Cinema em tempos reacionários

January 19, 2019

Tiradentes

 

Discurso militante marca início de festival com críticas diretas ao novo governo. Exibição de média-metragem foi ovacionada pelo público

 

Show 'Cordas Gerais' com Nath Rodrigues na abertura da 22° edição da Mostra de Tiradentes. Foto: Leo Lara

 

Marcus Vinícius Beck

Enviado especial a Tiradentes (MG)     

 

Em tempos onde a extrema-direita ocupa espaços de poder e paira uma dúvida em relação à produção cultural, a Mostra de Cinema de Tiradentes bate na tecla que as manifestações artísticas são necessárias para elucidar esse momento histórico. Apesar de a Mostra discutir tendências do audiovisual brasileiro, o primeiro dia de festival teve como destaque o discurso militante durante a exibição do média-metragem Vaga Carne, dirigido por Grace Passô e Ricardo Alves Júnior, monólogo essencialmente sartreano, existencial e político.

 

A pré-estreia mundial do média foi precedida pela performance cheia de referências críticas ao fascismo, à militarização da sociedade, ao discurso anti-cultura e intelectualidade comandada pela atriz mineira Grazi Medrado e pelo artista cênico Chico de Paula. A apresentação dialogou com a temática deste ano, Corpos Adiante, e provocou múltiplas sensações no público em combinações entre expressões cênicas e música, mostrando uma espécie de ‘narrativa dramatúrgica’ que serviu de paralelo acerca da atual situação política e social.

 

Isso tudo foi saboroso porque, com a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto no último dia 1 º, não vimos nenhuma política pública que contemple a cultura – pelo contrário, pois o ultradireitista em decreto publicado no Diário Oficial selou a extinção do Ministério da Cultura, algo que nunca aconteceu na democracia brasileira. Então a oportunidade de perambular pelas ruas tricentenárias de Tiradentes atrás de discussões sobre questões identitárias, políticas e estéticas é foda. Certamente são agitações sócio-culturais que não encontramos com facilidade.

 

Desta forma, a homenageada destilou na última sexta-feira (18) de maneira brilhante toda sua fúria artística contra o machismo e o racismo - basta assistir os primeiros 5 minutos do longa Temporada (2018) para tudo isso aqui fazer sentido. Ser contrário a tudo aquilo que a ultradireita representa é um ato de coragem, e Passô não tem medo de dizer a que veio, muito menos de incomodar conservadores raivosos. “A vida pede mais cinema, pede passagem para quem quer colocar a cultura como centro”, sentenciou a diretora e atriz Grace Passô, homenageada na cerimônia de abertura da 22° edição.  

 

“É impossível celebrar sem compartilhar com alguém esse momento. Assistimos um levantamento de práticas que denotam machismo e evidenciam o conservadorismo”, disse Grace, fazendo uma breve pausa. A dramaturga afirmou que a função da arte “é ampliar a percepção de mundo” das pessoas e atrai-las para assuntos fundamentais para a sociedade. “A potência da nossa existência é muito grande. Por isso, há necessidade de governos se responsabilizarem por uma arte que é um chão existencial”, finaliza a diretora, arrancando aplausos do público.

 

Grito e vaias

 

Não foi necessário mais do que cinco minutos sentado nas cadeiras da plateia do Sesc-Lounge para que começássemos a sentir qual seria a tônica da Mostra de Cinema de Tiradentes. “É difícil imaginar a vida sem cultura, sem cinema. A vida pede mais cinema, mais coragem, mais diversão, mais arte”, discursou a curadora e excelência em cinema Raquel Hallak, da Universo Produção, organizadora da Mostra.

 

Mas um dos momentos mais emblemáticos foi quando o secretário de cultura de Minas Gerais, vice-governador Paulo Brant (NOVO) na chapa encabeçada por Romeu Zema (NOVO), foi vaiado após elogiar a iniciativa da Universo de realizar a Mostra. Ao reverenciar a importância do cinema para a sociedade mineira e brasileira, imediatamente o público começou a gritar “Lula, livre” e “EleNão”. A atriz e diretora Grace Passô aproveitou a solenidade para endossar os pedidos de soltura do ex-presidente.

 

A Mostra de Cinema de Tiradentes cumpre sua função democrática de acesso à arte e movimenta uma das cidades mais antigas do Brasil. Porém resta saber como serão os desafios enfrentados pelos organizadores daqui para frente. Não serão anos favoráveis à cultura, tampouco ao fomento às artes por meio de leis de incentivo que podem servir como ponto estratégico para a economia brasileira.

 

Aguardemos que nos espera nos próximos anos, mas já posso adiantar que não será fácil. Como diz senhor Kurtz, personagem do romance Coração nas Trevas (1899), do escritor suíço Joseph Conrad (1857-1924): “O horror! O horror”.

 

Longa-metragem "MOSTRA PRAÇA". Direção: Direção: Thiago Gomes e Lázaro Ramos. Foto: DINEY ARAUJO

 

 

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