Quando o cara está a fim

April 13, 2019

Botequim Literário do Beck

 

Escritor bebum norte-americano Charles Bukowski

 

Amiga leitora, alto lá, preciso dizer algo que está matutando meu calvo cocuruto zoado: quando o cara está a fim de uma mulher ele esquece as convicções que lhes são mais caras. Tá, talvez seja por pouco tempo. Mas, porra, já é alguma coisa. Ele é capaz de mudar, se transformar, virar uma espécie de Dom Juan pós-moderno escritor bebum norte-americano Charles Bukowski.

 

Quando o cara está a fim ele te leva em um restaurante vegano para almoçar mesmo sendo um carnívoro inveterado, mesmo que depois que te levar de volta ao trampo, pare na bodega da esquina para encarar aquele PF gorduroso. Mas, poxa, veja bem: o desgraçado até que tentou, né?

 

Quando o cara quer mesmo ele perde até o jogo do seu time, ainda que fiquei ligado no rádio do porteiro e arrumando desculpas para ir ao banheiro a cada cinco minutos checar o resultado. Mas já é um puta ganho e tanto.

 

Quando o cara está na fissura, ainda que sendo um autêntico tosco, quase uma versão do célebre personagem de Bukowski, Henry Chinaski, dá um jeito de ajeitar seu mocó de homem solteiro. Ele compra pelo menos duas tacinhas de quinta para o casal beber junto e tira aquele maltrapilho colchão da sala. Logo ele, meu Deus, um animal que reaproveitava os copos de requeijão que compra para a janta de cada dia.

 

Quando o cara quer agradar para ficar junto, ele vira um sujeito craque nos afazeres domésticos, como aquele protagonista de novela das oito que só existe na telinha. O cara, pasme, dá um jeito até nos seus talheres tortos e sujos - aliás, o cara lava a louça e deixa a cozinha nos trinques.  

 

Quando o cara te quer mesmo, minha camarada, ele faz até uma faxina, porcamente, é verdade, botando tudo para debaixo do tapete ou da geladeira. Haja bom-ar no recinto do Crimeia Leste, haja pinho sol no banheiro da quitinete do Universitário, haja SBP na sala daquele edifício da Vila Nova - inclusive, a operação Pinho Sol e SBP diz muito sobre o cara apaixonado.

 

Quando o cara acha que ama, ainda que ele seja o mais sedentário do universo, que faça piada no bar com a galera que procura manter o físico em ordem, o filha da puta vira o rei do atletismo. Tem condições de ir de Goiânia a Anápolis como o atleta Usain Bolt nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ele troca a picanha suculenta por beterraba, para até com a linguiça do boteco.

 

Quando o cara acha que está a fim, ainda que seja um fodido na vida e curta beber breja barata com os brother, ele cheira a rolha, sente o aroma gourmetizado e vira um amante incondicional de um bom vinho. É capaz de discorrer horas a fio sobre o aroma amadeirado, eita, Cabernet Sauvignon e Merlot, corra, minha cara, corra, este é o pior canalha que pode existir.

 

Quando o cara está a fim, seja para amar ou apenas para trepar, ele se transforma num típico picareta. Vai ao google diante de qualquer assunto que te pareça importante e se torna seguro para discorrer sobre o tema com a cara de pau comum aos especialistas. De uma hora para a outra, passa a sacar tudo de Chet Baker e Miles Davis.

 

Quando o cara está a fim… ele te impressiona. Pode ser apenas fissura sexual, pode ser apenas ilusão de ótica, pode ser o começo de um amor para valer, pode ser uma nova musa para seu novo livro (aí só se o vagabundo por escritor, e se for, vaza. Eles não prestam). Quando um cara está a fim vira um Lord Byron, o poeta impressionista, e deixa de ser um Henry Miller, o naturalista safado.

 

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