O vale do Orvalho

November 23, 2019

Games

A conexão emocional dos jogos com nossa história

 

Vivi a maior parte de minha vida na cidade grande. Durante muito tempo morei em Guarulhos, o segundo maior município do estado de São Paulo, para depois me mudar para a capital. Mas nem sempre foi assim, por uma boa parte da minha infância tive contato com a natureza e o mar na cidade litorânea de Peruíbe, passava os dias pedalando a minha velha magrela, conhecida como bicicleta, me enfiando no meio do mato e pescando no antigo portinho, digno de uma histórias de terror de H.P Lovecraft. Teve uma vez que até avistei um OVNI longe no horizonte do porto! Nunca pedalei tanto na minha vida. 

 

Naquela época tudo era mais simples e belo, meu pai trabalhava na cidade grande enquanto minha mãe ficava em casa aguardando o seu retorno aos finais de semana conosco. Eles decidiram em um momento investir em uma chácara, era um lotezinho de terra arenoso que ficava perto do mar, mas com muita história para contar. Meu pai construiu uma casa, galinheiro e baias para os cavalos. Plantava-mos de tudo um pouco, desde milho a até abóboras! Às galinhas passavam a maior parte do tempo soltas ciscando o chão atrás de bichinhos enquanto os cavalos eram escovados e alimentados com cubos de açúcar nos estábulos. 

 

Isso não durou para sempre, nos mudamos para a cidade grande e meus pais se separaram, sofremos várias crises e somente a pouco tempo que estamos relativamente bem. Mas tudo acaba vindo com um preço, e ele nem sempre é cobrado em dinheiro.

 

É muito difícil explicar para quem não joga videogames os sentimentos e memórias que eles podem despertar. Só quem joga sabe, e muitas vezes falhamos em tentar deixar claro o porquê disso. Um dos maiores impactos que tive com um jogo foi com Stardew Valley. Ele começa com seu personagem trabalhando em um escritório deprimente de uma grande corporação, a Joja Corporation. Eu vi muito de mim  refletido naquele cubículo mal iluminado, trabalhando sem parar para tentar alcançar metas que são impossíveis de alcançar, ouvindo a reclamação diária de clientes e superiores, sem um momento de paz. Mas no jogo eu tinha uma chance de fugir disso. Ao abrir a gaveta da minha mesa, uma carta.  

 

“Se você está lendo isso, significa que você está desesperado por uma mudança na sua vida. Há muito tempo atrás, o mesmo aconteceu comigo. Eu perdi de vista o que mais importa na vida: vínculos concretos com a natureza e outras pessoas. Foi então que decidi largar tudo e me mudar para o meu verdadeiro lar.” - Carta do Avô. 

 

Largando o emprego, sigo para a pequena cidade de Stardew Valley, pronto para recomeçar minha vida! Meu avô deixou para trás como herança um lote de terra abandonado, cheio de ervas daninhas e rochas, um casebre velho e uma estufa estilhaçada aos pedaços. É tudo o que eu preciso. 

 

 

 

Me vejo logo cortando as ervas e quebrando as rochas. Abrindo espaço para começar minha plantação e um bom lugar para colocar meu galinheiro e estábulo. Todos os dias vou para o portinho com minha varinha de pesca para pegar alguma coisa e ver o dia passar, volto para minha terra e cuido de minha plantação. Trabalho duro no campo e quando tenho tempo, vou ver os meus vizinhos. Até ajudei a reconstruir o centro comunitário da cidade, como o belo comunista que sou. A sombra da minha velha corporação também encosta aqui, o mercadinho local luta para sobreviver ao mercado de Joja Corporation que acabou de se instalar ali, com preços tão baixos que os comerciantes locais sofrem para competir, tudo planejado para os obrigar a fechar as portas, não enquanto eu estiver por aqui. 

 

O jogo é lindo, com seus gráficos em pixel art remetendo a era do Super Nintendo e uma trilha sonora relaxante, ele é um tipo diferente de desafio. Enquanto muitos jogos usam verbos muito comuns no meio, como atirar e matar, aqui os predominantes são criar e cuidar. Existe um pequeno elemento de combate quando você entra nas minas para extrair metais para melhorar suas ferramentas, mas é mínimo. A maior parte do tempo você vai estar cuidando dos seus bichos e regando suas plantas. E é claro, se preparando para os festivais que cada uma das quatro estações do ano trás.  O meu preferido é o da pesca no gelo! Quem pegar mais peixes, leva para casa um espantalho especial para sua horta. 

 

 

 

Stardew Valley me trouxe essa sensação que eu sentia na pequena chácara da minha família, um lugar para recomeçar minha vida e criar laços de verdade com as pessoas. Quando se vive na loucura da cidade grande 24 horas por dia sem poder parar, aquelas poucas horinhas dentro do meu mundinho acabam sendo um retorno a minha infância, não apenas por ser um jogo, mas por me transportar para um tempo que eu era mais feliz. 

 

O jogo foi criado pelo desenvolvedor Eric Barone, mais conhecido como ConcernedApe. Foram quatro anos de desenvolvimento solo até seu lançamento no PC em 2016. Em apenas dois meses, mais de um milhão de cópias foram vendidas. Hoje ele pode ser encontrado em praticamente todas as plataformas, inclusive no IOS e Android (versão do jogo que peguei). 

 

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