• Marcus Vinícius Beck

Marginalidade literária

Literatura

Setores que sempre estiveram à margem do mercado e da academia conseguiram protagonismo no meio editorial

Escritor Reinaldo Moraes



Foram debates, foram livros instigantes, foram tretas e mais tretas em relação à próxima Flip... Foram, na verdade, tantos acontecimentos que o escriba pode ser facilmente engolido pela velocidade do noticiário, mas é preciso ficar atento: em 2019 o Slam passou a ser visto como uma legítima manifestação poética, o escritor porra-louca Reinaldo Moraes (certamente o melhor romancista brasileiro em atividade) lançou seu novo livro e o jornalista Carlos Messias provocou os padrões estéticos da literatura.


Mas, e em Goiânia, se perguntará com razão o leitor? Bem, por aqui a coisa também foi, digamos assim, um tanto tesuda. Os poetas Mazinho Souza e Fernanda Marra lançaram Cobra Criada e Taipografia, respectivamente. Este escrevinhador publicou o livro-reportagem Diário Subversivo: Dias de Embriaguez, Utopia e Tesão, onde narra os bastidores da ocupação da Rádio Universitária da UFG em protesto contra a PEC 241, no ano de 2016, considerado o maior levante estudantil, em Goiás, desde a ditadura.


Aliás, uma das iniciativas mais interessantes que rolaram na Capital no ano passado foi o Slam Falatu. Uma vez por mês, no Bosque dos Buritis, no Setor Central, o Coletivo Café com Chá reunia nomes da nova geração da poesia goianiense numa batalha que contava com versos críticos e de conscientização política. Essa também foi uma tendência encontrada no cenário nacional, com a participação da modalidade na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, pela 1ª vez.



Criado em Chicago em 1986, o “poetry slam” se consolidou como uma das faces mais excitantes socialmente da literatura contemporânea, com mais de 200 grupos espalhados por diferentes estados da federação. Embora seja uma competição de poesia falada, o slam – por ser um movimento social – dialoga com as periferias e leva à literatura temas até então pouco explorados, como o preconceito, a sexualidade e a baixa representatividade política de determinados grupos.


2019 também foi ano de polêmica. Assim que o nome da poeta norte-americana Elizabeth Bishop foi anunciada como homenageada da Flip, autores, editores e acadêmicos passaram a reclamar da escolha e até iniciaram um movimento de boicote à festa. O argumento era compreensível: Bishop fora simpática ao golpe militar de 1964, que, nas palavras dela, foi “uma revolução rápida e bonita”. Havia a expectativa de que o autor homenageado fosse negro ou ligado às pautas identitárias.


Tinha, inclusive, uma campanha encabeçada no meio da intelectualidade para a escolha de Carolina Maria de Jesus, autora da obra Quarto de Despejo e descoberta pelo jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé, em São Paulo, na década de 1950 - episódio é relatado no livro de memória Tempos de Reportagem. Mesmo dizendo que leva em consideração os posicionamentos contrários a Bishop, a Flip disse que a poeta americana segue como homenageada. Ela viveu alguns anos no Brasil e escreveu obras importantes aqui.


Neste ano, o escritor Reinaldo Moraes retornou ao mercado editorial com o romance Maior que o Mundo, depois de dez anos de hiato – última obra lançada fora a epopeia etílica Pornopopéia. No novo romance, Reinaldo mostra que está em forma, com personagens junkies que perambulam de bar em bar atrás de uma breja, de um téco, de um beque – ou, no caso de Kabeto, protagonista da história, da primeira frase para o novo livro. Reinaldo mostrou que é um dos maiores escritores brasileiros vivos.


Houve tempo também para os jovens talentos. O jornalista Carlos Messias, ex-repórter de cultura do jornal Folha de São Paulo, lançou uma das maiores surpresas do mercado editorial em 2019: o romance Consolação. Após perder o trampo e a mulher, numa tacada só, Marcos Camargo (protagonista da obra) resolve tirar o atraso e transar com 100 minas. O livro tem como pano de fundo das manifestações de 2013, as eleições de 2016 e a ascensão do conservadorismo.


É uma crônica do comportamento dos millennials na era das mídias digitais. Afinal, se o sexo casual não salva, é algum consolo.

Também em 2019

‘O Romance da Minha Vida’

Considerado pelo próprio Leonardo Padura como seu melhor trabalho, a obra passeia por diferentes momentos da história de Cuba. “O Romance da Minha Vida” tem uma narrativa bela e não esconde o amor de Padura pelo seu país. (Gênero: Romance/ Páginas: 328/ Editora: Boitempo)

‘Jornal da Tarde: Uma Ousadia que Reinventou a Imprensa Brasileira’




O jornalista Ferdinando Casagrande mergulha na história do irreverente vespertino da família Mesquita. Passa pela censura imposta pelo regime militar ao O Estado de São Paulo e como os jornalistas burlavam os censores no JT. (Gênero: Livro-reportagem/ Páginas: 364/ Preço: R$ 52,90)



‘Crônicas Para Ler em Qualquer Lugar’




Com crônicas do jornalista Xico Sá, da atriz Maria Ribeiro e do humorista Gregório Duvivier, a obra perpassa por momentos turbulentos da história recente do País, mas não deixa de falar de sexo, comportamento, literatura e, é claro, boêmia - no caso de Xico. Boa leitura. (Gênero: Crônica/ Páginas: 112/ Preço: R$ 44,90)