• Marcus Vinícius Beck

O som revoltado da Rattus

Crítica

Assisti o show da lendária banda finlandesa no último domingo (28), em Goiânia


Basta você ouvir os primeiros acordes tocados pela banda finlandesa de punk hardcore setentista Rattus para pensar “que som estridente”. Essa foi minha primeira impressão ao deparar-me com a sonoridade do grupo que influenciou os paulistanos do Ratos do Porão. Os europeus tocaram no palco da Monkey, no último domingo, fechando o rolê “Gyn Punk Inferno”.


Minha percepção musical (geralmente tomada pelo rock clássico e cheio de LSD da década de 1960, de The Doors, Rolling Stones, Jefferson Airplane, entre outros) fodeu de vez quando meus tímpanos foram tocados – literalmente – pelas guitarras ver revoltadas de Jake, pelo baixo descaralhante de Tomppa e pela bateria frenética de V-P. Era um show que tinha a marca do cenário underground: antifascista por natureza.


Antes dessa verborragia impressionada, senhora e senhores, preciso contar um pouco a história do movimento punk para você compreender o que falei nos parágrafos acima. Vamos lá: a cena surgiu nos anos 1970 e teve como suas principais capitais musicais Londres, dos Sex Pistols e The Clash (London Calling, vai dizer que nunca ouviu?), e Nova Iorque, reduto dos Ramones, Stooges e The Heartbreakers.


Até aí, nada de mais, mas acontece que a gélida Finlândia deu uma enorme contribuição sonora para a consolidação do punk, ainda que lá seja uma cultura extremamente diferente para a maioria do planeta. Mas, deixando tal incongruência de lado um pouco, daí vem a origem da galera do Rattus.


Formada em 1978, a banda tornou-se uma lenda no estilo, sendo responsável por influenciar várias gerações de músicos, inclusive no Brasil, conforme citei no primeiro parágrafo. O grupo começou a fazer sucesso na era analógica, no início dos anos 80, época em que não tinham as facilidades de difusão por meio dos serviços de streaming que vemos hoje.


Da pequena Vilppula, sob influência das grandes bandas de punk inglês, o grupo começou a participar de turnês pela Finlândia ao lado de uma galera de renome no cenário mundial, como The Exploited e Dead Kennedys – ah, só para lembrar, meus caros, os norte-americanos cancelaram (ou arregaram?) apresentações no Brasil após desenho do cartunista brasileiro Cristiano Suarez.


Como eu ia falando, o show da Rattus foi interessante e creio que lavou a alma de vários fãs de rock antifascista. As letras das músicas, apesar do meu singelo desconhecimento do idioma finlandês, passeiam por temas que vão desde questões políticas, passando pelo combate ao autoritarismo e, é claro, falando sobre da ascensão da extrema-direita.


Tanto que, durante a passagem deles pela cidade de Belo Horizonte no último sábado (17), em entrevista ao jornal O Estado de Minas, quando tocaram no festival Metal Punk Overkill, referiram-se aos grupos neo-fascistas (em ascensão no mundo) como “essa merda de extrema-direita é popular em todos os lugares”.


Enfim, após esta retórica jornalística impressionada, não há como esperar nada menos do que transgressão musical durante um show dos finlandeses. É uma experiência interessante, ainda mais em tempos onde os reacionários passaram a ocupar os espaços de poder. Portanto, os gélidos europeus são fodas.


Para fechar, o que preciso insistir neste garrancho é que o rolê underground da Capital goianiense ganha mais vida quando bandas do calibre da Rattus – e sua musicalidade essencialmente antifa - tocam num bar-estúdio daqui. Jesus Santíssimo! Porque estamos vivendo sob a batuta preocupante do autoritarismo, e é preciso resistir.


Discografia


Álbuns


WC Räjähtää, 1982 (WC Explodes)

Uskonto On Vaara, 1984 (Religion Is A Danger)

Stolen Life, 1987

Rattus, 2005

Uudet Piikit, 2007 (New Thorns)


EPs

Fucking Disco, 1981

Rattus On Rautaa, 1981 (Rattus Rocks)

Rajoitettu Ydinsota, 1982 (Limited Nuclear War)

Ihmiset On Sairaita, 1985 (People Are Sick)

Singles[edit source

"Khomeini Rock", 1980

"Win Or Die", 1988