Cultura goiana às mínguas

December 25, 2018

Repasse de verba

Artistas ainda aguardam pagamento relativo ao Canto da Primavera e Fica. Movimento oferece proposta para melhorar gestão da cultura no próximo governo de Goiás

 

Classe artística reclama que edital do Fica foi desrespeitado. FOTO: REPRODUÇÃO


 

“Temos leis de incentivo que estão sendo desrespeitadas, pois os artistas têm projetos aprovados e não recebem a verba para colocá-lo em prática” - Luzia Mello teatróloga e cineasta

 

Caloteira. É assim que artistas sintetizam como foi a última gestão à frente do Palácio Pedro Ludovico. Tal situação pode ser descrita como um enredo novo que faz parte de um filme antigo. Isso porque até hoje a classe artística recebeu menos da metade do Fundo de Cultura e Arte (FAC) relativo ao edital deste ano do Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica) e do Canto da Primavera. Somando-se a isso, professores do Itego Basileu França estão desde setembro com salários atrasados. Ou seja, passou-se bastante tempo e a cultura segue às mínguas.

 

Em reportagem publicada em setembro deste ano, o Jornal Metamorfose mostrou que dados do Portal da Transparência diziam que a Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) teria realizado o pagamento dentro do prazo estipulado. O repasse chegou a ser publicado no Diário Oficial do Estado, mas até o momento os artistas queixam-se de que a situação segue praticamente estagnada. “Os artistas que se apresentaram tanto no Fica quanto no Canto da Primavera receberam um quarto do valor que era estipulado no edital”, revela o compositor e artista visual Kleuber Divino Garcez, 44.

 

Apesar de o contexto atual ser extremamente crítico, é nele que surge o Movimento dos Artistas de Goiás. Em visita ao Metamorfose, a teatróloga e cineasta Luzia Mello afirmou que a cultura precisa renascer e se reinventar. “Temos leis de incentivo que estão sendo desrespeitadas, pois os artistas têm projetos aprovados e não recebem a verba para colocá-lo em prática”, comenta ela. Mello destacou ainda que a gestão da cultura no Estado precisa estar nas mãos de novas pessoas, mas ela destacou que para isso acontecer, é preciso rever as dívidas com a classe artística deixada pela gestão tucana. “Temos de contar com gente nova, com ideias novas e inovadoras nesse sentido”.

 

Coordenador do teatro Madre Esperança Garrido, o artista cênico e produtor cultural Eduardo de Souza disse que a preocupação do próximo governo em relação à cultura é fazer com que haja uma integração entre as artes. Segundo ele, as ideias centrais do Movimento dos Artistas de Goiás (que tem como objetivo promover a possível nomeação de Mello para a pasta da cultura) é a construção de uma cidade cinematográfica e a conservação dos patrimônios culturais do Estado. Questionado sobre o saldo dos governos do PSDB, ele declarou que, na balança, é preciso pesar os pontos positivos e negativos.

 

“Nestes anos, vários projetos foram encaminhados e vários festivais aconteceram, virando referências no âmbito nacional, como o Fica. Outro ponto importante foi tornar a Cidade de Goiás, antiga Villa Boa de Goyaz e antiga capital do Estado, patrimônio cultural”, reconhece. No entanto, diz ele, algumas iniciativas podem aprimorar as coisas que deram certo nos últimos mandatos. “Mas precisamos colocar a cultura como prioridade na próxima gestão”, afirma. “Minha visão é artística e comercial, tendo em vista a necessidade de modernizar com um olhar contemporâneo”.  

 

Situação complicada

 

A expectativa dos professores, alunos e gestores do Itego Basileu França é que a partir do dia 1° de janeiro os problemas que assolam a tradicional escola de artes possam, enfim, ter solução. Só as coisas andam tão ruins que começou-se a cogitar a possibilidade de a instituição entrar em colapso antes de Ronaldo Caiado (DEM) assumir o Palácio Pedro Ludovico. O instituto está parado há meses, e os professores estão em greve por não receberam qualquer tipo de pagamento. Para você ter uma ideia, o governo do Estado não repassa há quatro meses os recursos para a Organização Social (OS), responsável pela gestão do Basileu.

 

No âmbito municipal, também não há motivos para os artistas sorrirem. Em entrevista ao Metamorfose, a cantora Juliana Pimentel relatou que artistas que se apresentaram no Sons do Mercado, Canto de Ouro, Chorinho e Goiânia em Cena seguem sem receber da Secretaria Municipal de Cultura (Secult). “Estamos na iminência de receber, parece que eles vão pagar agora, mas ainda estamos sem grana”, diz. Pimentel criticou ainda o descaso dos órgãos que administram a cultura. “É muita injustiça a gente não ter recebido. Fizemos bastante compromisso com esse dinheiro e até agora nada. Está difícil. Inclusive o Carlos Brandão (produtor cultural, poeta e jornalista) falou sobre isso no último chorinho”, queixa-se.

 

Figura marcante na cena cultural goianiense, o produtor cultural Kleuber Garcez contou que a prefeitura de Goiânia vem pagando em parcelas pequenas os artistas que se apresentaram em iniciativas culturais fomentadas pelo município. “A prefeitura vem pagando em contas gotas os eventos do Canto de Ouro, Sons de Mercado e Goiânia em Cena. Mas, para você ter uma ideia, toquei em todos esses e até agora estou esperando o dinheiro do município”.

 

Em novembro de 2016, durante o período de transição do governo Paulo Garcia (PT) para Iris Rezende (MDB), não foi nada fácil para a classe artística. Pelo menos 50 profissionais das artes e técnicos que prestaram serviços para a Secult ficaram sem receber. Descontentes, grupos foram organizados nas redes sociais com o objetivo de protestar contra o calote promovido pela gestão municipal. Na ocasião, o artista plástico Ivanor Florêncio (então secretário de cultura) disse que a classe poderia procurá-lo a qualquer hora para discutir o problema do não pagamento.

 

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