O maldito dos malditos

October 31, 2019

Luto

Cantor Walter Franco morreu na semana passada em decorrência de um AVC; artista deixa enorme legado à MPB

Foto: Reprodução

 

Walter Franco, 74, era um cara à frente de seu tempo. Cantor, compositor, poeta sereno, bem-educado e gente boa. Isso, no entanto, não foi capaz de impedir que ele se metesse em polêmicas ao longo de sua trajetória musical e tivesse reações ferozes. Como naquela vez em que recebera vaias no Festival Internacional da Canção, em 1972. Ali Walter apresentou ao público “Cabeça”, uma música que estava bem adiante daqueles dias sombrios de Ditadura Militar. Ficou puto com o público que lhe vaiara e atirara dados.

 

Nascido em janeiro de 1945, Walter Rosciano Franco morreu na quarta-feira (23) na cidade de São Paulo em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido no início deste mês. Nos últimos anos, o cantor passou por cirurgias cardíacas, porém seguiu fazendo shows pelo País. Suas apresentações – nos últimos tempos – não batiam recorde de público, mas sempre reuniam pessoas de diferentes gerações. Walter preparava um novo disco – o sétimo da carreira e o primeiro em 18 anos.

 

O paulistano sempre foi um artista de vanguarda, e provavelmente tenha sido o cantor e compositor mais moderno da música brasileira nos anos 1970. Veja só isto: Que é que tem nessa cabeça, irmão/ que é que tem nessa cabeça, ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba irmão/ que é que tem nessa cabeça saiba ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela não pode irmão/ que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão”.

 

São versos influenciados pelo movimento concretista. Quando Walter lançara o disco “Ou Não”, em 1973, trabalho de estreia, a crítica musical discutiu por bastante tempo qual era o álbum mais experimental da época. Dois estavam no páreo: “Ou Não”, de Walter Franco, e “Araçá Azul”, que botou Caetano Veloso sob os holofotes no mesmo ano. Pense: era um gigantesco choque de modernidade, talvez nunca visto na Música Popular Brasileira (MPB). “Cabeça” era ‘uma canção não canção’.

 

Ué, como assim? Explico: a música toda era constituída por versos delirantes, com frases musicais que se interrompiam e versos quebrados. Todos sobrepostos uns sobre os outros, dando um quê confuso e a sensação de que as ideias estavam saindo do controle. Detalhe: a maluquice musical de Walter Franco rolava em plenos anos de chumbo da Ditadura Militar. A partir dessa constatação, é possível realizar vários tipos de interpretações em relação à música “Cabeça”. Dê um play no youtube e escute.

 

Júri

 

Composto por nomes de peso nas artes, como Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat, o júri escolheu por unanimidade a música “Cabeça como vencedora do Festival Internacional da Canção. Em função das vaias e da presença de censores e milicos nos bastidores do evento, o resultado final precisou ser refeito: quem levou para a casa o prêmio foi o cantor e compositor Jorge Ben Jor, com a canção “Fio Maravilha”.

 

Claro que uma repercussão dessas não poderia ter outro resultado senão uma carreira diferenciada e marcante para a Música Popular Brasileira, ainda que tenha durado relativamente pouco. E foi bem isso que acontecera. Na capa branca, havia apenas uma mosca no meio da imagem. Na contracapa, título e ponto final. Sim, eram poucos elementos por fora. O recheio mesmo fica por conta das novidades: influência da poesia concreta, pitadas de psicodelia, complexidade sonora e simplicidade instrumental.

 

A obra-prima foi realizada dois anos depois. Influenciado pela banda inglesa The Beatles, o disco “Revolver” possui faixas com estrutura harmônica mais, digamos assim, convencionais. Para termos uma ideia, algumas composições contam até com uma roupagem mais clássica, como é o caso de “Eternamente”. Em 1979, lança “Vela Aberta e emplaca dois hits: “Vela Aberta”, balada mais limpa, e o rockão “Canalha”, também alvo de vaias no festival da extinta TV Tupi.

 

Sobrou ainda tempo para gravar ainda o disco “Water Franco”, em 1982, musicalmente mais fraco que os outros, é verdade. O cantor retornou para o mercado fonográfico apenas em 2001, com o disco “Tutano”, trabalho que lhe rendeu participação especial do cantor, compositor e fã Arnaldo Antunes. Mesmo com todos esses ingredientes, a carreira de Walter não teve uma retomada significativa, tanto que nos últimos anos o artista vivia de arrecadação de direitos autorais e um ou outro show aqui e ali. 

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