• Marcus Vinícius Beck

Um monólogo surrealista

Teatro

Espetáculo “Dalí” mostra trajetória do pintor espanhol desde a descoberta do surrealismo até os dias em que ele viveu em Nova Iorque

Atriz Adriana Veloso durante o espetáculo “Dalí” (foto: Divulgação)


Na pintura, ao contrário do que rolou nas outras expressões artísticas, o movimento surrealista assumiu no imaginário coletivo feições singulares de universos oníricos brilhantemente retratados por um dos maiores gênios do século XX: Salvador Dalí. Trinta anos depois, o artista espanhol ainda é o mais popular entre os diversos nomes que se associaram ou foram simpatizantes desse movimento de vanguarda que despontara no início dos anos de 1920, em Paris.


Guiado pelo escritor francês André Breton, autor do Manifesto Surrealista, de 1922, o movimento contou com Paul Éluard como seu poeta mais famoso e logo conseguiu vários seguidores dispostos a aceitar os ditames de Breton, a quem cabia sustentar o rótulo de “papa do surrealismo”. Muitos abandonaram o chamado surrealismo ortodoxo, porém sempre tiveram suas ideias ligadas - de alguma forma - ao estado anárquico de seus desejos (principal bandeira do movimento que mudou a cara da pintura).


Foi o caso de Dalí, acolhido num primeiro momento quando foi viver em Paris. Em um estalar de dedos, o espanhol conquistou a admiração dos intelectuais e artistas de vários países que viviam na capital francesa e tinham a mesma visão de arte e literatura proposta por Breton e Éluard. Nesta altura, já expulso da Academia de Artes de San Fernando, era amigo do poeta Federico Garcia Lorca, que lhe escreveu os versos “Oh! Salvador Dalí, de voz azeitonada!/ Digo o que me dizem a tua pessoa e teus quadros.”


Garcia Lorca, apaixonado pelos quadros de Dalí, dedicou ao amigo o poema “Ode a Salvador Dalí”. E esse lirismo foi um dos pontos altos da peça “Dali”, que assisti na última quarta-feira (8), no Centro Cultural da UFG. Em cartaz até amanhã, o espetáculo contou a história de vida do pintor espanhol que flertou com o anarquismo na juventude - sendo crítico mordaz de instituições e autoridades - e virou simpatizante da ditadura de Francisco Franco, a mesma que assassinou Garcia Lorca, homossexual e antifascista.


“Dalí” é um monólogo com direção de Hugo Rodas e com a atriz goiana Adriana Veloso na pele do ícone surrealista. Na peça, Veloso despeja, em desordem - como se fosse um fluxo de consciência -, os pensamentos, as loucuras, o gosto por dinheiro e o amor de Dalí pela esposa Gala Éluard Dalí, mostrando que a timidez que ele tinha na infância e adolescência foi o fator que lhe serviu como uma espécie de mola propulsora e evidenciando a genialidade, a excentricidade e obsessão do artista.


“Viver Salvador Dalí no teatro é uma responsabilidade enorme. Primeiro, porque sou uma mulher. Segundo, a marca registrada dele é o bigode, e eu não o uso. Então, você precisa estar muito dentro do personagem para que as pessoas vejam realmente o Dalí”, avalia a atriz Adriana Veloso, em entrevista ao Jornal Metamorfose. “Eu me sinto bem realizada fazendo esse trabalho, me sinto bem completa. Monólogo sempre exige muito do ator, qualquer deslize pode desconcentrar e sair do personagem”.


Roteiro



O roteiro foi escrito com base nos livros “Diário de um gênio”, lançado em 1963 por Salvador Dalí, e “La Vida desaforada de Salvador Dalí”, publicado em 1997 pelo escritor Ian Gibson, além de ter como fonte entrevistas e documentários sobre o próprio artista. A peça cai bem para os apreciadores de arte e detentores de sensações fortes, mas também é didática e pode servir como porta para conhecer a vida de um dos artistas mais loucos, transgressores e originais do último século.


“Dali” é o quarto espetáculo da Cia Benedita de Teatro, que completou 10 anos de história em 2017. Nos últimos anos, foram montados três espetáculos dirigidos por Hugo Rodas, como “Édipo”, “Incidência” e “Esquizofrenia”. Segundo a atriz Adriana Veloso, o motivo que a levou escolher representar Salvador Dalí é diverso e está ligado ao fato de o surrealista ser o mais filosófico, paranóico-crítico e teatral dos artistas plásticos das vanguardas artísticas do século XX.


Em conversa com o Jornal Metamorfose, a atriz Adriana Veloso comentou que desde criança a estética surrealista lhe chamou a atenção. “O método paranóico de Salvador Dalí, que nem ele sabia definir direito, sempre me interessou. Na minha adolescência, via muitas matérias sobre ele e o tinha como uma figura polêmica, teatral. Então, passei a fazer bastantes pesquisas sobre esse ser e descobri que era bastante tímido. Fio o que me motivou a fazer Dalí”, relata.


O espetáculo conta com apoio do Centro Cultural UFG e foi viabilizado financeiramente com verba do Fundo de Arte e Cultura de Goiás. “Dalí” visitou, de 2017 para cá, diversas cidades brasileiras, como Juazeiro do Norte (CE), Rondonópolis (MT), Palmas (TO), cidade de Goiás e Morrinhos. “Dalí” vai à escola é um projeto que tem como objetivo levar artes cênicas aos colégios públicos. Apresentação de amanhã será com versão em libras.


Serviço

Dali vai à Escola

Data: de terça a sexta-feira (10)

Horário: 15h e 20h

Onde: Centro Cultural da UFG

Endereço: Praça Universitária

Entrada Franca