• Gabriell Araújo

"A Catedral de Notre-Dame tem importância em vários campos, não apenas para os franceses, mas p

Incêndio

Escombros da Catedral de Notre-Dame. Foto: Reprodução

No dia 15 de abril de 2019, o fogo destruiu parte de um dos monumentos históricos mais importantes da Europa. Apesar dos esforços do corpo de bombeiros, que foram bastante estratégicos para impedir resultados piores, o fogo consumiu todo o telhado e armação, além da abóboda e a torre mais alta, que não resistiram e desabaram.


Então, após o trágico incêndio na Catedral de Notre-Dame, procuramos o doutorando em história Hugo Rincon Azevedo, para responder alguns questionamentos que surgiram na internet desde que o fogo destruiu parte do monumento.


Hugo afirmou a importância de identidade e lugar de memória para os franceses, além de nos contar muito sobre a história que a Catedral de Notre-Dame carrega e representa para a Europa e principalmente para a França.


Confira a entrevista na íntegra:


Você poderia nos explicar em que contexto a Catedral foi criada?


A Catedral de Notre-Dame teve sua construção iniciada por volta de 1160, com a obra se arrastando pelos próximos dois séculos, além de diversas restaurações e ampliações motivadas por ataques e depredações ao monumento, especialmente no século XIX (durante e após a Revolução Francesa) e após as grandes guerras mundiais do século XX.


Ainda no início da Idade Média, por volta do século V, com a consolidação do cristianismo e a formação dos reinos romano-germânicos, o termo em latim Cathedra evocava a ideia de "cadeira" ou "casa do Bispo", e essa concepção etimológica foi se transformando junto com a sociedade do ocidente medieval pelos próximos séculos. Quando falamos sobre o período de construção da Catedral de Notre-Dame, o século XII trata-se especialmente de um momento marcado pela reabertura das rotas comerciais, de diminuição dos conflitos internos (como invasões de outros povos europeus), acirramento do conflito aos inimigos externos (leia-se Cruzadas, combate ao "infiél" e a expansão islâmica) e especialmente do chamado "Renascimento Urbano", que inicia um amplo processo de migração do campo (dos feudos) para as cidades.


Em suma: centraliza-se o poder dos reis, diminuem-se as influências das grandes casas aristocráticas e dos poderes locais, caminhando para centralização e construção das chamadas "monarquias centralizadas ou modernas" na Baixa Idade Média. No caso da França, mas também comum a outros reinos da Cristandade, a catedral representava um lugar do sagrado (pois era uma sede administrativa da Igreja e um lugar de culto), mas também a manifestação do poder político, tanto atemporal (do clero), como do poder temporal (também utilizados pelos reis como símbolo de poder no seu reinado). Com o aumento populacional nas cidades e consequentemente sua ampliação territorial, exigia-se a construção de obras arquitetônicas que exteriorizassem as novas demandas do período.


O estilo românico que até então dominava a arquitetura europeia já não estava à altura das necessidades dos fiéis nem das exigências de culto. Daí surgiu as catedrais do estilo Gótico (nome que o modelo arquitetônico receberia mais tarde, durante o Renascimento). A emergência dos monumentos góticos traz na sua principal característica (prédios altos), a evocação da concepção de altura como proximidade dos céus, e, portanto de Deus, eram monumentos que simbolizavam a grandeza do poder político dos reis e da Igreja, que eram visíveis por todo o meio urbano onde foram construídos, tendo no caso francês como principais exemplos a Basílica de Saint-Denis e da Catedral de Notre-Dame.


Como as novas gerações lidam com esse tipo de patrimônio histórico?


Essa é uma questão um pouco complexa. Depende muito da região, país e obviamente das políticas culturais e educacionais exercidas pelos variados governos. Se tratando de Brasil, nas últimas décadas houve um avanço de políticas públicas por meio do IPHAN, como também no ambiente acadêmico para uma maior valorização dos patrimônios culturais no país, tanto material como imaterial.


Porém, nos últimos anos, especialmente após 2016, os cortes de verba vêm diminuindo consideravelmente a manutenção de monumentos e museus, levando ao fechamento de importantes lugares de memória e a desastres como o ocorrido no Museu Nacional no Rio de Janeiro. Então, penso que no meio universitário há diversos grupos (formados por historiadores, antropólogos, museólogos, arquitetos, arqueólogos etc.) que têm voltado suas atenções para os estudos do patrimônio. Entre os mais jovens, do Ensino Básico, não vejo na matriz curricular uma maior valorização sobre essa questão, a não ser oficinas e trabalhos esporádicos geralmente integrando a disciplina de História. Isso acaba por diminuir o interesse das futuras gerações na preservação da memória de seu grupo étnico, da sua cidade, estado ou país.


Qual a sua análise sobre as recentes declarações opostas acerca do Museu Nacional e da Catedral de Notre-Dame do Presidente Jair Bolsonaro?


As declarações do presidente Bolsonaro, por incrível que pareçam, são coerentes com a sua limitação intelectual. Porém, caberia a sua assessoria de imprensa e demais assessores o auxiliarem nas manifestações que se espera de alguém que ocupe esse cargo.


Ao manifestar o seu pesar pelo ocorrido em Paris acerta na medida em que faz o que se espera de uma autoridade no âmbito da diplomacia (mesmo que o seu tweet parece uma simples cópia traduzida da manifestação do presidente norte-americano Donald Trump). Porém, é contraditório pregar um nacionalismo extremista "Brasil acima de tudo" e desvalorizar um dos principais lugares de memória do país, que abrigava vestígios de memória e identitários de diversos povos e culturas do Brasil e do Mundo, como o Museu Nacional, ao mesmo tempo em que valoriza o ocorrido com um monumento estrangeiro.


O incêndio na Catedral de Notre-Dame gerou uma enorme comoção no mundo. No Brasil uma aldeia indígena em Pernambuco tem escola e posto de saúde incendiados, possivelmente por posseiros que usam da coerção para amedrontar indígenas. Qual a sua opinião sobre essa comoção coletiva e seletiva que lamenta todas as perdas na Europa, mas não demonstra o mesmo abalo com problemas fora do território europeu como o incêndios em uma guerra ilegítima entre índios e posseiros?


Acho que temos que separar as coisas. Talvez possa se comparar o incêndio no monumento parisiense com o do Museu no Rio de Janeiro, que também causou muita comoção, inclusive fora do Brasil. Notre-Dame é um monumento que existe há quase nove séculos, e como definiu Alois Riegl na sua obra clássica "O culto moderno dos monumentos", a sua longevidade já é um forte elemento de importância histórica da Catedral.


Trata-se de um monumento símbolo do cristianismo, o que afeta toda uma comunidade ao redor do globo, símbolo nacional francês e europeu, um importante elemento construtor de memória e identidade francesa, especialmente ao longo da construção da nação no século XIX. Sozinha, Notre-dame recebe por ano duas vezes mais turistas do que o Brasil no mesmo período. É um monumento amplamente divulgado na mídia, sendo referência de obras literárias, cinematográficas e nas artes plásticas. Creio que isso explica um pouco a comoção mundial que um incidente desse tipo causa.


Quanto aos diversos conflitos pela terra e os massacres feitos por grileiros, posseiros, mineradores e produtores latifundiários contra povos indígenas são recorrentes na história do Brasil. A visão de boa parte da sociedade em relação aos povos nativos ainda é muito pejorativa, e a grande mídia, controlada ou financiada por corporações que estão envolvidas nesses conflitos agrários, mesmo que indiretamente, costuma ignorar ou não dar a devida importância para estes acontecimentos.


Quanto ao mundo político, uma das bancadas mais fortes é a ruralista, que está diretamente envolvida na promoção desses conflitos, daí podemos elencar as bancadas aliadas (como a Evangélica, da "Bala" etc.), além do próprio grupo que está no poder executivo. Entre estes, são vários os fatores que "escondem" ou evitam que se crie maior comoção por essas tragédias e genocídios cometidos contra os povos indígenas.


O incêndio vai ser investigado como acidente, existe alguma influência das políticas do neoliberalismo e/ou do governo Macron para que esse fatídico incêndio ocorresse?


Tenho visto algumas postagens nas redes sociais que problematizam que a Catedral sobreviveu a Idade Média, a Revolução Francesa e diversas guerras ao longo dos séculos XIX e XX, mas não sobreviveu ao Neoliberalismo.


Creio que tenha um fundo de verdade nessa perspectiva. Mesmo se tratando de uma Catedral com acesso público ao seu interior, pelo menos na parte da Igreja, Notre-Dame tem ainda a parte que consiste num museu, em que se paga ingresso para entrar. Essa renda não é o suficiente para a manutenção de um monumento tão antigo e que necessita sempre de restaurações e vistorias técnicas, de uma mão de obra especializada e muito cara.


A maior parte da renda dos patrimônios históricos provém do Estado, e na política neoliberal e austera pratica pelo governo Macron adota a concepção de corte de gastos e investimentos públicos, o que acaba por afetar diretamente órgãos responsáveis pela educação e a cultura, que geralmente gerenciam esses monumentos. Tanto que foi amplamente divulgado pela mídia que os administradores do monumento haviam solicitado verbas para manutenção e restauração há algum tempo.


Assim que informações sobre o incêndio começaram a chegar também chegaram boatos de que imigrantes ou terroristas teriam incendiado a Catedral, como você observa esse fato?


Acredito que é mais uma tática de grupos de extrema-direita para implantar fake news que joguem a população contra os povos ou grupos sociais que eles têm por alvo. No caso da Europa, especificamente na França, a xenofobia, a islamofobia e as políticas antimigratórias e contra os refugiados estão entre as principais pautas da extrema-direita, o que justifica a construção de mentiras como essa. Apoiadores do presidente brasileiro também repercutiram essas farsas pelas redes sociais por aqui.


De forma geral, qual a importância da Catedral?

A Catedral de Notre-Dame tem importância em vários campos, não apenas para os franceses, mas para toda a humanidade. É um símbolo de identidade e lugar de memória para os franceses, um lugar que guarda a história de um povo por mais de oito séculos. É também um patrimônio com representação significativa para a comunidade europeia, um expoente da arquitetura gótica, que nos traz até os dias de hoje, enquanto vestígio do passado, uma importante fonte de nossa história.


É antes de tudo um símbolo de fé, trata-se de um lugar do sagrado e um monumento importante da história do cristianismo. Notre-Dame é tombada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, e, portanto, um monumento com representação para todo o planeta. Acidentes deste tipo são muito graves e causam essa enorme comoção porque, citando uma entrevista à BandNews do Prof. Dr. Fabiano Fernandes (Unifesp), "[...] quando um museu pega fogo, como infelizmente aconteceu conosco no Museu Nacional, uma parte da humanidade morre junto. A memória das pessoas estava entranhada naquelas pedras, figuras e imagens [...]". Então, a importância da Catedral não é apenas a sua estrutura, as pedras que erguem o monumento, mas o valor, o símbolo, a memória que ela evoca e nos sentimentos dos povos que ali se representam.