Valeu, Beth Carvalho

Luto

Morta em decorrência de infecção generalizada na última terça-feira, cantora foi uma das maiores expoentes do Samba e o cantou até seus últimos dias

Beth Carvalho na capa do disco “Os Botequins da Vida”

 

Se a cantora Beth Carvalho inventasse fazer outra coisa da vida e deixasse a música de lado, certamente o samba não seria como conhecemos hoje. Mas, calma! Para além das suas inegáveis qualidades vocais e estéticas, ela ficou conhecida pelas ideias e práticas sociais (e políticas) que defendeu ao longo da vida – Beth subia o morro atrás de talentos e descobria-os com a naturalidade de quem senta no bar para saborear uma cerveja depois de um dia exaustivo no trabalho.

 

Antes de ficar conhecida como Madrinha do Samba, Beth Carvalho arriscou-se em fazer jazz, bossa nova, toada, forró, canção de protesto (fez dueto com a compositora argentina Mercedes Sosa, expoente do movimento peronista de resistência à Ditadura Militar no país vizinho, na música “Sólo Piedo a Diós”). Porém, como é comum na vida dos que se sobressaem, ela foi fisgada pelo som dos botequins e subúrbios.

 

De classe média e branca, Beth tinha a possibilidade de ter ficado no rolê da chamada MPB – alcunha que foi criada em festivais como aquele famoso que rolou em 1968, na Record. Apesar de sua condição social não flertar com o samba, ela o escolheu. E uma escolha dessas assim - com essa coragem - não deve ser interpretada como algo meramente profissional. Vira opção de vida, tal como nos contou o artista multifacetado Chico Buarque, na peça de teatro “Ópera do Malandro”, de 1978.

 

Nas suas andanças pelos morros do Rio, conquistou a simpatia de compositores do calibre de Cartola (que lhe cedeu a música “As Rosas Não Falam”) e Nelson Cavaquinho (autor de “Folhas Secas”, que ela só não conseguiu gravar porque César Camargo Mariano entregou a música para Elis Regina). Beth, transitando entre diferentes gerações e ambientes, resolveu cumprir um rito obrigatório para todo sambista: associar-se a uma escola de samba. E ela escolheu a Estação Primeira Mangueira.  

 

Nesta época, meados dos anos de 1970, a Madrinha do Samba já tinha assegurado um lugar no seleto rol das grandes intérpretes. Mas só isso não bastava. O álbum “Nos Botequins da Vida”, lançado em 1977, demonstrou a intenção de perambular nos lugares em que o samba nasce e circula, ao invés de esperar que as composições chegassem a si. Músicas de primeira linha, como “Saco de Feijão”, de Chico Santana, e “Olho por Olho” , de autoria de Zé do Maranhão e Daniel Santos, surgem neste momento.

 

Madrinha do Samba

 

Nas peregrinações pelos morros, Beth encontrou diversas rodas de sambas. Nelas, viu sons e composições que transportou ao LP “De Pé no Chão”, de 1978, obra que é comumente citada como a mais importante de sua carreira. O disco é reverenciado até hoje como o trabalho que deu um novo passo para mudar a cara do samba. Mas, com o sucesso, quem disse que Beth Carvalho sossegou? Ela seguiu atenta aos novos nomes que pintavam na área.

 

Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho... Estes foram alguns nomes responsáveis por lhe dar a alcunha de Madrinha do Samba. Ela, então, passou a usá-la sem moderação e alguns artistas não se sentiam satisfeitos diante do rótulo de afiliado de Beth Carvalho, mas ela não se incomodou nenhum pouco com as queixas dos novatos.

 

Beth, embora seja difícil acreditar em algo do tipo, também provou o veneno que aniquila diversos cantores: a pouca venda de discos (isso numa época em que o vinil e veiculação em rádio contavam muito). E, novamente, ela tratou de subverter a lógica e endossou o coro do pagode (aquele de mesa, de chão, de boteco, não esse que rola nos estúdios milionários cujos artistas são camaradas de mimados jogadores de futebol) e voltou a cantar para grandes plateias.

 

É claro que Beth Carvalho – pelo amor de Deus! – sempre teve um bom traquejo para o sucesso, como nos mostram músicas clássicas que ela cantou até o final da vida, como “Coisinha do Pai”, lançada em 1979, “A Chuva Cai”, de 1980, “Firme e Forte”, gravada em 1983. O que acontece é que o conceito de sucesso, adotado pela indústria fonográfica, é que havia mudado, e o grotesco e o trivial.

 

No final da vida, acometida por um problema na coluna, a Madrinha do Samba cantou de cadeira de rodas, cantou deitada, cantou samba como foi possível... Beth Carvalho fez do gênero a opção de sua vida e engajou-se politicamente em momentos críticos (como na campanha pelas Diretas Já!, em 1984, e durante o impeachment que destituiu Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, em 2016).

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

November 23, 2019

November 22, 2019

November 21, 2019

November 19, 2019

November 18, 2019

November 18, 2019

Please reload

Posts Recentes
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle

Apoie o jornalismo independente e contribua para que o Jornal Metamorfose continue a publicar.

Fale com a gente: sigametamorfose@gmail.com