• Marcus Vinícius Beck

Selo goiano lançou quase 30 discos no ano passado

Música

Monstro Discos fechou 2018 com 28 álbuns no catálogo. Foram em média dois títulos por mês

Surgido em 1998, quando a indústria fonográfica e a crítica musical estavam com os olhos voltados para o axé, o pagode e o sertanejo, o selo goiano Monstro Discos sempre teve um propósito bem claro: olhar para a cena roqueira brasileira independente de forma profissional e trabalhar com seriedade para que esse rolê fosse respeitado. Mas tal tarefa não foi exatamente fácil como parece. Em tempos onde o consumo de música vem mudando drasticamente e falatórios pra lá de antigos continuam pregando a morte do bom e velho rock and roll, a premissa de seguir lançando bandas alternativas, dos mais diversos estilos, linguagens e sons é foda.


O selo finalizou o ano de 2018 com a marca de 28 títulos lançados, sendo uma média de dois trabalhos divulgados por mês. Entre as novidades que agitaram o mercado fonográfico, e os fãs de rock em especial, estão CDs, singles e álbuns digitais, bem como compactos sete polegadas e até mesmo a reedição de clássicos do rock independente em vinil. Neste ano, o catálogo da Monstro chegou a estados como Pará, São Paulo, Pernambuco, Distrito Federal, Santa Catarina, Rio de Janeiro e, é óbvio, Goiás, local em que está concentrado a maior quantidade de lançamentos, uma vez que o selo está situado na Capital goianiense.


Integrante do movimento pernambucano Mangue Beat, responsável por agitar a produção cultural em Recife na década de 1990, a banda Mundo Livre S/A lançou o álbum A Dança dos Não Famosos (cuja capa é a foto da Greve Geral, de autoria do jornalista Luiz da Luz, que culminou na pancada de cassetete que deixou em coma por dias o estudante Ciências Sociais, Mateus Ferreira da Silva). Com letras que problematizam a realidade social do país, assinatura da grupo desde os primórdios, na década de 1980, os recifenses conseguiram manter com genialidade o tom crítico que os consagrou no bojo do mangue. Somando-se a isso, os riffs do guitarrista e vocalista Fred Zero Quatro, autor do manifesto Caranguejos com Cérebro, divulgado em 1992, contribuem para manter viva a essência do grupo.


No sudeste e no sul, regiões em que o selo goiano conseguir adentrar, a Monstro lançou o disco digital do Ladrão, grupo carioca que tem o baixista Formigão, integrante do grupo de rap rock noventista Planet Hemp, em sua formação. Já nas plataformas, como a saudosa Compact Disc (CD) e a atualíssima álbum digital que é circula principalmente nos serviços de streaming, o selo possui os catarinenses do Somma, nome de peso da cena roqueira de Joinville, cidade mais populosa de lá e onde o conservadorismo reina com tranquilidade, e a banda paulista Mustache & Os Apaches, com o disco Três, evidenciando as referências das jugbands, bandas acústicas em stricto sensu que recheavam o repertório da galera do blues, jazz, country e folk.


Pois é, já disseram que a capital goianiense era country e nosso destino irremediavelmente seria a música sertaneja. Ledo engano! Ora, iniciativas como as da Monstro Discos mostram que Goiânia possui uma cena roqueira efervescente - ou pelo menos já teve. Desde 2016, quando a própria Monstro lançou o DVD Goiânia Rock City, onde foram reunidas a galera que estava em alta no momento, passamos a ouvir nos bares e nas rodinhas durante os festivais alternativos que éramos “a cidade do rock alternativo” ou “Seattle brasileira”. Na real, nada disso aí é importante ou relevante. O que vale a pena ser discutido é o barulho e a riqueza encontrada aqui.


Série de ouro

Capa do disco A Dança dos Não Famosos. Disco foi lançado pelo selo goiano Monstro Discos. Foto: Divulgação


Já deixou de ser novidade essa onda promovida pelos serviços de streaming que ganharam o espaço e preferências das grandes gravadoras (muitas delas multinacionais, diga-se de passagem), mas o selo goiano Monstro Discos vem caminhando na contramão dessa tendência e, a partir disso, tenta explorar uma coisa que se torna objeto de desejo para hipsters e amantes da qualidade sonora em geral: sim, é óbvio que este escrevinhador refere-se ao cultuado disco de vinil. Mas, vamos e venhamos, não faz tanto sentido assim ficar discorrendo aqui sobre como os hábitos de consumos musicais mudaram. O que vale a pena destacar é que diversas bandas agora lançam seus discos novos e antigos apenas em formato de vinil e digital.


Assim, alguns discos lançados na década de 1990 e também da década passada, tidos hoje como obras-primas, perderam-se nesse limbo que foi a mudança promovida pelo Compact Disc (CD) e mergulharam no ostracismo na maioria das coleções e estantes usadas pelos aficionados para exibir grandes clássicos, sobretudo em função dos arranhões e capinhas de plástico que se quebram com facilidade. Aproveitando essa pegada, a Monstro resolveu reviver alguns clássicos que caíram no esquecimento, quando se dizer respeito a mídia física.


O primeiro lançamento da Série Ouro que chegou ao público neste ano foi o clássico A Sétima Efervescência, lançado originalmente em 1997, do músico gaúcho e extraterrestre Júpiter Maçã (1968-2015). Em seguida, depois do gigantesco sucesso gerado pelo relançamento da obra prima do cantor gaúcho, o selo anunciou que já abriu a pré-venda de Uma tarde na Fruteira, de 2007, outro clássico de Júpiter. Outro vinil famosíssimo lançado pela Monstro em 2018, foi um clássico do metal nacional, Ties oj Blood, do Korzus, que ganhou uma luxuosa versão, em LP, de 180 gramas e com capa gatefold.


De 2004, o disco é um dos trabalhos mais aclamados do Korzus e um dos álbuns que foram responsáveis pela consolidação do gênero thrash metal no Brasil - estilo que possui o peso do metal tradicional com melodias explícitas e velocidade extrema. Enérgico e bem executado do ponto de vista técnico, o álbum conta ainda com a participações especiais de peso, como Hélcio Aguirra (Harppia e Golpe de Estado), Andreas Kisser (Sepultura), João Gordo (Ratos de Porão) e André Matos (Shamanm, Angra), em uma participação curiosa na música Evil Sight, onde o cara até arriscou um vocal jamais visto em sua carreira.