• Lays Vieira

Há um século o autoritarismo nos tirava Rosa

Sociedade

100 anos do assassinato de Rosa Luxembugo


Na noite de 15 de janeiro de 1919, no hotel Eden, em Berlim, um soldado espanca Rosa Luxemburgo a pontapés; em seguida, outro militar, dá-lhe um tiro na nuca. Seu corpo foi jogado em um dos canais do rio Spree e encontrado apenas duas semanas depois, já quase irreconhecível. Foi assim que o governo do social-democrata Friedrich Ebert acabou com a vida de uma das mais importantes dirigentes e teóricas marxista da história, ex-militante do Partido Social-democrata da Alemanha (SPD), líder mais significativa da Liga Espartaquista e fundadora do Partido Comunista da Alemanha.


Rosa nasceu em 5 de março de 1871, em uma família judia emancipada na Polônia. Sua formação escolar inicial foi realizada em Varsóvia, onde também começa a participar do movimento operário polonês. Logo aos 18 anos, por conta de perseguições políticas, muda-se para a Suíça. Na capital, Genebra, conhece Leo Jogiches, com quem viverá um romance por 15 anos e uma parceria política que durará a vida toda. Ambos fundaram a Social-Democracia do Reino da Polônia e Lituânia (SDKPiL).


Entre 1889 e 1897, estudou Ciências Naturais, Matemática, Direito e Economia Política na Universidade de Zurique. Defendeu sua tese de doutorado, “O desenvolvimento industrial da Polônia”, aos 26 anos. De 1894 a 1896 também passa longos períodos em Paris, editando sozinha o Jornal Causa Operária. E, em 1898, vai para Berlim, entra para o Partido Social-Democrata Alemã (SPD) e se torna conhecida pelo seu texto “Reforma social ou revolução?”, se colocando contra as teses de Eduard Bernstein, conhecido político, teórico e membro do SPD. Diferente dela, que defendia uma transformação total da sociedade capitalista, ele entendia que era apenas necessário algumas mudanças e reformas.


Entre os anos de 1904 e 1914, ela é representante da SDKPiL no Bureau da Internacional Socialista (ISB), em Bruxelas. Logo no início de 1906, viaja ilegalmente com Jogiches, para Varsóvia, na intenção de tomar parte na Revolução Russa. Mas, acabam detidos e passam quatro meses na prisão. Retornando a Berlim, acusa arduamente a social-democracia de inércia, defendendo as greves de massa como a nova tática para promoção de uma efetiva transformação social. De 1907 a 1914, trabalha como professora e escreve, inicialmente, uma de suas grandes obras de economia política: “A acumulação do capital”. Posteriormente, em 1925, mas também sendo um reflexo dos anos em que leciona, temos a obra “Introdução a economia política”.


De 1915 a 1916, ficou presa, acusada de agitação antimilitarista. Nesse período escreveu “A crise da social-democracia”. Pouco tempo depois de liberada é presa novamente, sob a desculpa de “prisão preventiva” por participar de manifestações contra a guerra e da manifestação de Primeiro de Maio de 1916. Na prisão, escreve críticas aos bolcheviques. Liberada em novembro de 1918, bem no início da Revolução Alemã (que estoura logo depois que o exército alemão foi derrotado e humilhado na Primeira Guerra), se torna encarregada do jornal Bandeira Vermelha, onde escreve textos críticos contra o governo social-democrata de Ebert/Scheidemenn, acusando-os de sufocar o processo revolucionário em voga. Período também em que funda, junto com Karl Liebknecht (seu companheiro na época) o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Considerava imprescindível intensificar a ação de todos os partidos socialistas contra o militarismo. Para Rosa, se a guerra estourasse, seria obrigação da classe trabalhadora e dos representantes parlamentares, fazer de tudo para evitar os enfrentamentos violentos; caso os conflitos armados se multiplicassem, era sua obrigação intervir a fim de acabar com eles o mais rápido possível.


O assassinato dos dois principais dirigentes espartaquistas, Rosa e Liebknecht foi planejado, ainda em 1918 e executado de forma sistemática. A imprensa burguesa e socialdemocrata também ajudou na consolidação dessa situação, divulgando sem pudores várias incitações ao assassinato. Talvez em uma tentativa de encobrir a atuação do governo no crime.


Em 1918, no mesmo dia em que Rosa havia sido libertada, o socialdemocrata Scheidemann proclama a república alemã e Ebert ocupa a presidência, forma um Conselho de Ministros socialdemocratas moderados e pedem ao povo que deixem as ruas. A ala majoritária do SPD queria a república e as liberdades, enquanto os espartaquistas visavam à revolução proletária. Com isso, as duas facções, reformistas e revolucionários, terão diversos embates por vários locais de Berlim. O governo de Ebert organiza uma força militar e, em 13 de janeiro de 1919, foi sufocada a insurreição espartaquista. No dia 15, Rosa e Liebknecht (que, inclusive, foi o único parlamentar que em primeira instância votou no Parlamento contra os créditos de guerra para financiar a presença da Alemanha na Primeira Guerra Mundial) são assassinados.


Pequena na estrutura, grande na intelectualidade


Rosa Luxemburgo era uma grande defensora da liberdade, é em sua obra “A revolução Russa” que aparece um dos parágrafos mais conhecidos que a autora escreveu:


“Liberdade somente para os partidários do governo, somente para os membros de um partido – por mais numerosos que sejam -, não é liberdade. Liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de maneira diferente. Não por fanatismo da ‘justiça’, mas porque tudo quanto há de vivificante, de salutar, de purificador na liberdade política depende desse caráter essencial e deixa de ser eficaz quando a ‘liberdade’ se torna um privilégio”.


Mas, sua produção teórica vai muitíssimo além disso e permanece bastante atual. A época, tanto a esquerda social-democrata quanto a esquerda comunista (adversarias no interior do movimento), tinham uma relação conturbada com Rosa. Especialmente a primeira, muito por conta do seu caráter mais patriarcal e conservador. Além de talentosa jornalista, também escreveu textos sobre a emancipação das mulheres, o desemprego, o trabalho infantil, os conflitos internacionais, etc.


No Brasil, os primeiros escritos da revolucionária chegaram por meio de Mário Pedrosa e seu jornal Vanguarda Socialista. Expôs-se a polêmica entre Rosa e Lênin no que diz respeito a organização, onde a autora critica a concepção leninista de partido-vanguarda. Segundo ela, essa concepção implicava uma separação antidemocrática entre a vanguarda e a massa, o afastamento entre direção e base. Rosa Luxemburgo também trabalhou questões referentes a democracia, participação e controle popular, demonstrando que a esquerda precisava se reinventar.


Em texto publicado originalmente no Leipziger Volkszeitung, em 4 de maio de 1899, intitulado “Apenas uma vida humana!”, Rosa escreve:


“Quando o antigo escravo, pregado na cruz pelo dono, contorcia-se num sacrifício indescritível, quando o servo desabava sob o chicote do capataz ou sob o fardo do trabalho e da miséria, pelo menos se escancarava o crime de um ser humano contra outro, da sociedade contra o indivíduo – indivíduo este exposto, terrível em sua nudez, clamando aos céus em sua brutalidade. [...] Foi somente a sociedade burguesa que espalhou o véu da invisibilidade sobre seus crimes. Somente ela implodiu todos os laços entre os seres humanos e deixou cada um ao seu destino, à sua miséria e à sua ruína, para somente depois de tê-lo desumanizado – espiritual ou corporalmente, pelo assassinato ou pelo suicídio – lembrar-se dela. [...] Não nos dirigimos com uma calma letárgica ao trabalho e do trabalho para a cama? E intimamente não acreditamos – pois o cabelereiro nos conta impassível, com voz anasalada, do assalta à casa em frente, pois os bondes passam com regularidade mecânica pela rua, as árvores dão frutas e florescem nos parques como se tudo estivesse na mais bela ordem, a cada noite na ópera o espetáculo inicia calmamente -, ora, não acreditamos nós mesmos intimamente que a história ainda poderia continuar por algum tempo nesse ritmo, que na da excepcional aconteceria e que, em todo caso, nós ainda poderíamos terminar de beber a nossa caneca com toda a calma? E, ainda assim, a todo momento, em algum lugar perto de nós, cai uma vítima inocente, impotente, abandonada [...]”.