• Marcus Vinícius Beck

Cinema é memória e resistência

Mostra de Tiradentes

Curta acompanha vida de estudante secundarista que militou contra as O´s

Mariana Vaz em cena do curta-metragem Além dos Muros. Foto: Frame do filme


Marcus Vinícius Beck

Enviado especial a Tiradentes (MG)


Além dos muros, curta-metragem com roteiro e direção de Robney Bruno Almeida, foi exibido e aplaudido neste sábado (26) na Mostra Jovem. O filme conta a história da então estudante secundarista Marina Vaz, que fez parte do Movimento dos Secundaristas em Luta de Goiás. Os ‘secundas’ ficaram famosos por atuar contra o desmonte do ensino público com a implantação das Organizações Sociais (O´S), parceria público-privada que serve até hoje como cabide de emprego para amigos de poderosos.


Após a tentativa de precarização do ensino público, os estudantes ocuparam diversas escolas em inúmeras cidades de Goiás com o objetivo de protestar contra a medida anunciada pelo governo de Marconi Perillo (PSDB). Com histórico de reprimir qualquer tipo de manifestação popular, vide os recentes episódios de encarceramento de universitários e secundaristas no bojo das manifestações de 2013, a tônica do curta é mostrar exatamente a repressão imposta por essa dinastia que governou Goiás por duas décadas, e sucedeu ao poder o democrata Ronaldo Caiado.


Na telona, a câmera de Robney Bruno Almeida não interfere na forma como Mariana Vaz conta a história de repressão do Estado aos movimentos sociais. Um exemplo disso é que Robney entra na casa de Vaz e a acompanha em discussões com sua mãe sobre militância. Logo depois, vem uma sequência de imagens dos policiais tentando ‘negociar’ com os ativistas na porta de um colégio no Setor Central.


Cinema, conforme as palavras do diretor de fotografia Larry Machado, “é memória” e é preciso mantê-la viva, pois quem não a tem está condenado a repetir as mazelas do passado. “Esse filme é uma homenagem ao camarada Guilherme Irish, que foi brutalmente assassinado na esquina de casa pelo próprio pai”, lembrou Vaz, no discurso antes de exibição do filme. “Dentro de casa encontrei alguns problemas, minha mãe chegou a me dizer que, caso eu fosse presa pela pm e ela visse, ela ia aplaudir”.


Em 2016, escolas e universidades públicas foram ocupadas por estudantes (cujo movimento foi puxado por secundaristas) para protestar contra os desmandos do ex-governador tucano. Como não poderia deixar de ser, houve repressão e ameaças diretas a quem estava participando desses atos, mas nada melhor do que a expressão artística para tornar-se tal acontecimento histórico.


Além dos muros, narrado com estrutura simples, é isto: um filme que mostra que o cinema é, antes de tudo e sobretudo, resistência.