• Marcus Vinícius Beck

A voz da resistência

Victor Jara

Assassinado pela ditadura militar chilena, cantor passou a ser visto como símbolo de resistência nos protestos contra o neoliberalismo; veja como foi sua vida e obra

Cantor cercado de criança na fundação que leva seu próprio nome


Perceba o seguinte: o cantor e compositor chileno Victor Jara (1932-1973) está com o nome marcado na história da música de protesto latino-americana. Morto pela ditadura implantada pelo general Augusto Pinochet em 1973, suas canções vieram à tona mais uma vez. Manifestantes que ocupam as ruas do mais vizinho em protesto contra as políticas neoliberais de Sebastián Piñera tem a música “El Derecho De Vivir”, um dos maiores sucessos de Jara, uma maneira de expressar alto e bom som desejo de mudança.


Para termos uma ideia, a canção – que fora gravada em 1969, como protesto pela intervenção americana no Vietnã – chegou na semana passada ao topo da lista de 50 músicas do Spotify do Chile. “El Derecho de Vivir”, que representa uma ode à resistência contra a ditadura de Pinochet, está na voz de milhares de manifestantes descontentes com as medidas de austeridade que fazem do custo de vida no país andino um dos mais caros do mundo.


Preso em 12 de setembro de 1973, após ser consolidado o golpe contra o então presidente Salvador Allende, Victor Jara foi encaminhado para o Estádio Nacional de Futebol. Lá, sofreu várias sessões de torturas e, mesmo com as mãos quebradas em decorrência da série de agressões das quais fora vítima, ele continuou fazendo música em apoio ao Partido da Unidade Popular. Foi silenciado apenas quando levou um tiro na cabeça, seguido de uma rajada de metralhadora. Seu corpo tinha 44 sinais de perfuração.


Jara queria dar voz à classe trabalhadora e camponesa do Chile. Como é possível notar nestes versos: “Não Canto Por Cantar/ Nem Por Ter Boa Voz/ Canto Porque O Violão/ Tem Sentido e Razão/ Tem Coração de Terra/ E Asas De Pompinha/ É como água benta/ Cruza Glórias e Tristezas”. Além de “Manifesto”, o cantor ficara conhecido pelas músicas “Perguntas por Puerto Montt”, “Venceremos” e “Te Recuerdo Amanda”, gravada por Mercedes Sosa, Joan Baez e Ivan Lins.


Talentoso compositor com afinidades ideológicas comunistas, Jara era também professor, poeta e diretor de teatro. Nascido em 1932, em Chilán Viejo, no Chile, era filho caçula de um lavrador e uma cantora amadora. Cresceu na extrema pobreza e conheceu de perto um regime de trabalho quase feudal. Quando tinha 15 anos, perdeu a mãe em função de um Acidente Vascular Cerebral e, sem rumo, foi parar num seminário. Também tentara uma carreira no exército, mas a arte falou mais alto.


Na década de 1950 passou pela Universidade do Chile. Um encontro com a cantora Violeta Parra (1917-1967), no entanto, fez com que Jara retornasse à música popular. Passaram-se os anos e Salvador Allende, presidente com inclinações à esquerda eleito a partir do voto da população, foi destituído do poder com ajuda direta da Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA. Mas as músicas de Jara, ao contrário do que a ditadura queria, não deixaram de circular pelo Chile.


Para conhecer mais


No ano passado, o Chile condenou nove militares pela morte do cantor. Em janeiro deste ano, o serviço de streaming Netflix colocou em seu catálogo a série “ReMasterede – Massacre no Estádio”, documentário sobre o artista que fala sobre a busca da família por justiça. “Uma canção de Victor Jara era mais perigosa do que 100 metralhadoras. Era um artista que tinha uma ligação espiritual bastante particular com o povo”, diz um dos depoentes, que também resistiu contra a ditadura, logo no início do filme.


Em suas apresentações, Jara fazia discursos contundentes e defendia a música enquanto canal de comunicação popular e, portanto, uma forma de semear mensagens de cunho libertárias. Para ele, era preciso dar um “basta de músicas que não dizem nada. Que nos divertem por um momento e nos deixam vazios. Começamos a criar um novo tipo de canção”. “É importante a aliança dos estudantes com os trabalhadores”, afirmava o cantor, que chegara a ser filiado ao Partido Comunista do Chile.


O filme, que foi dirigido pelo cineasta Bent-Jorgen Perlmutt, conta com entrevistas de advogados da família Jara, depoimentos de vários dos que foram detidos com ele no Estádio Nacional e de soldados que foram recrutados pela ditadura chilena e torturaram e mataram milhares de presos políticos. Além disso, a trilha sonora, composta pelo pianista Camilo Salinas, do grupo de música folclórica Inti Illimani, remete à história militar do Chile durante a década de 1970.