• Júlia Lee

O chamado para a música de mensagem

Música

Artista independente, Caio é um dos grandes nomes da nova música nacional que surge com uma forte mensagem de resistência

Fotos: Rodolfo Magalhães


Era um dia de lua cheia, o céu estava limpo na cidade cinzenta quando recebi de uma amiga bruxa a música “Sente o tambor”, do cantor Caio. Fiquei hipnotizada, primeiro pela produção audiovisual que veio como combo da música eletrizante do artista, o clipe conta com referências ancestrais e tem uma forte pegada espirituosa, misturando tons amarelados que deu um ar poético para a produção.


Sua música é potente porque Caio traz uma mensagem forte de resistência e consciência espiritual, que se misturam fortemente com sua visão libertária de como a sociedade deveria ser. A igualdade, conexão com o planeta e nossa relação com o universo são temas frequentes em suas letras, como a música “Da Macumba” que afronta dizendo "não sou o medo da noite que sempre amedronta você/ Não sou aquela mentira que disseram na tv, comigo é bem mais embaixo/ Isso posso prometer, não venha com cambalacho pra tentar me convencer, não use da minha fé pra defender o seu vitimismo".


Em entrevista exclusiva ao Jornal Metamorfose, Caio me conta que “acredito na arte quando a música ultrapassa a melodia e vira uma causa. Todo esse caldeirão de ideias definiu o caminho de Sente o tambor, em paralelo já estou trabalhando em outras músicas. Pra mim é obrigatório ter brasilidade, pode ter uma rítmica diferente mas é quem eu sou, como me enxergo, além de todo esse repertório de vivência religiosa, social e familiar traz essa proposta de sentido novo e antropológico”.


Confira a entrevista completa abaixo, conversamos sobre espiritualidade, música, poética, resistência e futuro. Venha descobrir comigo quem é Caio:

Jornal Metamorfose: Você lançou um clipe cheio de referências indígenas, negras e ancestrais, e eu achei muito curioso porque você tem uma energia, uma áurea, uma coisa. Me conta, da onde vem isso, de onde você vem?



Caio: Vou até pegar um comentário que eu vi no Youtube, que uma pessoa comentou assim “esse menino tem uma coisa sombria nos olhos, eu não sei o que é mas é hipnotizante”, e eu acho engraçado. O lance é onde eu me formei espiritualmente para refletir no meu som desde a infância, eu sempre senti uma conexão muito forte com esse invisível que a gente chama de Deus - Cosmo - Universo e eu fui criado numa igreja evangélica.


Então minha família é protestante né, só que independente da igreja eu sempre senti que tinha uma conexão. Eu lembro que sempre tive muita fé, e eu sentia que meu pai tinha que estar na igreja. Eles eram separados, eu morava com a minha mãe, e eu via que era o sonho da minha mãe o meu pai entrar na igreja pra eles poderem reatarem o casamento. Eles se separaram eu era muito novo, minha mãe faleceu quando eu tinha 10 anos, e na igreja você aprende isso de que você precisa orar pela sua família para que eles conheçam Deus. E eu levava isso, fazia campanhas na igreja, levava óleo pra casa ungido da igreja, lambrecava parede e portas, e assim eu tinha uns 12 anos.

So que a medida que eu me tornei adolescente, até pela minha sexualidade, a igreja deixou de ser confortável porque a doutrina não me acolhia. E eu nunca me conformei com isso. Como que podia Deus, essa coisa tão perfeita e sublime, não tolerar minha sexualidade. Se eu não faria isso com outra pessoa como Deus que é maior do que eu seria pior do que eu?


E fui atrás da minha resposta, comecei a questionar tudo que eu aprendi, eu me perguntava "Se eu faço isso por que Deus não ia fazer?". Isso começou a ser meu mantra pra ir desconstruindo esse lugar de culpa e limitação que a gente aprende muito no cristianismo tradicional. E eu precisava aprender outras coisas e a vida foi muito generosa e trouxe um cenário novo a cada relacionamento que eu vivi, todos foram nascidos naquelas crenças que confrontavam as minhas. E eu ficava pensando "Cara na verdade esse conceito do divino tá muito além do que eu aprendi porque na real tudo tá falando a mesma coisa”.


Eu frequentava os lugares e via que era tudo a mesma coisa, e antes de conhecer por exemplo as matrizes africanas na umbanda, afro brasileira né, eu sonhava que eu tava no terreiro quando era criança. E eu não sabia explicar, até achava que tava “endemoniado”, então há uma coisa no tambor literalmente que sempre me puxou. Porque uma coisa que sempre me marcou é que sempre tive sonhos vividos, e eu já tive premonições também. É uma coisa louca esse papo mas...


Jornal Metamorfose: E como você vê a música dentro desse contexto de conexão?


Caio: Eu me identifiquei com essa coisa do subjetivo do energético porque eu vivia real numa casa que era assombrada, minha mãe, minha irmã e eu todos víamos coisas, a gente ia dormir a noite e no teto começava barulho de arrastar corrente sabe. Não era eu sozinho vendo essas coisas, mas ao mesmo tempo eu sempre me busquei como pessoa porque essa conexão com o divino sempre foi muito forte em mim.


Eu me iniciei na música dentro da igreja e toda vez que eu cantava, eu sentia muito forte essa conexão. Foi quando começou essa saga na minha cabeça: não posso cantar porque tô fora da igreja; e isso de uma certa forma me doía por dentro porque eu amava cantar e sentia aquela conexão. Enquanto isso eu tava tendo minha vida pessoal homoafetiva, tendo relacionamentos, vivendo outras experiências religiosas e buscando minhas perguntas. Até que me permiti a tudo.


Foto: Rodolfo Magalhães

Joguei um tarot com uma xamã, fiz roda xamânica, cursei numerologia, fiz um período de medicina egípcia, frequentei umbanda um tempo, o candomblé, conheci o hare Krishna, Ayahuasca, tudo que eu achava que eu tinha que fazer eu fiz, entendeu? E me achei em tudo mas não me vi em nada, e isso que é o louco.


Porque tudo que eu via me falava sobre mim mas ao mesmo tempo não era o que eu era, porque eu sempre fugi de dogma e toda vez que eu começa a frequentar algo vinha um dogma eu ficava “acho que o tempo aqui ja deu”. Então eu fui atrás da física quântica, fiz astrologia, li tarô... Eu amo o místico, me encanto então eu acho até legal porque quanto mais a gente conhece sobre algo que é um tabu, mais a gente se empodera disso.


As pessoas têm medo do desconhecido. Hoje eu tava ensaiando uma música nova do repertório que se chama "Da macumba", eu adoro brincar com isso! Não no sentido de desrespeito, mas de levar as pessoas a refletir que ela se acha tão santo que se acha digna de ganhar um feitiço e é muita autoestima. Cara, sua vida tá uma merda por sua culpa, não te jogaram um feitiço tá entendendo?


Essa música fala "eu sou da macumba cuidado ao me cruzar/ Eu sou da macumba, dá licença pra eu passar", já em outro trecho ela fala "não sou o medo da noite que sempre amedronta você/ Não sou aquela mentira que disseram na tv, comigo é bem mais embaixo/ Isso posso prometer, não venha com cambalacho pra tentar me convencer, não use da minha fé pra defender o seu vitimismo". A fé é algo que sempre me moveu, eu sempre senti isso muito forte que hoje eu chamo de energia de universo.


Eu amo um ritual, amo a ritualística, os símbolos sabe? Porque eu acredito mesmo nas coisas Junguianas, que todo símbolo traz uma mensagem de consciência coletiva e é por isso que eu amo o tarô. Porque quando eu tiro o tarô, por exemplo, eu vejo o meu coração mas vejo ele em cartas, e meus amigos falam "ai vamo tirar tarô hoje", mas tá o que você vai ver no tarô hoje já tava dentro de você, não é místico assim de UAU, não cara é de física mas as pessoas não enxergam assim ainda né.


Jornal Metamorfose: Depois de ter saído da igreja, por onde você começou sua descoberta musical?


Caio: Em paralelo eu quis voltar a cantar mas não sabia como me conectar com esse transcendente, comecei no samba com influência do meu pai que era pandeirista, em banda de pagode. Eu sempre amei brasilidades, eu AMO a música brasileira.


Eu experimentei o samba com uma amiga que conheci na padaria, eu vi ela cantando e fiquei “nossa você canta bonito”, e a gente começou a conversar, aí nessa começamos o projeto Baú novo. Foi quando eu comecei a compor também, e nisso o Baú novo foi acontecendo, era uma banda autoral de samba que misturava com umas influências bem moderninhas e fomos crescendo na cena goiana.


Foi bem legal essa experiência, mas eu queria mais porque eu comecei a dançar desde criança, minha mãe me colocou na dança da igreja, também tive uma experiência teatral na infância. Foi quando eu construí uma maturidade e fiquei "cara eu quero fazer isso de forma séria", e o samba não me daria possibilidade de ser um artista pop performático. Foi quando cada um começou a seguir seu próprio projeto, e eu entrei no pop, mas aí eu fui na cabeça de ir no que tava acontecendo e criei um epzinho de funk misturado com música latina. Logo depois experimentei um jazzão bem jaz americano, lancei umas músicas mais farofonas também.


Fiquei tentando me achar musicalmente durante 3 anos.


Jornal Metamorfose: Nessa busca, o que você encontrou?


Caio: Eu sempre busquei aquilo que eu sentia quando eu cantava lá na infância, sabe? Eu me perguntava cadê aquele meu ascendente, eu não estava me conectando e isso me machucava porque a música pra mim é um canal. Nessa época eu conheci o Felipe Sasha através de uma figurinista, quando a gente se conheceu ele conversou comigo olhando nos meus olhos e me disse “caio você não é a pessoa do Instagram, você é completamente diferente da pessoa que tá ali, você não é esse artista. Você tem tanto pra colaborar com as pessoas, com a sua voz, sua vivência e seu discurso porque isso não tá na sua música?”, e isso foi um choque pra mim.


Depois disso entrei em uma fase de hibernação, eu fiquei exatamente 1 ano sem lançar nada deixando vir essa voz, essa composição e essas coisas que tavam no meu coração sem medo. Tudo que eu escrevia ia pro místico pro africano e indígena sabe? Pra bruxaria, pro deixar fluir.


Ai no meio disso, teve um dia que eu fui numa gira de umbanda, se não me engano de boiadeiro, ai eu tava lá concentrado quando começou a curimba, me veio tudo na cabeça! Apareceu a música Sente o tambor inteira pra mim, peguei o celular e comecei a escrever a letra. Até hoje quando eu ouço a frase de “De golpe, ataque/ Palavras de araque/ Armadilhas em vão/ Pra me derrubar”, eu fico de onde veio isso? Porque esse vocabulário não estava na minha cabeça naquele momento, a música veio de descarrego. Eu não me considero autor, eu me considero um canalizador das músicas.


Depois de Sente o tambor começou a vir uma leva de músicas, eu fiquei uns 10 meses compondo e entrando nesse processo de achar esse transcendente no pop com a minha cara, com o Brasil. O porquê de Brasil é que eu me identifico com esse discurso, porque é como eu me vejo, como eu vejo nossa nação. Eu tenho um pai preto e uma mãe filha de descendentes indígenas, sabe eu presenciei dentro da minha casa o racismo. Meus pais se separaram dentre muitas razões pelo racismo dos meus avós com ele, que gerou uma situação conflituosa entre eles a vida inteira.


Jornal Metamorfose: E como foi pra você lidar com esse racismo dentro de casa, com tanta influências diferentes mas que ao mesmo tempo sempre te puxaram pra sua conexão com a ancestralidade?


Caio: Ah, eu achava muito louco porque a minha mãe tem um pai descendente italiano e uma mãe que é descendente indígena da região de Itamogi (MG), e ali tinha os índios botocudos. E eu sempre me vi sendo filho de uma família que quando eu tava com a paterna mestiço no meio de uma família preta, e numa família indígena com traços europeus onde eu tenho primos loiros do olho verde, tios com traços mais claros e uma expressão muito indígena. Eu também me sentia bem no meio do caminho, quando me perguntam quem sou, respondo o universo brasileiro. Sou a mistura e porque a gente não assume a mistura?​


Esse caldeirão todo efervesceu na produção de Sente o tambor, quando eu comecei a gravar com o produtor Hugo Black eu falei “Black eu quero um som brasileiro, eu não quero um som gringo com notas brasileiras, eu quero um som brasileiro com pop, com arranjo de que gringo tá fazendo mas não o que os outros falam do Brasil. Quero que as culturas recebam o Brasil”. Ele não sabia como a gente ia fazer isso então resolvemos experimentar uma frequência de batida xamânica que tem tambor a todo momento com afrobeat e uma métrica de samba, além de elementos eletrônicos.


Fomos construindo a música e quando ficou pronta eu fiquei caraca é essa a música que eu ouvi! Que tem muito isso quando eu to em produção, eu fico com produtor até ouvir o que tava na cabeça.


Jornal Metamorfose: Já o clipe também carrega todo um significado né, como foi essa produção?


Caio: Foi do Felipe Sassi a direção e o roteiro. A gente foi construindo de forma conjunta mas ele que criou toda a parte criativa, e nasceu do Sente o tambor enquanto música, porque a gente tava amadurecendo como ela seria enquanto vídeo.


Aí um dia a gente tava vendo um filme muito bom brasileiro, que se chama Boas maneiras com a Marjorie Estiano, que é um filme contemporâneo sobre o lobisomem. Disso eu comecei a reparar que não tinha muita obra visual sobre o folclore brasileiro, e antes de falar desse filme eu já tava com o papo de mestiçagem, falando sobre quem é o mestiço, eu tava consumindo canais trazendo esse discurso pra entender qual o papel do mestiço contemporâneo. E isso veio muito forte com a construção em cima de Sente o tambor, esse desejo de construir uma brasilidade folclórica.


Só que além do folclore, eu falei pro Felipe que queria muito trazer o discurso da ancestralidade registrada na minha família, e eu queria abordar a família brasileira! Tenho pai preto e mãe indígena, como isso pode vir pro vídeo? A gente começou a estudar muito pra fazer de forma respeitosa e bonita, o felipe estudou as lendas e como usar no clipe, e eu comecei a estudar o discurso social mesmo pra gente trazer a força brasileira através do vídeo complementando a música. O Felipe começou a roteirizar e pensar nas cenas, elas foram desenhadas ao redor das lendas e no meio disso a gente representou as lendas de forma miscigenadas. Afinal, o saci que é indígena com influências africanas, assim como conversa com o preto velho, zé pilintra.


E filmar foi doido porque tinha muita energia ali, quando a gente foi se programar de fazer a filmagem a gente não sabia onde ia ser ainda, disso recebemos uma indicação de uma amiga falando de uma fazenda que quando fizemos contato com eles descobrimos que era uma fazenda que lá tinha uma senzala histórica. Lá foi a primeira fazenda brasileira a migrar de mão de obra escrava para mão de obra remunerada com os imigrantes europeus, então tinha uma energia ancestral foda.


Jornal Metamorfose: E as próximas músicas, serão reunidas em um EP?


Caio: Então, eu vou lançar uma prévia que é uma versão ao vivo do q pode ser o álbum, mas a gente vai chamar só de Caio mesmo, será gravado no Show Livre ao vivo. O álbum ainda não tem nome definido mas eu tenho um desejo muito grande de quando ele sair se chamar “Antes de mim” porque pra falar da história é basicamente isso. Pra falar quem veio antes que eu reverencio, eu sinto uma energia muito velha perto de mim no sentido de mentores que cuidam mesmo, eu não consigo falar isso em qualquer entrevista mas eu não consigo falar de uma forma racional o processo artístico pra mim. Pq ele não é, ele vem do som, da conversa, às vezes de uma visão, ai vejo uma pessoa mas na verdade era um espírito...