• Marcus Vinícius Beck

Nouvelle Vague em luto

Cinema

Anna Karina é considerada uma das maiores atrizes do cinema; ela morreu em decorrência de um câncer

Atriz Anna Karina - Foto: Reprodução


Nascida em 22 de setembro de 1940, ela se chamava Anna Karina. Era dinamarquesa. O pai abandonara a família em Copenhagen, a mãe não estava nem aí e era preciso urgentemente mudar de vida. Quando desembarcou em Paris, em 1958, para tentar a carreira de atriz, foi surpreendida.


Passou fome, fez alguns bicos como modelo, até que o cineasta Jean-Luc Godard ficou com um baita tesão - ele a chamou para participar do filme Acossado, de 1959, mas havia no roteiro uma cena em que ela teria de tirar a roupa, e Karina desistiu. Godard, contudo, não. E deu certo.


Juntos fizeram o longa O Pequeno Soldado, de 1960. Desta vez, Karina não viu problemas no papel, e o aceitou prontamente. Apaixonaram-se no set e ela foi a protagonista de Uma Mulher É uma Mulher, no ano seguinte - críticos avaliam esse filme como o ‘mais feliz’ do diretor francês.


Karina atuou ainda no longa Viver a Vida, em 1962, obra mais filosófica, mais sociológica, mais densa de Godard... um clássico que até hoje é cultuado e reverenciado por cinéfilos. Nela, a atriz alçou voo para ser reconhecida como uma mita do cinema e como o principal rosto da Nouvelle Vague.


Nesta altura, Godard e Karina estavam vivendo um romance transbordante que serviu de inspiração para outros filmes do diretor francês. É neste período que o cineasta começa a dar os primeiros sinais de algo que marcaria sua vida ao lado da atriz: o ciúmes doentio, que despontou especialmente quando ela decide filmar com o diretor Michel Deville.



Embora o relacionamento dos dois tivesse pontos altos e outros nem tão altos assim (vale ressaltar que eram o casal mais estiloso da época), Anna Karina descobriu que estava grávida em dezembro de 1960. Godard, é claro, não teve dúvida: propôs Karina em casamento, e diante de Deus - ainda por cima.


Esse período foi bastante feliz para o casal, mas o matrimônio começa a degringolar quando a atriz perde a criança. Até a separação propriamente dita foram momentos de brigas intensas, ruptura e reconciliação.


É dessa fase “Banda à Parte”, de 1964, Alphaville, lançado em 1965, O Demônio Das Onze Horas, do mesmo ano, Made in USA, de 1966, e o episódio dirigido por Godard de Paris Visto Por…, produzido em 1965.


A derrocada do casamento se consolidou após Banda à Parte. “Foi uma relação extraordinária mas era impossível viver com ele. Ele queria que eu passasse a vida esperando-o em casa”, disse a atriz, de acordo com o jornalista Álex Vicente, do El País.


Karina, então, começou a trabalhar com outros diretores.


Filmou com George Cukor, em Justine, de 1969, Luchino Visconti, no longa O Estrangeiro, de 1967, R.W Fassbinder, no filme Roleta Chinesa, de 1976, (este reverenciado como uma das melhores atuações da atriz) e Raúl Ruiz, em A Ilha do Tesouro, lançado em 1994.


Multifacetada e vanguardista, cantou ainda as partituras do cantor e compositor Serge Gainsbourg, que escreveu uma comédia musical para ela e a levou a interpretar um de seus maiores sucessos, Sous Le Soleil Exactement.


Direção e literatura


Anna Karina também enveredou pelo caminho das letras e assinou quatro romances - um deles com o prefácio do escritor Patrick Modiano. Chegou a realizar ainda três filmes como diretora, recebendo críticas negativas no Festival de Cannes, em 1973, por Vivre Ensemble.


Com talento para representar a juventude, o filme conta a história de amor entre um professor casado e uma mulher boêmia. “Não se entendeu que uma atriz quisesse trabalhar como diretora. Era uma cultura machista, muito mais que hoje”, afirmou Karina, em 2017.


Mesmo com todas essas conquistas em diversos campos das artes, a atriz ficou com o nome ligado ao do diretor Jean-Luc Godard para sempre. Após duas décadas sem se falarem, o diretor dedicou à ex-companheira algumas palavras bem amáveis.


De acordo com ele, a atriz era uma mulher que olhava para o mundo com sentimentos, que se limitava apenas as palavras. Como este diálogo do longa Viver a Vida: “Por que devemos falar? Muitas vezes deveríamos nos calar, viver em silêncio. Quanto mais fala-se, menos as palavras significam”.




Ultimamente, ela era vista apenas em festivais de cinema. Em 2017, recebeu homenagem pela sua carreira e se declarou a favor que movimento #MeToo. Como poucas, Karina transmitiu com intensidade a ideia, o espírito, o propósito e o jeito da juventude.


Talvez por isso críticos insistam em dizer que houve um declínio em sua carreira na década de 1970, em que ela teria feito apenas um único filme memorável. Pouco importa. O que importa é que o cinema não será mais o mesmo sem a presença de Karina telonas.

Conheça os principais filmes de Anna Karina


‘O Pequeno Soldado’


Primeiro filme de Godard com Anna Karina, o longa-metragem O Pequeno Soldado retrata a Guerra na Argélia. Foi paixão instantânea: Jean-Luc Godard casou-se com Karina e ambos trabalharam juntos em diversos filmes na sequência.


‘Viver a Vida’


O longa aborda a história de Nana, uma jovem que trabalha numa obra de discos e está desiludida com a pobreza e o péssimo casamento. É considerado o filme mais filosófico, mais sociológico, mais belo e o mais denso de Godard.


‘Uma Mulher é Uma Mulher’


A história foca em Angela (Anna Karina), uma dançarina de cabaré, que deseja ter um bebê e tenta convencer seu namorado, Émile (Jean-Claude Brialy), a ir adiante com a idéia, mas ele não concorda. Assim, ela acaba procurando o amigo de Emile, Alfred (Jean-Paul Belmondo), para realizar seu desejo.


‘Banda à Parte’


Dois rapazes tentam convencer uma estudante a ajudar numa ação perigosa: roubar a fortuna de seu patrão enquanto um deles vive um romance com ela. Sim, é o filme que sacramentou o início do fim do casamento de Anna Karina e Jean-Luc Godard.