Instigante e sedutor

January 25, 2019

Crítica/ cinema

 

Longa-metragem goiano é um dos filmes cotados para ganhar troféu Barroco na Mostra Aurora

 

Cena do filme Vermelha.

 

Marcus Vinícius Beck

Enviado especial a Tiradentes (MG)

 

No apagar das luzes da Mostra de Cinema de Tiradentes, o público riu e gargalhou durante a exibição do melhor filme até agora do festival. Com humor difícil de traduzir em alguns aspectos, o sedutor longa-metragem Vermelha, do diretor goiano Getúlio Ribeiro, foi mais instigante do qualquer outra obra exibida na Mostra Aurora e possivelmente será um dos longas a sair-se vencedor da histórica cidade mineira.

 

Mesmo que o filme goiano não seja laureado, os olhos dos cinéfilos vão se perder nas produções de nossa terra. Claro que nós conhecemos o potencial das obras que são feitas em Goiás, mas o público em geral ainda insiste em consumir filmes de diretores famosos e com bastante bagagem nas costas - e grana, também, é óbvio. Portanto, creio que seja importante lembrar o papel que Mostra de Tiradentes tem ao jogar luz sobre o cinema brazuca, mostrando-nos que o novo é necessário mais do que nunca.

 

Não restam dúvidas que o título de melhor longa ao Vermelha seria um bem-vindo oxigênio à sétima arte. O filme é o mais improvável longa brasileiro dos últimos anos - e isso, jamais, vai lhe tirar o mérito intelectual. Apesar de todos esses elogios, críticos e estudantes de cinema, ao perambular pela madrugada da histórica cidade mineira, inventavam de tecer críticas ao filme de Getúlio.

 

O que era falado entre essa galera não fugia do mais do mesmo: ‘ah, tive dificuldade em compreender tal cena, o humor é muito ruim’. Bem, devo dizer que não dou a mínima para esses chavões universitários irritantemente cult. O que importa é que Vermelha tem uma estética prazerosa, e minha cabeça não consegue me informar nenhum outro filme que mexeu tanto com o público nos últimos dias como essa obra de arte goiana.

 

Também destaco que o humor de Getúlio e dos atores na obra derivam da causalidade dos assuntos que estão em primeiro plano para os personagens. Todo o filme se passa numa casa na região sudoeste da capital goianiense com o sabor humorístico de Gaúcho (Osvaldo Marques), pai do diretor, a irmã Débora Marques, a mãe Maria Divina, e o melhor amigo do pai, Beto Mecânico. E não menos importante, é claro, a cachorra da família, Vermelha.

 

É justamente aí que está a grande beleza do filme. Getúlio retrata como ninguém a beleza de sua família em suas produções de curta-metragens, o que fez com que ele se tornasse conhecido na cena cinematográfica da capital. Outra coisa é a originalidade do filme. É um exercício em vão tentar achar alguma brecha na cinemateca mundial para encaixá-lo num rótulo. Para situar o leitor em meio a estas palavras, Vermelha é a história de uma simpática e humilde família de Goiânia.

 

Além de tudo, o longa cria logo nos primeiros minutos um vínculo entre o diretor e o público, e essa identificação gera de cara um interesse por tudo o que vemos na telona - para você ter uma ideia, isso rolou em plena madrugada quando cinéfilos de diversas partes do Brasil vieram conversar com Getúlio sobre suas escolhas estéticas. Tudo o que não podemos aceitar é descrever o filme como uma família feliz ao estilo ‘propaganda de margarina’

 

Sem mais: Vermelho é um filme bonito, engraçado e esteticamente inquietante. E isso basta.

 

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