os vendedores deveriam pagar uma taxa para o encontro.


Sem contar no fechamento coincidentemente da casa Macaia, que se encontra ao lado da CCCJ, através de uma “denuncia anônima” de violação sanitária. O fechamento da Macaia aconteceu no mesmo dia do maior show que aconteceria no encontro, da cantora baiana Luedji Luna, e contou com a presença de policiamento ostensivo para o fechamento, com policiais com armamentos pesados, como metralhadoras.


Fotos Ôrue Brasileiro na hora da batida policial


O reflexo dessa privatização foi à ocupação dos moradores no encontro, os tendo somente como funcionários e não público alvo do festival. A maior parte da programação foi desfrutada por turistas e estrangeiros, majoritariamente brancos, o que se resultou em festas e acontecimentos culturais paralelos ao encontro, que acontecia nas praças e nas ruas da vila de São Jorge.


O encontro paralelo


Fotos Júlia Lee


Claramente, aconteceu o esperado, as comunidades locais e os visitantes que vieram para o evento acreditando que ele seria gratuito fizeram um festival paralelo ao evento, de forma completamente espontânea.


Shows nas ruas e bares, rodas de coco toda madrugada em frente a polícia, artistas de rua se encontravam e trocavam experiências… Aconteceu um woodstock nas ruas da vila de São Jorge, em 2018. Se via de tudo, circo andante, autonomistas, veganxs, movimento, existia movimento.


Nada era certo, e tudo era possível dentro do acaso, ao longo dos 15 dias de festival, eu percebi que a cultura estava viva nas esquinas e becos da cidade, que era na estrada para cachoeiras não pagas se encontrava a magia e que na marginalidade existia resistência.


*Para ver mais fotos do encontro de cultura, clique neste link: www.behance.com/fotografajulialee