• Marcus Vinícius Beck

Aquele pedido

Botequim Literário do Beck


Cena do filme 'Jules et Jim', de Truffaut

Eis uma croniquinha safada.


E, por isso, com antecedência, peço desculpas aos caros leitores, e leitoras, por ser tão direito. Logo eu, um escriba que ainda insiste em beber na fonte da velha e boa crônica de costumes, aquela mesmo que arejara as páginas dos jornais brasileiros nas décadas de 1950 e 1960, com Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Sabino e companhia limitada.


Como já deve ser do conhecimento de vocês, curto uns arrodeios no verbo, porém a hora mais comovente de um homem, e que atire a primeira pedra o cara que não gosta disso, é quando a gente puxa a moça, ali na enredada das preliminares, sentindo o tesão provocado pelos minutos de dengos orais, e ela manda: “não quer me comer de quatro?”


É pra já, quem sou eu pra recusar...


É uma hora sagradíssima, de um dos pedidos que justificam a nossa existência, mais valioso, arrisco a dizer, que um gol do Corinthians contra o Palmeiras, mais prazeroso que uma viagem de ácido ao som de The Doors, mais sensível que os versos do poeta Federico García Lorca, é uma experiência incrivelmente incrível, ops, desculpe a redundância - é que este pedido deixa a gente meio bobo, com dificuldade de manipular o vernáculo, rs.


“Não quer me comer de quatro?” é tão visceral, ou mais, do que a prosa da escritora Anais Nin, é tão lindo e belo quanto os filmes de Federico Fellini, é tão necessário quanto as obras cinematográficas de Àgnes Varda. O “não quer me comer de quatro” é como a sinfonia de Frank Zappa, é como a poesia de Cazuza no disco Só Se For a Dois, é como a onomatopeia erótica e sensual do feioso Serge Gainsbourg e da beldade Jane Birkin.


“Não quer me comer de quatro?”, uma indagação sublimemente sexual, requer que lembremos os versos do maior cantor de todos os tempos. Sim, é óbvio que falo do hino A Noite Mais Linda do Mundo. Gênio do cancioneiro romântico, o Odair José. E por isso, puxo os versos do cara: “Felicidade não existe/ O que existe na vida/ São momentos felizes”.


Que momento feliz! É o mantra mais sagrado delas, é o incêndio da hora, da madrugada, de todos os momentos, todos los fuegos – em espanhol aportuguesado mesmo – o fogo, bem ele, tal como na prosa do escritor Cortázar.


Peço-te perdão, minha cara leitor (a), por ir tão direito ao ponto, e de forma tão vulgar. Mas há momentos em que isso é necessário, espero que você entenda.


“Não quer me comer de quatro?” é o chamado para a psicanálise erótica de línguas e dedos, com o cheiro dela na tua barba, a redenção, você feliz da vida, chutando tampinhas para dentro dos bueiros, meu caríssimo João Antônio, sorrisão estampado na cara.


Somos homens, seres muitas vezes limitados, mas uma coisa é certa: “não quer me comer de quatro” tem o poder de cessar guerras.


Tesão demais!