Medo e delírio em Tiradentes - parte 2

April 1, 2019

Cobertura especial

 

Confira a segunda parte da matéria sobre os dias de embriaguez, cinema e política. Fiquei oito dias na cidade de Tiradentes, cobrindo o Festival de Cinema

 

 

Tiradentes é uma cidade charmosa, mas o preço das coisas ultrapassa a linha do tolerável para um jornalista quebrado que passa dificuldades financeiras com o objetivo de aceitar o glamour honesto oriundo da escrita. Beber uma cerveja nessas situações era uma tarefa que requeria certa habilidade, além de ser totalmente indispensável para que conseguíssemos suportar os sórdidos sentimentos provocados pelos primeiros dias de extrema-direita no poder. Ora, quem em sã consciência iria ao histórico município mineiro e, numa circunstâncias dessas, permaneceria sóbrio?

 

Boa pergunta. Tenho certeza de que nem o mais desalmado dos homens teria estômago para aguentar tamanho recesso etílico, embora eu tivesse de conviver com quem evitava o primeiro trago e buscava manter as aparências com as pessoas importantes. Como éramos um bando de gente quebrada sem um puto centavo no bolso, criamos estratégias mirabolantes para molhar a palavra antes, durante e depois a cobertura dos filmes que eram exibidos nas mostras. Porque a percepção do jornalista e do crítico de cinema ficam mais aguçadas com uma birita e, assim, o debate torna-se mais intelectualizado.

 

Então, tínhamos apenas uma saída: embriagar-se no lounge que era destinado aos profissionais da imprensa e aos organizadores do festival. Sim, a porra da bebida era na faixa para nós e, como você deve imaginar, não estava em meus planos ficar oito dias sentado no quarto conversando com um jornalista paulistano cuja maior habilidade comunicacional era debochar da marginalidade literária. O único problema era que a galera dos veículos de comunicação de renome ficavam no hall depois da última sessão, e eles eram um pouco chatos e deprimentes.

 

Bem, fazia um calor de lascar em Tiradentes, e eu não tinha a intenção de trabalhar derretendo no sol sem me hidratar (nesses dias não tínhamos um horário certo para trampar, então não era incomum nos encontrar fazendo entrevistas de madrugada). Logo no primeiro dia Wagner teve uma ideia genial, mas um pouco perigosa. Na cabeça dele, o mais sensato era chegarmos no balcão do bar que era destinado aos produtores e pedir para anotar cervejas com nossos nomes - falsos, é claro, pois ninguém seria louco o bastante para fazer merda na cara dura. Acontece que não era exatamente difícil descobrir que éramos uns jornalistas, críticos e cineastas fodidos.

 

Dilema

 

Calma, Beck. Você só precisa manter a postura, falar com a voz firme, sem gaguejar. Vai dar tudo certo, mas é preciso manter a tranquilidade para executar essa conversa, sem demonstrar insegurança e sem levantar suspeitas no cara do bar. Caralho, as experiências pelas quais passou na vida são um pouco piores do que essa, não?

 

Nem preciso dizer que você quase foi preso algumas vezes durante a chamada Primavera Estudantil. Andava com diversos codinomes e quando se via em perigo não pensava duas vezes para usá-los - até escreveu um livro sobre isso, não? Mas, agora, fica com essa aí: ah, posso me foder e queimar o filme com o pessoal que organiza o festival. Puta que pariu. Quando começou a se preocupar com esse tipo de bosta?  

 

Após cessar o breve diálogo com meu rebelde subconsciente, aproximei-me do bar.

 

“Boa, noite”, falei. “Me veja seis latinhas de cerveja, por obséquio”.

 

“É produtor do evento?”, indagou o bar-man.

 

“Hein?”, perguntei, com os olhos vidrados na moça que estava ao lado dele - aliás, uma verdadeira deusa, de pele branquinha, cabelos lisos que escorriam pelas costas e piercing no nariz.

 

“Perguntei se você faz parte da equipe que tá organizando o evento?”, reforçou.

 

“Ah, sim”, respondi, sorrindo. “Faço parte, sim. Eu e meu amigo que estááááááááá…. vamos ver….. estáááááá…. aqui, aqui está o filha da puta”, falei, sorrindo.

 

Sem perder o controle, Vagner se inteirou da situação e fez o mesmo pedido, evitando com que minha imagem fosse ainda mais denegrida naquela estabelecimento.

 

“O senhor também é da organização?”, questionou.

 

“Sim, sim”, respondeu meu camarada.

 

“Ótimo, então preciso que assinem aqui”, disse o cara, abrindo a caderneta onde deveria constar o nome de todos os produtores do festival.

 

“Claro”, falei, cordialmente.

 

Ilustrações: Heitor Vilela/ Rabiscos e Escarros. 

 

 

Puta merda. Ainda bem que esse impasse todo acabou, pois eu estava próximo a entrar em colapso nervoso bem na frente do sujeito e da loirinha linda que estava com ele. Sorte que nada de estranho demais aconteceu, porque nem eu saberia explicar para o médico da unidade de saúde de Tiradentes o que teria provocado tal reação em meu organismo.

 

Imagine que bosta: “JORNALISTA DESMAIA NO PRIMEIRO DIA DE FESTIVAL”.

 

Poderia ser a manchete de algum jornal sensacionalista mineiro.

 

Foda-se. Abri minha cerveja e sugeri que ficássemos o mais longe possível do bar. Meu pedido foi prontamente atendido, com unanimidade. Estávamos com Natália, jornalista paulistana adepta da era digital e proprietária um simpático site de cultura pop. Curiosa, ela perguntava como era trampar num jornal impresso e tocar um jornal independente cuja linha editorial era a liberdade acima de tudo, além de querer saber se tínhamos realmente o hábito de ouvir música sertaneja em Goiás.

 

Nesses dias de embriaguez, cinema e política o ar era leve. Não havia motivo para se preocupar, tampouco se ver envolto em problemas. Acontece que eventualmente estamos vulneráveis a situações horripilantes, mas nada que uma pessoa acostumada com a vida boêmia não saiba como contornar. Nem preciso lembrar que arrumei confusão na pacata cidade mineira que fica cheia de gente durante os dias de Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Porra, em pouco tempo fiquei conhecido como “o jornalista de Goiânia que veio brigar no interior de Minas Gerais”. Era engraçado, porque eu sentava no bar e de cara a galera me dizia isso.

 

Mas dane-se. O que importa é que eu estava imerso num rolê cinematográfico perversamente subversivo e livre. Creio que seja desnecessário dizer que vivíamos discutindo pelos cantos coisas relacionadas a distribuição de renda, socialismo e sétima arte – especialmente as vanguardas italianas do pós-guerra, conhecidas como neorrealismo e nouvelle vague. Era um tapa no moralismo ordinário ultradireitista.

 

Morena

 

Lembra da Morena que comentei na primeira matéria, publicada na semana passada?

 

Pois é, ela era carioca e estudava cinema numa universidade de destaque do Rio de Janeiro. Tínhamos bastante assunto em comum e o mesmo ímpeto boêmio – tanto eu quanto ela gostávamos de varar a madrugada acordado, discutindo cinema, cultura, artes e literatura pelas praças do Centro Histórico.

 

Em alguns momentos quase rolou algo entre nós, mas quando descobri que ela estava ‘ficando’ com Vagner tirei meu time de campo e resolvi virar brother dos dois. Tenho convicção total de que não há nada mais chato e deprimente do que perder uma amizade por conta de um comportamento desnecessariamente escroto. Assim, vendo hoje enquanto bato minhas experiências no teclado, acho que optei pelo caminho certo.

 

Foda. Minha vida amorosa é um problema seríssimo. Basta um elogio sobre alguma coisa que escrevi (e sobre minha capacidade intelectual) para meu coração começar a bater mais rápido. Não importa. Posso estar conversando sem segundas intenções, mas se rolar algum comentário nesse sentido, basta: fico como uma criança olhando para a roda gigante em algum parque de diversões em pleno domingo à noite.

 

No famigerado dia em que saí na porrada num bar chamado “Insanidade”, eu estava dançando ao som de Barão Vermelho com Morena. Enquanto Cazuza berrava “Pro dia nascer feliz/ essa  é a vida que eu quis”, sentia o remexer dos quadris apressados dela no salão de dança. Ficamos assim por longos minutos, por várias músicas. Lembro que passou pela caixa de som Blitz, Barão, Titãs, Doors e Queen.

 

Só coisa fina. O problema mesmo aconteceu na hora em que estávamos indo embora do recinto. Sem querer, minha então companheira jogou no chão um pouco de cerveja. Uma coisa sem importância dessas acabou virando algo sério de repente. O dono do bar gritou algumas coisas impronunciáveis a Morena, o que foi suficiente para eu tomar partido da situação.

 

Ironicamente, joguei minha cerveja em cima do tênis do sujeito nervoso. Isso foi o suficiente para ele vir para cima de mim furioso. Em um primeiro momento, consegui me esquivar dos murros dele, fazendo do meu braço um escudo. Quando a guarda do cara abaixou, dei um murro na boca do suposto agressor de Morena. Mas não tive nenhum minuto de trégua, pois os seguranças me desceram o cacete com um cacetete. Apanhei feio com fortes e harmônicas bancadas nas costas, nas pernas e nos braços.

 

Depois disso, o que minha memória tem registrado são poucos flashes. As outras aventuras com cineastas marginais você poderá acompanhar na próxima semana. Até lá.

 

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