• Júlia Lee

“Eu evitei ver a aula dele, perdi muito conteúdo”, diz aluna que sofreu assédio por professor

Assédio

Alunas em Goiânia protestam contra o assédio em frente ao colégio Protágoras na tarde de quarta-feira (13)

Meninas protestam contra assédio na porta do colégio Protágoras, em Goiânia. Fotos: Giovanna Santana

Ao sair da escola, Joana (nome fictício) se deparou com diversas meninas com cartazes contra o assédio de professores: era um protesto que acontecia por volta do meio dia na porta do colégio Protágoras, escola de ensino médio particular localizado em um bairro nobre de Goiânia.


Joana lembrou da amiga que expôs um assédio em sua conta do Instagram durante as férias. Ela havia comentado sobre o protesto, porém estava com medo de ir, pois segundo a colega o caso foi parar na diretoria no primeiro dia de volta às aulas. De acordo com Ana (nome fictício), “todo mundo do colégio viu a postagem, o coordenador me chamou e me disse que o que eu tinha feito era ‘muito feio’, sendo que eu não coloquei o nome do professor”.


Ana relatou que seu professor de história a empurrou contra a parede no corredor da escola e disse para ela “ir vestir uma roupa”, ela vestia uma calça legging branca. A aluna ficou durante dois anos do curso evitando ver as aulas do professor, pois não se sentia confortável com a situação. O caso, levado para diretoria do Protágoras, foi abafado e nada aconteceu.


Protestos


Protesto aconteceu na tarde de quarta-feira. Fotos: Giovanna Santana


O movimento começou quando o colégio WR, outra escola particular da área nobre de Goiânia, publicou uma foto no dia Internacional das Mulheres (8 de março, que foi marcado por intensos protestos feministas pelo mundo) e alunas comentaram a “hipocrisia” da instituição tendo um diretor preconceituoso e misógino, além de diversos casos de assédio na instituição.


Em menos de 2 horas, posts de parabéns pelo dia da mulher de outros colégios começaram a ter comentários semelhantes, e ao meio disso o caso de Ana viralizou entre as alunas do Protágoras, que se organizaram para protestar na frente da escola nesta quarta-feira (13).


Segundo as alunas, os professores são denominados como homens que defendem pautas "progressistas" dentro de sala de aula. “Há muito tempo os professores vêm sendo invasivos e inconvenientes com alunas. Volta e meia mandam mensagem no whatsapp, instagram etc e piora mais ainda quando fazem esses comentários durante a sala de aula na frente de todo mundo”, conta Joana.



Protágoras posta em sua página do Instagram post sobre o dia das mulheres e recebe denúncias e críticas de alunos e ex alunos.


Machismo


A Câmara dos Deputados aprovou na última terça-feira (12) projeto de lei que qualifica a prática de assédio como crime, tendo pena de um a 2 anos de reclusão e podendo aumentar em 1/3 se a vítima for menor de idade. Segundo a pesquisa divulgada pelo Datafolha no dia 8 de março, cerca de 40% das mulheres acima de 16 anos já sofreram algum tipo de assédio.


A advogada feminista Marcela Fernandes, explica que "o crime de assédio sexual é uma espécie de coerção de caráter sexual praticada, quando o agente prevalece de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função (artigo 216-A CPP), normalmente em local de trabalho ou ambiente acadêmico. O assédio sexual é caracterizado por ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra a vítima. Entretanto, apesar da tipificação penal, o crime de assédio sexual é subdimensionado no país. A sociedade machista silencia mulheres e “protege” assediadores. Entretanto, crimes contra a dignidade sexual tendem a não ser tão reportados, por diversos fatores, como o medo, a vergonha e intimidação do agressor".


O patriarcado enraizado dentro da sociedade reverbera em diversas situações, tendo em vista que o Brasil é o país mais perigoso do mundo para ser mulher, e casos como os professores que assediam as alunas não é levado a sério, o que provoca um looping de casos semelhantes em anos diferentes, normalmente com o mesmo professor. Segundo a socióloga e cientista política Lays Vieira, um dos problemas do assédio é a culpabilização da vítima, onde a sociedade inibe a perspectiva de denúncia por relativizar o crime.


"É um discurso que foi construído socialmente, o de culpar a vítima, existem vários relatos onde a sociedade relativiza o assédio, é a noção preconceituosa de que a mulher é histérica, emotiva e sempre está 'exagerando'. Você inverte a questão, com crenças como 'a mulher foi estuprada porque estava com a roupa X', sendo isso uma perspectiva machista em uma sociedade que privilegia os homens e que inculta na educação que a mulher está lá para servir o homem, seja como objeto sexual ou como empregada doméstica e assim sucessivamente", explica a cientista política Lays Vieira em entrevista para o Jornal Metamorfose.


Bruna (nome fictício), 16 anos e aluna do colégio Protágoras, se sente entusiasmada com os protestos, pois “esperamos que ele sirva de motivação para que outras meninas de outros colégios façam o mesmo. Que finalmente haja visibilidade pra um problema que por muitos é visto como normal, esperamos que finalmente tomem providências, que deem o devido apoio que as meninas precisam em situações como essas. Assédio é crime, nós não estamos numa vitrine e merecemos respeito”.


O Jornal Metamorfose entrou em contato com as instituições de ensino privadas citadas nesta reportagem, mas até a publicação não obteve resposta.