A velha, a antropóloga e o tempo

January 23, 2019

Literatura

 

* No Jornal Metamorfose normalmente eu fico responsável por pautas sobre sociedade, meio ambiente e política. Mas, nem só de teorias e dados vive uma mulher da ciência. As artes são um fator fundamental na vida humana e em sociedade. Então, porque não se arriscar na literatura, por exemplo, de vez em quando?!

 

Foto: Leo Lara

 

É engraçado como o tempo nos afeta. Essa criação humana que marca nossas experiências dia após dia, mês após mês, ano após ano. Muda-se o corpo, o cabelo, as roupas, os pensamentos...e muda como lidamos com as nossas relações. É como diz aquele rap “eu sou o resultado das pessoas que amei”. Se você olhar em retrospectiva vai perceber como o tempo te mudou e como isso fez mudar o que faz você se apaixonar por alguém, uma causa ou alguma coisa. A cada segundo alguém pelo mundo se apaixona, pelos mais variados motivos: padrões de beleza, dinheiro, status, fuga da rotina, segurança, alegria, luta, sexo, drogas, inteligência... As mais variadas paixões. Paixões efêmeras, duradouras, rasas, intensas, permitidas, proibidas, saudáveis, toxicas, alegres, tristes, difíceis, fáceis... mas, de certa forma, todas nos afetam, nos mudam e nos compõem daquele instante em diante.

 

Maria já tinha passado por muitas dessas coisas. Mais velha, metódica, séria (com alguns lapsos de porra louca), sempre focada e decidida sobre as coisas. As vezes parecia que ela não conseguia relaxar um instante. Por trás de um sorriso bonito, caos, profundidade e um medo absurdo de se deixar levar e, de repente, tudo mudar sem explicação. Maria não era adepta a filosofia do 8 ou 80, não era segura quanto a improvisos. Escolheu a superficialidade dos relacionamentos porque as pessoas parecem não saber mais conversar. As experiências que o tempo trouxe lhe fez assim.

 

Apenas mais um dia normal e chato na faculdade, ela pensou. Que engano! Quando seus olhos viram Margarete, uma curiosidade tomou conta de si. Alguém novo para quebrar a rotina. Foi investigar, puxar assunto. Gostei, ela pensou. Como de praxe, convidou Margarete para um bar. Não deu certo. Maria tinha aprendido que insistir demais é perda de tempo. “Se na terceira vez ela recusar ou não der certo eu desisto dessa caloura”, ela se prometeu.

 

Mas, Maria estava entrando em um beco sem saída, mal sabia ela. O encontro acabou dando certo. Antropóloga, feminista, amante da música e do cinema nacional, vegetariana, divertida, um pouco mandona, independente, com muito juízo para alguém na casa dos 20, discutia conjuntura política e é de um seleto grupo que os adeptos da metafísica conhecida como astrologia costumam criticar bastante. Margarete fazia Maria questionar várias das concepções que ela havia formado nos últimos tempos. “Questionar é bom!”, ela sabia. Aquilo instigava e inspirava Maria. Margarete a levou para almoçar em restaurantes desconhecidos e para assistir filmes dos quais Maria já não colocava mais nenhuma fé. Margarete não achava chato ir em exposições, nem ficar horas engolindo poeira de vinis velhos. Por outro lado, ela também não dispensava uma boa festa na cena noturna. Dançar, beber, fumar. Linda e louca!

 

Maria tinha receio. Era um pisar em ovos. E ela sabia que para Margarete também era assim. Somos seres humanos afinal, a imperfeição é um pressuposto. Ninguém queria cometer os mesmos erros e ninguém queria colocar a carroça na frente dos bois. Há muitos fatores externos. Há muita coisa que precisa ser desconstruída a onde já se pensa ser. Isso deixava Maria um pouco angustiada, sem saber o que fazer. “Dê tempo ao tempo”, uma amiga lhe disse. Maria lembrou-se do tempo, lembrou-se que adorava o fato de Margarete e ela serem diferentes, lembrou-se do como Margarete a surpreendia constantemente, lembrou-se de como ela se sentia segura e confortável para falar sobre os seus medos e de como Margarete sempre lhe dizia que tudo ia dar certo, lembrou-se dos incentivos, das risadas e de como as duas falavam besteiras absurdas feito duas retardadas. Maria queria que só por uma vez Margarete pudesse se ver pelos seus olhos, se ver como Maria a via. Incrível.

 

E assim, meio do nada, Maria entendeu o sentido daquele velho ditado. Ela não sabia muito bem o que ia acontecer, se daria certo ou errado, se duraria um dia, um mês ou um ano. Não queria status, expectativas ou pressão. O que Maria sabia é que aquilo tudo já a tinha mudado. Maria já era algo diferente, algo melhor. Menos julgamentos e mais compreensão, respeito e liberdade. E, talvez, com Margarete também fosse assim. Afinal, Margarete viva repetindo uma frase que Maria adorava “A gente é um equilíbrio”. Então, Maria concluiu: “é, deixa o tempo rolar e ver no que dá”. Afinal, o que nos marca, nos forma e nos transforma são esses pequenos momentos.

 

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