“Sinto falta de filmes mais misteriosos”, diz diretor goiano

January 26, 2019

Entrevista

 

Na segunda entrevista da série, cineastas comentam influência para fazer filme de horror e falam sobre produção audiovisual, em Goiás

Cena do curta-metragem Guará.

 

Marcus Vinícius Beck

Enviado especial a Tiradentes (MG)

 

Os diretores de cinema Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista, sentados no gramado ao fundo do Centro Cultural Yves Alves, conversaram comigo sobre a estética de horror adotada no curta-metragem Guará, exibido no Cine-Praça, em Tiradentes, na última terça-feira (22). Na conversa, os cineastas falaram sobre a opção por adotar mecanismo de linguagem sutil para fazer críticas sociais em detrimento à tendência verborrágica frontal, tanto dos curtas quanto dos longas, apresentados na Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Ambientado na região central da capital goianiense, o filme tem como personagem principal um lobisomem que sai assustando os moradores pela região. Os realizadores, ao serem interpelados por mim acerca da suposta metáfora que a estátua do Anhanguera carregaria, foram taxativos: a sétima arte precisa de filmes mais misteriosos e não obras que tenham a pretensão de querer consertar o mundo. Também conversamos sobre a cena audiovisual de Goiânia e as influências que eles tiveram para fazer filme de horror.

 

Confira a segunda entrevista da série do Jornal Metamorfose com os diretores goianos que estão com filme na Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Jornal Metamorfose - O filme conta com uma pegada forte de humor e faz disso uma crítica sutil. Por que essa escolha estética?

 

Luciano - Eu acho que a presença do humor vem muito da própria natureza de um filme desse tipo, de horror e baixo orçamento.  A gente percebeu que nesses primeiros testes de maquiagem que o lobo na hora que ia aparecer tinha um ar meio cômico, porque já revelava de cara que era um homem com uma roupa de lobisomem. É igual os filmes que a gente tinha de referência fazem. São reais, não chegam pra você como uma farsa. E no nosso percebemos que não seria assim, que ele teria esse tom cômico.

 

Fabrício - Existe uma brincadeira no gênero de horror de esconder o monstro, mas a partir do momento em que ele tivesse de fato na tela sempre ficaria claro que a fantasia é sempre uma fantasia. Então a estética tem essa coisa de ir um pouco ao lado do horror, mas também deixa claro que em alguma medida o cinema é uma brincadeira. Acho que por isso que entra esse lance do humor.

 

Fabrício Cordeiro diz que foi influenciado pelo filme Alien e O Lobisomem Americano em Londres. Foto: Bárbara Zaiden

 

Jornal Metamorfose - Então, poderíamos definir o monstro como uma metáfora?

 

Fabrício - Acho que tem abertura pra isso, mas não sei se a gente pensou exatamente assim.

 

Luciano - Acho que não, acho que não.

 

Fabrício - A gente sempre foi pensando em fazer um filme de gênero e trazer sutilmente o lado político. Nunca tivemos intenção de ser frontal nesse sentido, nem didático. O cinema brasileiro está assim, e eu particularmente acho chato.

 

Jornal Metamorfose - Os filmes da Mostra também estão assim, né?

 

Fabrício - Sim, os filmes da Mostra de Tiradentes são dessa forma. Nos interessava trazer essa estátua da Anhanguera como uma relação da própria violência que tá no filme.

 

Luciano - Eu acho que esse lance que você fala de metáfora… assim, o filme traz muito símbolo. O Lobo-Guará é um símbolo do Cerrado. A gente tem o Bandeirante, temos a polícia, as próprias ruas de Goiânia. Acho que o lance político vem dessas coisas, e isso vai gerando percepções. Sempre tivemos cuidado pra preservar essa ambiguidade. Tipo, será que esse lobisomem se encaixa num espectro direita-esquerda? O cinema me interessa por conta do mistério que vai evaporando dali.

 

Jornal Metamorfose - Quais foram as influências para fazer Guará?

 

Fabrício - A gente conversou muito sobre isso. Pra cada coisa que a gente queria alcançar no filme pensamos em algum outro. Nas partes em que queríamos esconder e revelar algo, pensamos em Alien. O filme O Lobisomem Americano em Londres sempre vai ser uma referência, mas era uma referência inalcançável. É um filmaço, o melhor filme de lobisomem já feito, que se sustenta completamente na tela. Sempre vai parecer real dentro da fantasia, o que não era o nosso caso. Queríamos um lobisomem sujo, que se sujasse com o próprio sangue.

 

Luciano - Tem um jogo também que se chama Street of Rage 2. É um jogo de 1991, que é uma grande referência, porque mostra uma cena urbana com bastante violência, de criminalidade, é bem colorido, tem uma trilha legal. É um jogo de porrada na rua, com criminalidade urbana pesada, cheia de faca, sangue, paulada e ele é bem coloridão. Você fica naquela… é uma violência ao mesmo tempo horrível e ao mesmo tempo muito doida.

 

Fabrício - Você se diverte por esfaquear a galera geral na cidade (risos).

 

Luciano - A gente sempre gostou do jogo, mas não interessa pra gente chegar nesse nível de caricatura, de quase que uma animação. Porém achamos interessante trazer um pouco desse elemento de violência noturna.

 

Jornal Metamorfose - Um das coisas que eu mais gostei, que mais me chamou a atenção, foi a música do cantor Zezé di Camargo no final. Por que colocá-la no filme?

 

Fabrício - Pelo menos de minha parte creio que a gente trouxe mais um elemento de nossa originalidade, de nossa cultura. O final era exatamente deixar o filme com um tom mais leve. Mas também tem um lance de assumir essa cultura goiana, que o Luciano pode falar melhor.

 

Luciano - Tem uma coisa da própria montagem do filme, que é essa imagem do personagem sobre o Bandeirante. É uma grande imagem, com bastante poder. E no momento que encerra o filme, é como se ela o fechasse um clima de catarse, de vitória daquele lobo. Quando o filme encerra sem som, sem música, trouxe um ar soturno, porque é um monumento que a gente tá filmando, e a gente não achava massa. Então, um primeiro momento, a música vem para ridicularizar um pouco, trazendo esse humor, essa brincadeira. Uma outra coisa que é importante frisar é que essa música é um modão, que conta história. A música sertaneja tem muito disso.

 

Jornal Metamorfose - O caminho hoje é fazer filme com críticas mais sutis, o que vocês pensam sobre isso?  

 

Fabrício - Não sei se é o caminho, ou se tem um caminho. Eu acredito na liberdade pra todo mundo fazer o que quiser. Particularmente fazer críticas indiretas é o caminho que mais me interessa. Acho que estamos num tempo em que todo mundo tem certezas de mais e dúvidas de menos. Muita gente veio perguntar pra mim sobre aquela estátua, pra eu explicar o que era aquilo… acho que isso é mais importante. Sinto falta de filmes mais misteriosos. O mistério no cinema é algo que sempre me seduziu, e eu sinto que a gente tá se perdendo muito, com filmes querendo corrigir o mundo demais. E isso eu acredito que o cinema não é capaz de fazer isso.

 

Luciano - É da própria ambiguidade do cinema, cada vez menos filmes trazem isso. É uma certeza de fechar o mundo e corrigi-lo dentro de um filme. Isso nunca me interessou, e é até um pouco ingênuo. É muito fácil pra gente dentro do filme destruir o Bandeirantes, apagar essa imagem. Mas, ao mesmo tempo, o que é isso? Tipo, o que significa apagar essa imagem do Bandeirantes. Dentro de uma visão de mundo simplista, apagar a imagem do Bandeirantes se revela uma bobagem, uma mentira. A estátua tem muitos significados, muita história, bem antes de nós, de certo modo está pra sempre na cidade.

 

Jornal Metamorfose - É comum mesmo as pessoas vierem te perguntar sobre os Bandeirantes e aí você entra em outra discussão, que de fato não cabe num curta.

 

Fabrício - Exatamente. Mas essas palavras que você falou não cabem mesmo num filme, muito menos num curta. Tipo, pra isso tem livros de histórias, tem… o interessante é isso mesmo… as explicações já estão de uma outra forma, tipo pra que fazer um filme se já temos um meio de estudar a história? Acho que o cinema tem poder muito grande de trazer isso para outro campo, de trazer outros significados. São coisas que precisam ser conversadas. Os filmes são feitos pra que a gente converse sobre ele. A partir do momento em que está tudo resolvido, não tem tempo pra se conversar.

 

Jornal Metamorfose - Como vocês enxergam a produção audiovisual feita em Goiás hoje?

 

Luciano - Acho que é uma produção muito foda, que tá no melhor momento.

 

Fabrício - Os longas estão saindo e longas interessantes. Gosto do longa da Fabi (Fabiana Assis, Parque Oeste), que vai passar amanhã (ontem), do Getúlio, que pelos curtas faz um trampo massa. É  um cineastas que se distinguem, que faz coisas diferentes. Acho que nunca se fez tanto filme em Goiás e isso é muito bom. Mas, até pelo número que tem e sempre terá, e é preciso que se fale também sobre alguns desses filmes, que são muito ruins.

 

Luciano - Eu gosto, porque eu vejo uma regionalidade de fora do eixo. É um Estado que tá muito à margem da narrativa do Brasil. As imagens que a gente consome em Goiás são desses lugares. Se a gente parar pra pensar em quem produz as imagens que consumimos lá é só a TV Anhanguera, que tem mesmo uma relevância pras pessoas. E os filmes trazem muita que me interessante muito, que é um lugar que não tem tanta história no cinema.

 

 

 

 

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